Em 1997, Wayne Shorter e Herbie Hancock lançaram um álbum conjunto explorando algo diferente (para o ouvido dos outros). Ao contrário dos efeitos eletrificados que os alçaram a duas das principais figuras do fusion-jazz – seja no trabalho de Shorter com Weather Report, de Hancock com os Headhunters ou dos dois enquanto membros do segundo grande quinteto de Miles Davis – eles focaram nos acordes clássicos do piano e do sax-soprano.
1+1, o disco em questão, parece ser esteticamente restrito por seu formato. O som, porém, revelou e elevou os traços característicos de cada solista: Wayne, um sábio artífice dos entrecortes harmônicos; Hancock, o pianista que não distingue solo de staccato, estabelecendo um diálogo de incrível fluência com os arremates do parceiro.

Como Miles Davis impulsionou a carreira de Wayne Shorter
Wayne e Hancock compartilham a expansão do significado do termo ‘elétrico’ no jazz, mas quando tocam juntos parecem dois compadres que se conhecem bem, mas nem sempre concordam um com o outro. Foi exatamente essa a impressão passada no primeiro show da edição 2016 do brasiljazzfest, na Sala São Paulo.
Com o favorecimento da finesse acústica do local, a dupla de jazzistas catalisou e incorporou o silêncio das mais de 1.400 pessoas que lotaram a sala. Poucos acordes, mínimos detalhes, mas sem minimalismo: cada riff de sax e cada passagem de piano quebrava prévias expectativas de quem se apegou ao que Shorter e Hancock representam no imaginário jazzístico.
Era possível identificar “Memory of Enchantment”, mas apenas porque 1+1 é uma das bases que alicerçam uma parceria bem mais abrangente.
Importante ressaltar que, musicalmente, Shorter parece mais desgastado, justamente porque seu instrumento exige mais disposição física. Suas notas não tinham o espaçamento de 20 anos atrás, tampouco seus riffs eram duradouros quanto os da época de Atlantis (1985).
Já Herbie representava justamente o oposto: equipado com laptop, um sintetizador Korg de efeitos atmosféricos e um piano de cauda, portou-se de forma tão inquieta quanto de costume. No show ele era o estruturador, o cara que determinava qual caminho harmônico seguir, oferecendo o ‘esqueleto’ a ser transfigurado.
Quanto a Wayne, despertou curiosidade. Como ele reagiria diante de batidas compassadas simuladas pelo computador e pelas ‘brincadeiras’ de Herbie no Korg? De cabeça baixa, ele fitava o companheiro, mas não exibia nenhuma espécie de admiração. Quem esperava uma performance exuberante do sax-soprano tipo “Capricorn”, do clássico Super Nova (1969), tinha que esperar com ressalvas.
Wayne Shorter respondia, mas a seu modo: sabemos que ele doma a linguagem, mas não necessariamente se sente à vontade de exibir tal expertise. Ou é isso, ou é a idade.
Hancock, por outro lado, riu manipulando seus aparatos, impressionou com clusters aleatórios (que representaram os melhores momentos do show, já que arrancou solos esbravejantes do soprano de Shorter, ainda que eles tenham sido curtos) e mostrou-se antenado às possibilidades do digital no jazz, acenando para o hip hop e para a eletrônica, tanto em seus ‘ataques’ no piano, como na escolha dos beats.
Para a plateia muito provavelmente a experiência tenha sido negativa, já que o silêncio, parte estrutural da apresentação, tenha inspirado muitos cochilos
Sendo assim, o show foi bom ou ruim? Para a plateia muito provavelmente a experiência tenha sido negativa, já que o silêncio, parte estrutural da apresentação, tenha inspirado muitos cochilos. Esse é o clássico caso da predisposição frustrada, em que as expectativas se estilhaçam à cada escolha dos performers.
Mas também não quer dizer que a apresentação tenha sido boa ou satisfatória.
A quietude de Wayne Shorter não condiz com o que ele já explorou em discos. Claro que o fato de ter 82 anos pesa, tanto que nos poucos momentos em que se permitiu solos espaçosos, tivemos a comprovação de estar diante de uma lenda que revolucionou o sax-soprano com seus colcheios cruzados e com seu hibridismo desbravador que compreende a imensa carga do blues. Essa imensidão musical estava lá de corpo presente, mas pouco revelou de sua alma.
Errata:
• Wayne Shorter tem 82 anos de idade, e não 72, como estava anteriormente.
