Gravadora: Rock It!
Data de Lançamento: Abril de 1993
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Parecem rudimentares, mas os traços brancos que dão contraste ao plano de fundo preto parecem mais a figura de um esboço que uma definição exata. Cada curva do perfil desenhado é marcado por uma singela reta e sombreamentos que revelam um rosto aparentemente extraído de um negativo de filme. Desenhada por Fábio Leopoldino, vocalista e guitarrista do Second Come, a capa de You flertava com o tosco quando, na verdade, marcava uma posição delimitada.
Antes de falar de uma das pioneiras do rock alternativo, é preciso fazer justiça histórica. Eles surgiram nos anos 1990, mas não, não copiaram Nirvana e Mudhoney. O quarteto do Rio de Janeiro, formado por Leopoldino (que faleceu em 2009), Francisco Kraus (baixo), Fernando Kamache (guitarra) e Kadu (bateria), incrustava as experimentações do pós-punk com mais energia que muita banda punk dos anos 1970.
Mesmo com a ágil produção (em 72h o disco tava pronto), a banda teve dificuldade em lançá-lo. Os integrantes chegaram a dormir no chão do Estúdio Mega (RJ). Sempre pegavam os piores horários, afinal, dispunham de pouca verba
Como prova, a banda gravou este disco em menos de 72h, tamanha era sua coordenação. A experiência do Second Come, no entanto, já data do final dos anos 1980. Antes de formá-la, Leopoldino e Kraus tocavam juntos numa banda chamada Eterno Grito. Sem manter uma formação fixa, a banda acabou e eles montaram a Second Come, musicando composições em inglês, a maioria delas escrita pelo camarada Paul Conrad. Gravaram uma demo-tape com 4 faixas, Violent Kiss, incluindo a sombria “The Shower”, que se derrete vertiginosamente como uma lava sonora. (Felizmente, a faixa foi registrada em You, como bônus.)
Pela falta de estrutura ou de uma gravadora que pudesse investir naquela sonoridade cáustica, o Second Come lançou diversas fitas cassete de seus trabalhos. Na primeira metade de 1991, surgiu com Wade’s Bed, que mostrou uma das faixas mais sintomáticas da banda: “Run, Run”, que obviamente fazia mais referência à peculiar trajetória da banda, que àquele conhecido take de The Velvet Underground & Nico (1967). Ela é pop, ensolarada, cantarolável – não define a banda, mas mostra uma parcela da capacidade que a Second Come realmente desfrutava.
Sem modéstia, Fábio chegou a dizer:
“Sem vaidade, nós éramos bons. O negócio era que eu sempre fui muito ligado em música e pouco ligado ao show business. Para mim, o Second Come foi mais uma escola na procura da minha música pessoal. Nada particular, mas existia uma procura pessoal de como a música deveria ser feita e de como deveria ser tratada.”
Após uma elogiada estreia no Sesc Pompeia, em São Paulo, e resenhas positivas da Bizz e do jornal O Estado de S. Paulo – que chegou a dizer que Wade’s Bed seria o melhor álbum de 1991, se fosse prensado em CD – o Second Come vislumbrou a possibilidade de gravar um álbum quando Dado Villa-Lobos (do Legião Urbana) e André X (Plebe Rude) montaram o selo e a loja de discos Rock It! A empreitada foi bem adiante após fechar um acordo com a gravadora EMI, de produção e distribuição de discos. Naquela época, revela o selo Midsummer Madness, que atualmente toma conta do catálogo da banda, as fitas do Second Come vendiam mais que os CDs da loja.
Mesmo com a ágil produção, os integrantes da banda tiveram muita dificuldade em lançá-lo. Chegaram a dormir no chão do Estúdio Mega, no Rio de Janeiro. Sempre pegavam os piores horários de gravação, afinal, dispunham de pouca verba – tão pouca que nem deu pra pagar a capa, que saiu improvisada mesmo.
“Realmente éramos muito requisitados. Todas as bandas vivas naquela época queriam abrir nossos shows”, disse Fábio Leopoldino
O perrengue, no entanto, não comprometeu a qualidade do que You representa. Logo na primeira faixa, “I Feel Like I Don’t Know What I’m Doing”, es efeitos wah-wah das guitarras e a passagem sorrateira do baixo cativam o ouvinte. São quatro minutos de pós-punk em chamas.
A seguinte, “Ten Fingers”, possui senso rítmico mais coordenado. Nela, a voz de Fábio surge sob estranho deleite.
“Hurricane Age” é punk para pogar, no melhor estilo Buzzcocks, enquanto “704” dotava de uma jam tão flamejante, que alguns poderiam associar com algo autodestrutivo.
Percebeu que todas as canções têm nome em inglês? Pois é, os jornalistas da época também, levando muitos deles a erroneamente creditarem o Second Come como uma cópia estrangeira – estigma que, mesmo 20 anos depois, bandas como FireFriend e Black Drawing Chalks ainda sofrem. A despeito das perguntas, o Second Come ainda surfou numa boa onda de reconhecimento. Os críticos que notaram a destreza dos slides de guitarra, os vocais sobrepostos e a maquinaria instrumental que podia encapsular Sonic Youth, The Jesus & Mary Chain e Joy Division como se fossem meros ingredientes de uma cena que passava a ser constituída dali em diante, não lamentaram o fato de que, poucas semanas depois, o Second Come ultrapassaria até mesmo o Sepultura em vendas físicas.
Impulsionado, ainda, por petardos sonoros como “Perfidiousness”, “Sedative Distortion”, a quase-heavy-metal “God and Me” (num acesso meio The Pop Group), o Second Come chegava a seu clássico absoluto sem lambanças. “Realmente éramos muito requisitados. Todas as bandas vivas naquela época queriam abrir nossos shows”, disse Fábio, anos depois. Entre as cidades de Rio de Janeiro, São Paulo e Niterói, a banda construiu uma reputação que, infelizmente, seria efêmera.
As composições em inglês logo se tornariam uma barreira: muitas casas de show não contratavam a Second Come justamente por isso. As coisas não melhoraram quando, no ano seguinte, a banda lançou Superkids, Superdrugs, Supergod and Strangers (1994), que não demoraria em se tornar o derradeiro. Mais eletrônico, buscou uma veia experimental que, tragicamente, borrou a identidade do grupo. Uma declaração de Francisco resume o clima da banda naquele momento: “Para mim, é muito simples: nosso segundo trabalho foi todo baseado numa ideia do Fabio de criar modernidade. Foi totalmente pensado, perdemos a originalidade”.
Não demorou, então, para que os integrantes se desinteressassem do Second Come. Seguiram caminhos distintos, deixando no rastro a história de uma das melhores e mais injustiçadas bandas de rock que o Brasil já teve.
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Em abril deste ano, Francisco anunciou que retomaria de vez com o Second Come. Mesmo sem Fabio, que morreu em 2009, a banda segue com os demais integrantes. No lugar do antigo vocalista/guitarrista, entrou Mauricio Garcia Mauk. “Após 20 anos de “terapia” (rs), voltaremos aos ensaios regulares e, quem sabe, compor, gravar, tocar e, principalmente, nos divertir”, anunciou oficialmente.
