01 Overcome02 Ponderosa03 Black Steel04 Hell is Round the Corner05 Pumpkin’ (part. Goldfrapp)06 Aftermath07 Abbaon Fat Tracks08 Brand New You’re Retro09 Suffocated Love10 You Don’t11 Strugglin’

12 Feed Me

Gravadora: Island
Data de Lançamento: 20 de fevereiro de 1995

Desde o início dos anos 1990 o trip-hop é mantido como o melhor gênero para foder, mas, não, Tricky não fez música para isso. É o que ele insiste em dizer acerca de Maxinquaye, com argumentos bem convincentes: ele não diz ‘fuck’ no verso: ‘Onde há verdade haverá deleites/Quando fodemos ouvimos batidas‘.

Em entrevista à Melody Maker, Tricky diz que, no lugar de ‘fodemos‘ estava a palavra ‘funk’. Don’t fuck. Funk!

O verso é de “Overcome”, que inicia o disco arrastando o ouvinte a um desfiladeiro de devassidão. A voz é de Martina Topley-Bird, então namorada do músico britânico (hoje eles estão separados, mas têm dois filhos).

Se não é sexy na primeira faixa, também não é na segunda, “Ponderosa”, num ritmo polka que remete a alguma faixa qualquer de Rain Dogs (1984).

A colaboração entre Tricky e Martina sustenta todo o seu disco de estreia. Ao invés da excitação à lá Portishead ou a estranheza melancólica dos primeiros discos do Massive Attack, com quem colaborou em Blue Lines (1991) em “Five Man Army”, Tricky é tão pungente quanto suas declarações polêmicas. Nele, escorre a veia tribal africana, algo recorrente logo neste disco de estreia.

Em “Black Steel”, o sampler de A. R. Rahman, com baterias estouradas e instigante levada tribal, Tricky dá a impressão de surgir com cara pintada entre atabaques. É esse mesmo vigor que testemunhamos em “Brand New You’re Retro” que, bagunçando samples de Michael Jackson e Public Enemy, mais se encaixa num turtablism ferrenho que qualquer outro gênero pop já usado para descrever Tricky.

Faz todo sentido o disco chamar-se Maxinquaye: este era o nome de sua mãe, como se ela concebesse sua estreia artística

“Aftermath”, lançado como primeiro single solo do músico, é dotado de uma sensualidade quente. Mesmo lenta, é considerada ágil dentro do espectro trip-hop.

Pausada mesmo é a misteriosa “Strugglin’”: Tricky nos leva a um local meio selva, meio urbano, nos atiçando, nos enganando.

“Suffocated Love” sugere outro caminho por essa selva. Ainda explorando ritmos aventureiros, Tricky conta como não consegue escapar das amarras de uma garota sedutora. Sexo? Não. ‘Ela corta meus finos pulsos/Vamos perder mais algum tempo‘. Aí, fica aberto a sugestões.

Muito contestada por trazer o mesmo sampler de Isaac Hayes que Portished explorou alguns meses antes em “Glory Box”, “Hell is Round the Corner” é desprovida do appeal de Beth Gibbons, o que só dá vazão aos desvios de Tricky sobre um possível ‘álbum de sexo’. “Hell is Round…” parece submergir de um porão tenebroso. Tricky desvia o ouvinte da sensualidade de Martina, entrecortando com versos que exibem sua habilidade em fazer rap (lembrando que ele já cantava dessa maneira desde o Fresh 4, que criou no final dos anos 1980 por conta do aparelho Wild Bunch).

Além de ser o músico mais adequado da cena trip-hop a conectar-se com a herança musical africana (ele adora percussões), Tricky foi eficaz ao musicar sua sinceridade emocional. Nesse quesito, faz todo sentido o disco chamar-se Maxinquaye: este era o nome de sua mãe, como se ela concebesse sua estreia artística.

Vinte anos e onze discos depois, muito da obra de Tricky rebate em Maxinquaye. Não há previsão de nenhum relançamento ou apresentações oportunistas para celebrar o aniversário do álbum. Mesmo seguindo adiante, o ponto de partida do músico permanece uma das maiores referências qualitativas do trip-hop. Tricky mostrou que ainda havia muito a assimilar (e desvanecer) no processo criativo de um gênero que, por mais que renegue, está intrínseco até os dias de hoje em sua obra.