Um cafezinho depois do almoço é muito bom pra ficar pensando melhor.
Dizem que eleva a taxa metabólica e estimula a atividade corporal. Seja a qualquer hora do dia, faz bem à saúde.
Na casa de Juçara Marçal, comprovei de imediato essa eterna questão científica: era tanta gesticulação, tanta conversa, tanta risada, que há de se suspeitar sobre os verdadeiros componentes da cafeína.
O núcleo do ambiente ajudava: um prédio antigo em torno da Aclimação, um dos poucos bairros residenciais próximos ao centro da capital paulista. Da janela, a vista de um parque. Na sala de estar, o piano vertical ‘pra estudo’ no centro dá a entender que a extensa biblioteca do apartamento é destinada à análise histórica de toda a música popular brasileira.
É que além de cantar, Juçara, que se formou em Jornalismo e Letras na Universidade de São Paulo, aos 50 anos é professora acadêmica de Canto no curso de Teatro da Universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo. “Dou aula tanto de preparação, como no auxílio das montagens de peças teatrais”, explica. “Comecei dando aula de português, mas hoje sou professora de música”.
Por conta dos vários projetos, já dá pra imaginar que a música é absoluta na vida da cantora.
Projetos? Às vias de fato.
No início dos anos 1990, Juçara fez parte da Companhia Coral, financiada pela Secretaria do Estado, que unia música e teatro sob a regência do maestro Samuel Kerr.
Em 1992, se juntou ao Vésper Vocal com Ilka Cintra, Nenê Cintra, Mazé Cintra e Mônica Thiele, interpretando canções à capella que vão de Elis Regina (Flor d’Elis, 1998) a Racionais MCs (Ser Tão Paulista, 2005).
Com o coletivo A Barca, que ajudou a formar em 1998, Juçara lançou quatro discos, promovendo a movimentação da música brasileira, “tradição popular e a profundidade do Brasil como se fazia nas brincadeiras de rua”.
Ela ainda dá continuidade aos dois grupos, mas o projeto que mais se associa ao nome de Juçara Marçal é, sem dúvidas, o Metá Metá. (A seguir, um vídeo da entrevista com Juçara Marçal – créditos de Ogilsilva.)
Começou com um encontro com o compositor, violonista e guitarrista Kiko Dinucci por volta de 2004. De acordo com a própria, a capacidade de Kiko de misturar gêneros a impressionou. Três anos depois, estava nas ruas o disco Padê, que evoca uma herança musical africana – candomblé, umbanda, batuque, lundu, jongo. É um disco coeso, em que a voz límpida de Juçara nos faz atravessar gerações com canções como “Atotô” e “Cabocla Jurema”.
Eis que um dia a dupla resolveu improvisar em uma apresentação. “Íamos fazer um ‘pocket’ Padê e chamamos o [saxofonista] Thiago França pra participar. Foi tão incrível o entendimento, que decidimos continuar. Fomos experimentando repertório e muitas coisas que eram do disco saíram. Até que falamos: ‘Vamos gravar!’”
Burilando uma coisa aqui, agitando outra acolá, nasceu o Metá Metá.
Além dos três integrantes, o contrabaixo de Marcelo Cabral, a bateria de Sérgio Machado e a percussão de Samba Ossalê trouxeram outra dinâmica sonora: mais groove, mais energia e referências mais sincréticas, que fizeram com que Juçara mudasse o jeito de usar a voz.
Metá Metá é mais presença e muito mais energia que o trabalho anterior. Por exemplo, em “Obá Iná”, o sax alto de Thiago e a bateria de Sérgio são de trincar os pés. Isso exige potência na voz da cantora, e ela responde tão bem, que domina a canção.
Claro que há momentos de limpidez. Daquelas que te carregam – como é o caso de “Trovoa” (de Mauricio Pereira), um disparo de ideias e situações que surgem como flashes de uma mente inquieta.
Diante de tanta beleza, blogs e sites brasileiros (ou não) colocaram Metá Metá entre os grandes destaques de 2011.
Isso já era previsível.
