Existem orquestras de jazz que são instituições musicais, mas isso não é um privilégio generalizado. O caso mais conhecido e longevo vem da Orquestra de Count Basie, que mesmo após a morte do “pianista mais econômico que o swing já viu”, em 1984, segue em atividade, sob liderança do diretor Scotty Barnhart.

Bandleaders como Duke Ellington e Fela Kuti são alguns agraciados que tiveram o legado expandido por músicos remanescentes – assim como o trompetista Thad Jones e o baterista Mel Lewis, que também fazem parte desse rol; até hoje, a Vanguard Jazz Orchestra, com instrumentistas da Thad Jones/Mel Lewis Orchestra, dissemina a obra da big band mais excitante do jazz dos anos 1960/70.

Thad tem forte vínculo familiar: seu irmão mais velho, Hank Jones, era pianista renomado, que tocou com Cannonball Adderley e, pasmem, Marilyn Monroe durante o polêmico “Happy Birthday, Mr. President”, de 1962. O irmão mais novo, Elvin Jones, é o exímio baterista que ajudou John Coltrane a revolucionar o ‘post-bop’ ao lado do pianista McCoy Tyner.

Além do mais, Thad Jones já havia tocado na orquestra de Count Basie, repertório essencial para que a manutenção do swing fosse uma das grandes prerrogativas para montar a big band ao lado de Mel Lewis – também bastante experiente: tocou com Stan Kenton, Sonny Stitt, Bud Shank, entre outros.

Ainda que nos anos 1960 as big bands fossem cada vez mais impraticáveis, devido aos altos custos de contratação, a dupla seguiu em frente. Estreou em 1966, gerando grandes expectativas: tanto Thad quanto Mel eram bastante conhecidos, assim como o time de músicos que convidou para a estreia: o trombonista Bob Brookmeyer, os saxofonistas Pepper Adams e Joe Farrell e, claro, o irmão Hank, são só alguns deles.

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O empresário Max Gordon fez questão de abrir as portas do lendário (e ainda ativo) Village Vanguard para que a orquestra estreasse.

Realizada em 7 de fevereiro de 1966, com ótima captação do engenheiro de som George Klabin (então com apenas 19 anos), a primeira de uma série de apresentações no mais renomado local de Nova York para se ouvir jazz foi histórica: evidenciou que o comprometimento com o swing seria a variável que conectaria aqueles 18 músicos.

Temas como “The Little Pixie” e “Back Bone” ganharam sua primeira versão nessa apresentação, que acaba de ser relançada num CD duplo com booklets e fotos inéditas. Trata-se de All My Yesterdays, da Resonance Records, gravadora de propriedade daquele jovem engenheiro de som, oficialmente lançado em 19 de fevereiro de 2016 – ou seja, 50 anos depois.

A qualidade sonora é tão boa, que a música parece ter sido registrada há poucos anos.

Vale lembrar que o Village Vanguard, nesse caso, foi mais que essencial para que a ‘pureza’ fosse preservada. Não é á toa que o pianista Jason Moran chegou a dizer: “A maioria dos clubes de jazz não têm o som daquele lugar. É o local em que Moisés, Maomé e Jesus andaram!”.

A desenvoltura da orquestra ainda é perene – graças a isso, talvez, dê pra perceber uma sonoridade solta demais. O estilo de Thad em criar ‘backgrounds frenéticos’ com a sessão de metais ganha espaço em takes como “Don’t Ever Leave Me” e “Big Dipper”. Para isso a colaboração do baixo de Richard Davis é crucial: ele interliga toda a sessão musical num continuum onipresente, acelerando a entrada dos demais membros.

O escopo do que se tornaria a essência de Thad Jones/Mel Lewis Orchestra está em “Back Bone”. Ela é puxada pelas notas do sax alto de Jerry Dodgion, até Thad demarcar as entradas que tornam-se simultâneas aos poucos. “É um brutamontes furioso”, disse o crítico Patrick Jarenwattananon, do NPR. “Sua energia crua, o ruído da multidão, os gritos de Thad e seus companheiros de banda e os outros músicos na sala – aqueles caras estavam irados”.

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All My Yesterdays reúne 17 canções de duas apresentações no Village Vanguard (a segunda foi registrada em março daquele 1966).

Não seriam essas as únicas performances daquele lugar. A partir dali, todas as segundas-feiras, sem exceção, contariam com apresentação da Thad Jones/Mel Lewis Orchestra – algo que se mantém até hoje, com a Vanguard Jazz Orchestra.

