Gravadora: Warner Bros
Data de Lançamento: 26 de setembro de 2014

Não é de todo idiota dizer que Prince olha para o futuro. Não seria a dobradinha PLECTRUMELECTRUM e Art Official Age uma investida afrofuturística?

Esteticamente sim, ora, pois os elementos de sua distinta música negra apontam para desníveis emocionais (“Clouds”) e desníveis musicais (no bom sentido, “Funk’n Roll” é o melhor exemplo). Tangenciam a inquietude que há tempos brota na música do compositor.

Para Prince, barreiras sexuais devem ser vencidas com muito rock e funk. Tais contrapontos musicais são transferidos com eficiência ao convívio social de suas letras: ‘mulheres com guitarra são 12 vezes melhor que uma banda maluca de garotos’, já sentenciou em “Fixurlifeup”, mostrada pela primeira vez no ano passado.

Não devemos esquecer que este aguardado retorno de Prince é fruto de um acordo com a gravadora Warner Bros após anos de desavença (o músico chegou a trocar de nome para um símbolo estranho). É bem claro, portanto: tudo pelo show, pelo entretenimento.

Mas, ainda nos surpreenderia um trabalho que emula áureos tempos dos anos 1980, com seu funk-rock-sexista-pop de arena?

Poxa… Claro que sim!

A genialidade de Prince não passa incólume nesses tempos de dosagens imoderadas de extravagância. Ele mesmo tem muito a acrescentar nesse sentido nos takes mais ousados de PLECTRUMELECTRUM, com destaque para “Pretzelbodylogic” e “Marz”.

Por outro lado, seu appeal sexy continua surtindo efeito: em “The Gold Standard”, o groove é suficientemente poderoso para mexer os mais decrépitos. Deixar com que a baterista Hannah Ford tomasse a voz em “Whitecaps” não foi generosidade: Prince recorreu à feminilidade para tocar corações vagabundos de forma convincente. ‘Permanece um mistério/É tudo’, diz a letra.

“Clouds” provavelmente ficaria melhor na voz de um candidato a 15 minutos de fama pelo The Voice, mas não é de todo ruim. A transição entre funk e balada acústica antes da entrada de Lianne La Havas é uma preciosidade felizmente impossível de emular por qualquer calouro. Poderia soar uma tentativa barata de Prince soar emotivo, mas o suporte musical criado é tão eficaz que o verso até faz sentido: ‘Está no meu poder para te amar’.

O tratamento dado a “Breakfast Can Wait” foi mais um dos grandes acertos de Prince. Não apenas pelo vídeo dirigido e atuado por Danielle Curiel; a suavidade da canção seduz pelo contraste entre a voz baixinha de Prince e o horrendo efeito de autotune, que contribui para torná-la mais marcante.

Enquanto Art Official Age é feito para afeitos às investidas intimistas de Prince, PLECTRUMELECTRUM é justamente o contraponto: jovial, disco para ser reproduzido com amplificadores potentes, testosterona a mil e muito, muito suor.

Juntando tudo, é a obra de um apaixonado que, ao mesmo tempo em que se permite sonhar com a amada em “This Could Be Us”, arranca solos flamejantes de guitarra em “PLECTRUMELECTRUM”, jam das boas que revela a incrível sintonia criada com a 3RDEYEDGIRL, banda que exibe competência comparável às Blackhearts.

Se antigos e novos fãs esperavam que Prince quebrasse a sua própria lógica musical em pleno 2014, obviamente este retorno soa como decepção. Alguns diriam até que o experiente músico surfou na onda de hypes atuais, como Pharrell em “The Gold Standard”, e Janelle Monáe em “Affirmation III”. Não estarão enganados, contanto que aceitem que a experiência e o rigor criativo de Prince ao emular tais artistas soam ainda melhor que eles próprios. (Prince não consegue escapar nem mesmo de si, como qualquer um pode dizer de “Way Back Home”, espécie de lado B perdido de 1999 (1982).)

Art Official Age e PLECTRUMELECTRUM não têm função alguma de rememorar o catálogo de um dos maiores artistas pop da década de 1980. Mostram, isso sim, que Prince não esvaiu nem um pouco sua capacidade de nos impressionar. Pretensioso, sentimental, extravagante, não importa. O pop de Prince continua reluzente.