George Clinton criou o P-Funk explorando vertentes mais psicodélicas que os contemporâneos Sly Stone e James Brown

Entender George Clinton é um exercício muito mais complexo do que qualquer um pode imaginar. A única coisa que pode-se dizer categoricamente é que ele revolucionou a black music de uma maneira diferente. Ao invés de se inspirar nas raízes da soul music ou do jazz, como fizeram seus contemporâneos no ritmo James Brown e Sly Stone, Clinton extraiu algo do avant-garde de Sun Ra e da psicodelia de Jimi Hendrix para fazer germinar um funk diferente, que ele nomeou de P-Funk.

Justaposição instrumental enfatiza um discurso niilista pelas vias da ficção científica, ideias bastante exploradas pelo compositor e responsável pelos arranjos, George Clinton

Algo mais difícil ainda é classificar qual projeto Clinton conseguiu desenvolver melhor suas ideias: se foi com o Parliament ou com o Funkadelic, grupos paralelos mantidos no mesmo tempo pelos mesmos integrantes. Ambos os grupos funcionaram como laboratórios espaciais para as ideias quase ufológicas do compositor e produtor.

E, se Mothership Connection (1975) foi a escolha para vir parar aqui, isso é um mero ocaso. Diferente de qualquer outro disco de funk já lançado, este álbum joga os refrões no ar enquanto os notáveis slaps de Bootsy Collins e as incursões de Maceo Parker (antes da banda de James Brown) fluem como se fossem estrelas no sistema solar em faixas como “P. Funk (Wants To Get Funked Up)” ou “Unfunky UFO”.

Nessa empreitada, o já falecido Garry ‘Starchild’ Shider se mostra um companheiro à altura coassinando três faixas de Mothership Connection. E foi junto com George que Bootsy deu seus primeiros impulsos para se consolidar posteriormente como uma das maiores lendas vivas do funk (ele coassinou 6 das 8 canções do disco).

O som do Parliament aqui soa desconexo e abstrato demais, mas o que sempre fica em evidência é a justaposição instrumental para enfatizar um discurso niilista pelas vias da ficção científica. Em alguns momentos, prevalece o humor cósmico (até mesmo nos nomes das canções) como em “Supergroovalisticprosifunkstication”, que conta com efeitos que lembram circo e é pontuado pelos solos dispersos de Gary Shider.

Teclados e sintetizadores também marcam a unicidade dessa fase espacial do Parliament, especialmente na própria “Supergroovalisticprosifunkstication” ou em músicas mais dançantes como a faixa-título (dançante para os ouvintes que se deixam levar pelo contágio praticamente esquizofrênico da trupe). É como se houvesse uma festa na Lua e os convidados se deixassem levar pela flutuação sonora da gravidade.

Parliament: “Unfunky UFO”

Parliament: “Supergroovalisticprosifunkstication”

Neste disco, George Clinton apenas evidenciou que é incomparável em seu psychofunk esfuziante, o que não significa que ele seja o representante-mor do funk. Afinal, foi ele mesmo quem cedeu a alcunha a James Brown de “Padrinho do Soul”.

Por mais que soe desconexa e sem sentido, a sonoridade de Mothership Connection é uma obra arquitetônica quando olhada sob uma perspectiva mais densa e analítica. E nem precisa ir até o espaço para perceber isso.

Prepare-se: George Clinton se apresenta no Brasil no dia em que completa 70 anos, no Black na Cena Music Festival. Ótima oportunidade para ver ao vivo um dos artistas mais emblemáticos da ‘black music’.