Se a casa de shows de Max Gordon deu o start a uma das orquestras de jazz mais inventivas dos últimos anos, também testemunharia seu auge artístico, que não demoraria a vir.

Nesse caso, o álbum de 1967, Live at Village Vanguard, é uma pepita à parte.

São 9 canções que mostram um formato catedrático de composição. A versão de “The Little Pixie” (já mostrada no material de All My Yesterdays) exibe um Roland Hanna ao piano muito afeito ao bop, tipo Bud Powell mais controlado (Hanna ficou no lugar de Hank). O elemento catártico é inserido por Thad Jones, enquanto a bateria de Mel Lewis relativiza aos poucos as entradas que o baixo radical de Davis insiste em perfazer durante a música.

O ato de estar por trás de uma orquestra deu a Lewis a responsabilidade da assistência. Em canções como “Bachafillen”, a impulsão inicial vem de sua precisão arrebatadora. Mel é o fator segurança, enquanto Thad se destaca como o contumaz arranjador e solista que instiga o elemento revigorante da orquestra.

A versatilidade é notável característica da orquestra, mas tanto Thad quanto Jones partem do princípio de construtivismo musical em que a participação importa mais que o resultado final da música. É por isso que as peças soam tão intrincadas, de início, até se desprender; o estímulo respeita e até se baseia no repertório de quem está ali presente, um ensinamento de bandleader herdado de Ellington.

Nos final dos anos 1960, o jazz começava a se interligar com as possibilidades dos aparatos elétricos. Falar de swing, naquele momento, era remeter a um passado de glórias – em que o passado pesa muito mais que a glória. Já nos anos 50, Basie, Ellington e Kenton testemunharam o desinteresse do público com as grandes orquestras, portanto, criar uma big band naquele momento não era uma decisão comercial muito sábia.

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Tudo aconteceu por acaso. Thad Jones e Mel Lewis integravam a Concert Jazz Band, de Gerry Mulligan, até que, em 1964, ele decidiu terminar com ela para focar em seu quinteto. “Isso levou diretamente à criação da Thad Jones/Mel Lewis Orchestra”, contou o biógrafo do baterista, Chris Smith.

Durante todo o ano de 1965, Lewis estimulou Jones a criar as composições, enquanto coordenava situações musicais diferentes ao mesmo tempo em que trabalhava em discos de Oscar Peterson, Gary McFarland e Barbra Streisand.

Já com um punhado de temas prontos, a orquestra foi montada, contando com a ajuda de membros essenciais: o baixista Davis, com quem Lewis afiou o background rítmico adequado para ‘instigar’ a corpulenta sessão de metais; e o excelente trombonista Bob Brookmeyer, que já teve experiência como bandleader. O arranjo de “Willow Weep For Me”, por exemplo, é dele: havia sido originalmente composta para a Concert Jazz Band, mas Mulligan recusou por ter odiado o resultado.

“Não pode ser suficientemente salientado o quão importante as composições de Brookmeyer foram para o desenvolvimento do estilo da Thad Jones/Mel Lewis Orchestra”, escreveu Smith. “Seus conceitos de harmonia, forma e textura igualmente contrastavam e complementavam o estilo de composição de Thad”.

Entre as composições do trombonista, vale destacar o ótimo arranjo de “Samba Con Getchu”, com influências da rumba cubana, o samba brasileiro e as explosões de Kenton e Dizzy Gillespie: é uma das melhores performances de Live at Village Vanguard.

Mas, tratando-se de gêneros tradicionais, nenhum se sobressai como o blues. Ele pode ser usado como ponte nas notas do trompetista, mas serve principalmente como estrutura para Lewis. “Ah That’s Freedom”, uma das mais célebres da orquestra, é o clássico exemplo de ‘blues da libertação’, cuja movimentação se agiganta aos poucos.

Todos os músicos da Thad Jones/Mel Lewis se complementam, mas é o “espírito flexível das pequenas formações” do baterista, como salientou o crítico Joachim Ernst-Berendt, e a magnificência de Thad que fecham a colcheia da orquestra. Dessa forma, o swing deixa de ser a cartilha; torna-se consequência.

“As composições e arranjos de Thad Jones são obras magníficas de surpreendente criatividade, cheia de contrastes e giros inesperados”, descreveu Berendt. “Ele descortinou para o mainstream tradicional das big bands um novo mundo de possibilidades harmônicas, melódicas, rítmicas e também técnicas”.