A surpresa mesmo veio nos números: em pouco mais de um mês, o disco – lançado em maio de 2011 em formato virtual – já tinha mais de 10 mil downloads, uma quantidade 10 vezes superior às mil cópias de Padê, cujo trabalho “muitos anos depois, tinha amigo próximo da gente que ainda não conhecia”.
O que fazemos é trabalhar uma linguagem que faz sentido para a gente, com as referências que temos. Dizer que estamos ‘resgatando’ reduz o processo do trabalho, porque ele é muito mais complexo – diz sobre o Metá Metá
Com o ‘estouro’, lógico que haveria de vir o álbum físico.
“Fizemos um show do CD físico em setembro de 2011, mas não tinha nada marcado. Todo mundo falou bem, mas ninguém chamou a gente pra tocar, foi um negócio desesperador”, conta Juçara. “Rolou um delay. Mas a partir de dezembro começaram a surgir os convites, e hoje estamos tocando bastante. A demanda está rolando, e isso facilita para outras coisas surgirem, como convites para tocar”.
Convite que não demorou nada.
No primeiro semestre de 2012, Rodrigo Campos lançou o disco Bahia Fantástica e a chamou para interpretar a faixa “Jardim Japão”, letra de Rodrigo Campos e melodia de Vicente Barreto. Com percussão de Maurício Badé, a canção narra a tentativa de fuga após um ato criminoso, com uma poeticidade incrível. A percussão dá o clima de ação, e a flauta de Thiago França surge como trilha das ruas – afinal, estamos falando de uma música urbana. A guitarra de Guilherme Held, então, é o que bota a lenha na fogueira!
“Quando o Rodrigo me apresentou a música no estúdio, já tive ‘paixão à primeira ouvida’”, conta Juçara com seu riso saudável, tão límpido e sincero quanto suas cordas vocais. E aí, ela se compenetra, fica séria – mas não muda de voz: “Essa força que vem da canção me mobilizou. É muita paixão – paixão do ponto de vista do ódio, sabe?” – neste exato momento, a gesticulação dos dedos o transformam em garras.
E aí ela se revolve; não consegue ficar por muito tempo sem nos agraciar com o belo sorriso: “Eu brincava com as pessoas durante o show [de lançamento de Bahia Fantástica, no Sesc Vila Mariana]: ‘ah, é muito odiozinho no meu coraçãozinho’, hahahaha!”. E continua: “Porque você expurga muito o ódio e isso, numa canção, nunca tinha feito. É muito forte ali! Você vê bastante isso em letras de rap mas, do jeito que é engendrado dentro daquela canção, é uma coisa muito especial”.
Especial como, Juçara?
“Olha, um pouco da explicação é justamente não ter explicação”.
Por falar em tentar explicar, qualquer ouvinte pode estar passível de cair no reducionismo ao dizer que o Metá Metá é um resgate da afrodescendência da música tradicional brasileira. “Resgate? Não, deixa pros bombeiros”, rebate a cantora. “O que fazemos é trabalhar uma linguagem que faz sentido para a gente, com as referências que temos. Dizer que estamos ‘resgatando’ reduz o processo do trabalho, porque ele é muito mais complexo, mais cheio de referências”.
Um pouco delas: Jorge Ben, Itamar Assumpção,Vanguarda Paulista, música dos anos 1940, Anjos do Inferno, Paulo Padilha. “Ao mesmo tempo, curto pra caramba a música norte-americana, funk, Michael Jackson, Prince…”. Tem mais: “Luiz Tatit, Premê, Clementina de Jesus, Paulinho da Viola”.
Aliás, o sambista Paulinho da Viola teve importância singular na formação de Juçara. O primeiro show solo da cantora foi baseado no tema da canção “Onde a Dor Não Tem Razão”, onde ela interpretou clássicos do gênero.
MetaL MetaL: “Decidimos em junho e, em julho, nós gravamos. Algumas músicas eu aprendi a letra no domingo pra cantar [no estúdio] na segunda-feira, hahaha!”
Atualmente, a cantora está com dois trabalhos na agulha para serem lançados.
