01 The Horn 02 The Way Home 03 Bells in the Air 04 Out There 05 Scruntch 06 A Cactus and a Rose 07 Chant 08 Meadows 09 A Game of Catch 10 Waves

11 Windows With a View

Gravadora: Wide Hive

Pelo menos uma geração inteira separa a obra do saxofonista Roscoe Mitchell do baterista e multiinstrumentista Tyshawn Sorey.

Roscoe é de uma escola que vivenciou as dissonâncias do free-jazz e criou um método conjuntivo de unir as possibilidades sonoras do gênero em uma estrutura própria.

O atonalismo, para Roscoe, é um alicerce musical, e não a procura absoluta que fez com que muitos críticos e parte do público associassem o gênero à ‘música de improviso’. Esse rigor musical foi bem aprimorado com o seu trabalho no Art Ensemble of Chicago desde o lançamento de Sound (1966), que dá uma nova possibilidade à abertura musical de Ornette Coleman (considerado o pai do avant-garde; inclusive, Sound abre com uma faixa que se chama… “Ornette”).

Graças a esse rigor musical, o jornal New York Times o vê como um ‘músico iconoclasta’, seja lá o que isso queira dizer.

Já Sorey vira-e-mexe é fotografado atrás de um kit de bateria, mas seus dotes musicais também são notáveis em instrumentos como piano e trombone. Com apenas 32 anos, ele transita facilmente entre a arte mais conceitual da música clássica para as vertentes mais explosivas do jazz.

É justamente na meticulosidade musical em um gênero tão associado à espontaneidade que Roscoe Mitchell e Tyshawn Sorey dialogam em Duets With Tyshawn Sorey and Special Guest Hugh Ragin, que foi lançado dia 26 de março pela Wide Hive Records.

Nesse erigir sonoro, Roscoe chamou o trompetista e parceiro de longa data Hugh Ragin, que estabelece um contraponto atonal com o sax do veterano buscando linhas impactantes que não exatamente têm a ver com virtuosismo.

As entradas de trompete em faixas como a espaçosa “Chant” ou a balada “The Way Home” dissociam do sax como um escape. Entre um sopro e outro de Roscoe, há brechas que são matematicamente preenchidas por Ragin. Não a todo momento, claro – em momentos calorosamente (ou friamente) calculados.

Certo, e onde Sorey entra nessa história?

Na própria “The Way Home”, ele assume o piano e o pincela de forma descontínua, explorando compassos que remetem a um Mike Garson mais fragmentado. São as suas transgressões que formam o timing ideal para Roscoe partir de uma espécie de balada blueseira para o mais catártico do avant-garde. Aquele sax estremece os sentidos e aí você percebe: que encaixe adequado para exibir virtuosismo!

A preocupação nata com o timing é o que faz de Duets… um álbum que se sustenta em mais de uma hora de duração. Com 11 faixas, onde apenas uma delas tem mais de 10 minutos (conhecedores de free-jazz sabem que isso é raro no gênero), em nenhum momento o álbum se atém a cortes abruptos. Esse é um grande ponto que comprova a inteligência meticulosa da dupla Roscoe-Tyshawn.

Mas, claro, quem gosta de explosões terá bons minutos de sorriso no disco.

Os efeitos massivos de sax em “Scrunch” formam uma tensão tribal, como se estivesse simulando o momento agonizante de estar diante de raptores canibais (alguns barulhos até lembram panelas!). A percussão é lenta, quase estática. Por meio dos desencontros sonoros, até parece que estamos visualizando os músicos desconfiando um dos outros na canção.

“Waves” mostra que Tyshawn domina bem a arte de colocar acidez na bateria, criando uma dinâmica que remotamente me levou a pensar num Ginger Baker com o demônio no corpo.

Já “A Game of Catch” é exatamente a tradução literal: um pega-pega. É como se o sax puxasse a brincadeira ao extrair as primeiras notas. A proporção que a coisa toma é representada com a velocidade que as notas são extraídas, e o piano, que parece se empolgar nisso tudo, fica com um gostinho de quero-mais (o ouvinte também – é uma das melhores faixas do disco). Além de meticulosos, eles são inspirados quando querem brincar de virtuoses.

É entre a justaposição matemática e a liberdade tonal que Duets… estabelece uma intersecção entre o conceitual-harmônico e o livre-atonal. O domínio de cada um desses contrapontos exige diferentes métodos de rigor. Agora, imagina encontrar um meio-termo nisso tudo?

É aí que as trincheiras de gerações são demolidas entre Roscoe Mitchell e Tyshawn Sorey.

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Para conhecer mais sobre Duets With Tyshawn Sorey and Special Guest Hugh Ragin, confira também este post no blog Matéria.