01 What Reason Could I Give?02 Civilization Day03 Street Woman04 Science Fiction05 Rock the Clock06 All My Life07 Law Years

08 The Jungle Is a Skyscraper

Gravadora: Columbia
Data de Lançamento: segundo semestre de 1971

“What Reason Could I Give?” é exatamente como Ornette Coleman interpreta o pop. A voz serenamente sedutora da indiana Asha Puthli é elegíaca e sublime. Enquanto isso, o sax alto de Ornette e o sax tenor de Dewey Redman intercalam entradas espaçosas. Os holofotes, todavia, são dedicados ao instrumento responsável pela anarquia sônica tão valiosa ao free-jazz: a bateria, revezada por Billy Higgins e Ed Blackwell.

Asha também canta em “All My Life”, como se estivesse estabelecendo uma conexão com a primeira faixa de Science Fiction. É assim que a canção funciona, mas não sem antes o jazzista entorpecer a sanidade mental do ouvinte com o bombardeio musical nas quatro faixas que ficam entre “What Reason…” e “All My Life”.

Em “Civilization Day”, nota-se uma aura de felicidade. É que, depois de ficar às sombras nos anos 1960, talvez por conta do rechaço da crítica especializada diante de seu free-jazz explosivo, Ornette Coleman conseguiu reunir novamente o quarteto original dos embrionários The Shape of Jazz to Come, Change of the Century (ambos de 1959) e Free Jazz (1960). O trompetista Don Cherry, o baixista Charlie Haden e o baterista Billy Higgins afiam as notas e domam as rédeas.

No entanto, não é a reunião dessa seleção de músicos que faz de Science Fiction um dos grandes álbuns de Ornette Coleman. Houve renovação na dinâmica que o saxofonista arregimentou para este trabalho.

Primeiro de tudo, a música não precisaria ser extremamente ágil e dodecafônica. Além de se desvencilhar de qualquer alcunha academicista, Ornette deu frescor artístico à sua obra, tornando-a mais palatável – quiçá pop, se você encarar Asha Puthli como possível integrante das paradas da Billboard.

É quase visível o formato quebra-cabeça de Science Fiction. Bagunçar os sentidos está praticamente incrustado na obra de Ornette Coleman, mas as pretensões deste disco são ainda mais chocantes que a tríade Shape/Change/Free Jazz.

Primeiro ponto: temos os vocais. Na faixa-título, o trompetista opta por uma proposta estranha – mesmo dentro de um campo tão experimental como o free-jazz – ao invocar a recitação de um poema do escritor negro David Henderson. Mais uma vez, Coleman tira suas notas intrépidas de sax alto do primeiro plano, sugerindo caos e aberrações no tema – que, inclusive, também tem choros de criança, o que torna a mensagem deveras exasperadora.

Segundo ponto: assimilar a estética que marcou o rompimento dos anos 1960 para os anos 1970. Nesse quesito, “Rock the Clock” é substancial. Violinos em fricção, musette (espécie de oboé chinês) e sax com efeitos simulam gêneros como acid-rock e fusion, adiantando-se ao que Miles Davis traria alguns meses depois em On the Corner (1972) – Miles, que tanto abnegou a música de Coleman por considerá-la ininteligível.

Para os padrões de Ornette Coleman, “Law Years” é um tanto normal demais – o não quer dizer que seja descartável. Nela, Coleman exercita seus dotes melódicos com o sax alto, contando com a habilidade invejável de Haden balançar as notas de contrabaixo.

Em “The Jungle is a Skyscraper”, a bateria de Higgins justifica o adjetivo ‘estupendo’. Só perde para a entrada triunfal de Coleman, que surge como uma espiral indômita, com sopros enérgicos e poderosos. Ainda que ofusque as notas de Redman, Ornette não tira o brilho de nenhum dos músicos, assim como não empenha-se na prevalência de um único senso estético ao longo de Science Fiction. Sua trama é ambivalente e cheia de surpresas ao longo do caminho. O desfecho é atípico e sem previsão. Se fosse um filme, seria tão bom quanto os de Ridley Scott em seu auge, com pitadas imprevisíveis de Fritz Lang.

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Em maio de 2000, a Columbia lançou no mercado em CD Complete Science Fiction Sessions, que inclui takes alternativos de “Street Woman” e “Civilization Days”, além de faixas do álbum Broken Shadows, gravado no mesmo período, em 1971, nos estúdios da gravadora, mas que só ganhou formato físico por volta de 1982. As sessões completas cumprem com efeito a função de mostrar o clima artístico de Ornette Coleman nesse importante período de sua carreira.