Sete anos depois do disco Ser Tão Paulista, o Vésper Vocal está prestes a lançar o disco Na Lida, “com músicas que falam de trabalho: do homem e o trabalho; ou o homem e a falta de trabalho”.
O outro é, talvez, o mais aguardado: o projeto MetaL MetaL, que nasceu de uma brincadeira do trio Thiago/Kiko/Juçara durante as apresentações do Metá Metá (“a primeira parte do show geralmente tem aquela coisa do trio, mais lírica; na segunda parte, entra uma pegada mais forte com bateria. Daí muda, fica bem rock’n roll!”).
Ao contrário do projeto anterior, com o MetaL MetaL (L maiúsculo ‘pra lembrar do Metá Metá’) as coisas fluíram mais rapidamente, por conta dos muitos shows realizados pelo Brasil. “Foi muito mais direto. Falamos: ‘vamos gravar?’, ‘Opa, bora sim!’. Decidimos em junho e, em julho, nós gravamos. Ideia do Thiago, ele quem botou pilha”, conta Juçara. “Algumas músicas eu aprendi a letra no domingo pra cantar [no estúdio] na segunda-feira, hahaha!”.
Tão rápido, que até atropelou um possível lançamento em vinil do Metá Metá que, segundo Juçara, pode sair em uma bolacha dupla, tendo o MetaL MetaL como lado B.
“O disco do MetaL MetaL é uma mescla de coisas que já estavam buriladas em shows”, revela a cantora. “Várias já são conhecidas: tem uma que se chama “Cobra Rasteira”, do Kiko, que parece meio Cesária Évora [cantora conhecida como ‘diva dos pés descalços’, do Cabo Verde]. Tem uma que ele fez pra divindade africana que se chama “Orunmilá”, [parceria] com o Douglas Germano”. Na rede, já circula o vídeo de uma apresentação de “Larouiê Exu” (vídeo no final do post), cantiga em iorubá escrita por Kiko Dinucci. E, no novo disco, o trio registrou novos arranjos para “Rainha das Cabeças” e “São Jorge” (canção do Padê).
Depois de uns bons goles de café preto – e sem açúcar – Juçara mostrou com exclusividade ao Na Mira duas novas canções que vão estar no MetaL MetaL: “Oyá”, que já mostra novos caminhos seguidos pelo grupo com uma explosão catártica de metais e guitarras; e “Logun”, uma espécie de batalha de guitarras entre Kiko Dinucci e Rodrigo Campos. Elas se entrecruzam, dão pequenas atropeladas uma na outra, ficam ligeiras, alternam entre estado bruto e calmo… “Foi uma brincadeira que lembra aqueles joguinhos de videogame”, afirmou Juçara. MetaL MetaL Guitar Hero – quer mais rock’n roll que isso?
Além da sonoridade, que se alterou naturalmente por conta das incursões cada vez mais elétricas de Thiago França em seus instrumentos de sopro e uma levada ainda mais agressiva de Kiko Dinucci no violão e na guitarra, Juçara teve que testar outras formas de trabalhar a voz “porque a linguagem e o jeito que o som caminhou estão pedindo isso”. Pedindo coisas que Juçara ainda não havia feito. “Depois do MetaL MetaL, fico brincando: ‘o primeiro fuzz a gente nunca esquece, hahhaha!”.
Segundo Juçara, o disco MetaL MetaL estará disponível para download em outubro e será lançado também em formato físico.
Antes de terminar o texto, gostaria de fazer a seguinte brincadeira: quantas xícaras de café você acha que foram necessárias para um bate-papo prolongado de mais de uma hora? Duas xícaras? Quatro? Uma jarra?
A lombra do almoço já tinha acabado há um bom tempo – e ainda havia energia de sobra devido ao aumento do metabolismo. Depois de coletada as informações para este perfil, resolvemos deixar a conversa de lado. Não para evitar desperdício de saliva – e sim, para degustar um bolo de cenoura com cobertura de chocolate, preparado pela própria Juçara. Que delícia!
***
Créditos da imagem do post: Ogilsilva
