Num cenário borbulhante para a cena independente brasileira, é meio complicado lançar um disco duplo. O perigo de não receber a devida atenção e causar cansaço é quase iminente, e o que poderia ser um grande investimento criativo pode estar fadado ao underground por conta da preguiça, do desleixo e do fácil desvio de atenção que marca a geração anos 2000.
Isso renderia uma tese, obviamente, mas deve servir como puxão de orelhas também a quem prefere disparar críticas antes de dedicar minutos de atenção ao que vem sendo produzido.
Dito isso, vamos à Coluna Na Mira, seção dedicada a novas bandas que nesta edição especial traz uma entrevista.
Mais um dos bons nomes que despontam na cena mineira nos últimos anos, Bruno Fleming é um irrequieto multiinstrumentista que lançou, no meio do ano passado, um disco duplo de ópera-rock. Já é o quinto trabalho do músico, e o primeiro sob a tutela de Bigode de Leite.
“A ideia do Bigode de Leite surgiu em 2008. Eu pensava em criar uma obra autobiográfica onde pudesse aglomerar minhas principais memórias de infância, e colocá-las num contexto a fim de contar uma história”, conta Fleming em entrevista exclusiva ao Na Mira.
Um dos grandes méritos do projeto é dar preferência a sons climáticos na hora de transpor tais histórias. Temos um violão acalentador contrastando com uma batida tensa em “Bebê e Zé Canarinho”, uma guitarra aberta com bonita presença do baixo em “Totó & A Cidade” e um ritmo acústico que vai de encontro com o agito percussivo em “A Ciranda” (que não tem nada a ver com Nação Zumbi, bom dizer).
O Bigode de Leite tem um total de 29 faixas: 14 do primeiro disco, Semente de Romã; e 15 de Folha de Hortelã, o disco dois.
Além deste projeto, Fleming mantém o selo Lambe Lodo Records, que reúne todo o catálogo de seus projetos paralelos como Monstro Ataque, Boddah, Dentro do Troco Oco e o próprio Bigode de Leite.
A seguir, confira pequena entrevista que fizemos com Bruno Fleming:
Como começou a ideia do Bigode de Leite? É o primeiro disco?
Bigode de Leite é meu quarto disco, num total de cinco. Lancei dois com minha banda Seu Garcia (que tinha Túlio Barros na guitarra e meu irmão Matheus Fleming na bateria, hoje guitarrista do Câmera, banda de BH); outros dois discos como projetos solo, e um projeto instrumental chamado Monstro Ataque, também lançado ano passado.
A ideia do Bigode de Leite surgiu em 2008. Eu pensava em criar uma obra autobiográfica onde pudesse aglomerar minhas principais memórias de infância, e colocá-las num contexto a fim de contar uma história. Essas memórias são basicamente localidades, pessoas, cheiros, objetos, enfim, tudo que de certa maneira tem importância afetiva pra mim. A ideia era criar um universo repleto dessas memórias, algo como um inventário poético. Demorei quatro anos pra terminar tudo, e o formato final acabou sendo um disco duplo.
Qual a formação da banda (nome dos integrantes e o que eles tocam) que tocou nos dois discos? São todos de Minas Gerais?
Gravei o disco sozinho, tocando todos os instrumentos e captando tudo num microfone só, em casa, além de algumas externas. É muito trabalhoso apertar o REC com o instrumento em punho (a exemplo da bateria, gravada toda separadamente – bumbo, caixa, pratos etc), mas gosto muito do resultado estético caseiro e lo-fi, tendo em vista os recursos que tinha em mãos e o objetivo que tinha me proposto de registrar a ideia.
Em poucas audições, percebi que a ideia dos discos têm a ver com a situação do homem perante àquilo que construiu, como prédios, cidades e relações com outras pessoas. É mais ou menos isso mesmo? Poderia explicar?
Sim, se trata da ‘visão de mundo’ do narrador (um ‘eu’ maquiado), através de suas histórias de infância. O disco possui uma única letra, que atravessa as trinta canções. Uma emenda na outra.
Totó é o narrador, um adulto lembrando seus tempos de menino. A história é um recorte em sua vida, que vai de seu nascimento (primeira música do primeiro disco) até quando deixa de ser criança (última música do segundo disco).
Uma vez vi o Wander Wildner falando que ‘a melhor maneira de ser universal é falar do próprio umbigo’. O Bigode de Leite é um pouco disso. Falo do Seu Zé que vende sorvete na esquina; de jogar bola descalço no quintal da casa da avó; de lembrar do cheiro da lancheira, esse tipo de coisa, que é particular a mim, mas que todo mundo que teve uma infância passível de fantasias e brincadeiras pode ser capaz de se identificar.
Há planos de lançar os discos em formato físico?
O lançamento rolou dia 9 de junho de 2012, e o disco físico é duplo. O bacana do encarte é ver nas letras qual personagem está falando determinada frase, o que contribui para maior apreciação do trabalho; além também da arte com ilustrações e colagens.
Quais os próximos planos do projeto?
Nunca fiz um show do Bigode de Leite, infelizmente. Moro em Ouro Fino, sul de Minas Gerais. A galera aqui não se liga muito em arte, e a maioria das bandas só fazem cover.
O pessoal com quem eu tocava, ou se mudou ou se casou e desencanou de tocar… Coisas da vida. Mas sempre rola uns encontros inesperados e meu desejo é experimentar esse disco ao vivo algum dia, sim.
Sigo com meu selo Lambe Lodo Records, trabalhando em mais quatro novos discos de projetos diferentes. Vem bastante coisa nova por aí esse ano.
