Marquee Moon é um disco que marcou não apenas a década de 1970; também mostrou que era possível levar o punk para outras direções dentro do rock.
Todos que estavam na noite de ontem no Beco 203, em São Paulo, sabiam disso. Sabiam que o grupo de Tom Verlaine não é adepto às três cordas e ao formato rápido, direto e reto perpetuado pelos Ramones.
Na verdade, o Television é a contravenção punk – que era a contravenção social e estética durante seu auge. O que era pra ser uma disparada enérgica, para a banda é apenas o momento de respiro para os fãs e para os próprios integrantes após soladas intensas e improváveis nas guitarras de Verlaine e Jimmy Ripp.
A opção de abertura com “Prove It” (da mesma forma como aconteceu na vinda em 2011, como disse o Floga-se) dava a entender que a banda iria centralizar o repertório em seus discos mais clássicos: Marquee Moon (1977) e Adventure (1978), indispensáveis na prateleira de qualquer fã de rock.
Por surpresa, não foi isso o que aconteceu. A banda mostrou que veio para se divertir em um ambiente que já conhece bem desde os anos de seu surgimento no CBGB, em Nova York, há quase quatro décadas.
Nada de urros, poucas fritações, bastante improviso e muito, muito diálogo de guitarras.
Tom Verlaine não estava ali para receber palmas, elogios ou gritinhos. Cada aplauso após o suposto término de uma canção era respondido friamente com mais soladas e solavancos.
Gritava-se “The Fire”; vinha “Little Johnny Jewel”, com baita tempero jazzístico na bateria de Billy Ficca. Nada de “See No Evil” ou “Elevation”; a outra do clássico disco que entrou foi “Venus”. Verlaine estava ali pra provar que o Television é um caldo musical mais híbrido do que se imaginava.
Admirável é que, por mais que o público celebrasse e respondesse com um largo sorriso a cada solo impressionante que saía daquelas duas guitarras, muitos aproveitavam a ocasião do desconhecimento para garantir as rodadas de cerveja, vodca e whisky que rolavam à vontade no balcão (sim, era open bar) – que, a meu ver, não aparentou ter dado muito trabalho aos barmen dispostos a suprir as necessidades etílicas dos espectadores. Uma ida breve pra pegar dois ou três copos que fossem, e ainda dava tempo de ver os integrantes indo e voltando na mesma canção.
Verlaine e companhia estavam à vontade, mas o grande desafio da apresentação era se perder naquelas belas cordas. Legal de se ver e insano de se ouvir – e ele nem precisou recorrer muito a microfonias e efeitos, apesar de demorar alguns segundos a mais entre uma canção e outra para acertar os pedais.
Quando o baixo de Fred Smith iniciou a clássica “Marquee Moon”, a primeira coisa que veio à cabeça era: pra que direção Verlaine levaria o longo solo? Talvez essa fosse a mesma pergunta de Ripp, que não tirava os olhos dos dedos do companheiro para não se perder nos rumos improváveis que aquilo iria tomar.
Nessa cozinha, Ficca fez questão de não atuar como mero coadjuvante e respondeu com pratadas nervosas, sem medo de correr o risco de atropelar a melodia. E Verlaine, o que fez? Centrou o olho na guitarra e flertou com jazz, avant-garde, volta-e-meia voltou com a instrumentação básica da canção…
Nada de postura de guitar hero: Verlaine queria se divertir e usou a consagração da banda como ponte para se libertar de qualquer amarra que o prendesse aos anos 1970.
Quem estava ali para cantar as músicas conhecidas do Television talvez não tenha achado a apresentação 100%. Já quem queria se esbaldar com a acidez da banda, teve a devida parcela acachapante de guitarras.
Porque o direito de voz ali foi revogado aos instrumentos de Tom Verlaine e Jimmy Ripp.
