Gravadora: Pacific Jazz
Data de Lançamento: 1955

Laurindo Almeida tinha 30 anos quando se mudou para os Estados Unidos. Seresteiro desde criança e com competência no piano, mas exímio violonista, o morador da pequena cidade de Miracatu (São Paulo) passou a integrar a orquestra mais bem-sucedida do pianista Stan Kenton.

Firmando o contraponto do som ousado de Innovations in Modern Music (1950), que entrou com o pé direito naquela década com arranjos considerados revolucionários, Laurindo contribuiu com notável fervor latino. Permaneceu na big-band até 1952.

Pouco tempo depois, decidiu que queria fazer música sozinho. Assim, o violonista passou a tocar na Sunset Strip, em Hollywood, formando um duo com o contrabaixista Harry Babasin. Eles haviam se conhecido nos bastidores do filme A Canção Prometida (1948), onde ajudaram a compor a trilha.

Naquelas noitadas, Laurindo e Harry descobriram que era possível unir a pegada 2/4 do samba à elasticidade do jazz. O resultado disso, como constatou o jornalista da DownBeat John Tynan, “foi a base da Bossa Nova”.

Como toda invenção, claro, isso tinha que ser registrado. Harry era dono de uma pequena gravadora, a Nocturne. Depois de conversar com o baterista Roy Harte, cofundador da Pacific Jazz Records e dono de uma loja de bateria, acertaram fazer algumas sessões nos fundos da loja – até que alguém teve a ideia de chamar um saxofonista. O convite, então, foi dado a Bud Shank, que tocou com Laurindo no grupo de Stan Kenton.

Bud Shank leu partituras de ritmos brasileiros para o sax, elaboradas por Laurindo. ‘Do contrário, ainda estaríamos lá’

Decifrar a complexidade musical dos vários ritmos envolvidos foi um desafio aceito para esse quarteto. Para iniciar, o talentoso Shank teve as partes de seu saxofone transcritas por Laurindo. Segundo Shank, isso “ajudou em nossa imensa exploração. Do contrário, ainda estaríamos lá”.

Dessas sessões saíram o disco que muitos consideram ser o marco da Bossa Nova. Lançado originalmente em 1955 como Laurindo Almeida Quartet Featuring Bud Shank, e só depois, em 1961, lançado como Brazilliance (com direito a Volume 2, que foi às lojas em 62), mais de 30 temas foram registrados.

Por conta do swing, o baixista Harry Babasin acreditava que o baião era o gênero perfeito para servir como ponto de partida dessa fusão musical

Existe uma variável muito complexa antes de correlacionar Brazilliance à Bossa Nova. Primeiramente, a técnica de Laurindo abrange uma polirritmia que nenhum outro instrumentista da Bossa Nova deteve. Música ibérica, cubana, flamenco, choro, baião e samba se convergem nos seus experimentos rítmicos. Ao contrário de Garoto, que era dotado de um virtuosismo ágil, Laurindo entrelaçava ritmos com as escalas que ora batiam no jazz, ora batiam na influência do revolucionário espanhol Andrés Segovia.

Por conta do swing, o baixista Babasin acreditava que o baião era o gênero perfeito para servir como ponto de partida dessa fusão musical – e o resultado realmente funciona, como se pode ouvir em “Baa-Too-Kee” e “Blue Baião” (revisitando Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira).

Como não havia ainda nada definido, Brazilliance é mais resultado de um experimento que uma cartilha. Neste caso, o contraponto do estilo percussivo é chacal. O uso das congas – e não de pandeiros ou tambores – tem proximidade mais com a música cubana, que com a brasileira. Ou seja, fora de todo aquele contexto ‘tradição brasileira‘, ou algo do tipo, Brazilliance pegou o eixo da música latina como um todo.

Não foi ocasional. Canções como “Atabaque”, “Speak Low” ou “Inquietação” têm como pano de fundo o estilo de execução de Laurindo, já experiente nos arranjos latinos (que explorou com Kenton) e ibéricos (que extraiu de Segovia e, posteriormente, estimulou trabalhos solo com música flamenca, que lhe renderam um Grammy).

Bud Shank explicou ao JazzWax a escolha desses instrumentos:

“Parecia certo, mas, em retrospecto, estava tudo errado. Não havia nada que tivesse a ver com pesquisa. (…) Estávamos sentido nosso caminho através da música. (…) Então, nós fazíamos algo, em alguns casos apenas usávamos as mudanças de cordas do blues. Em outros, surgíamos com algo próximo à melodia com o propósito de improvisar”.

Outra característica que pesa fortemente na musicalidade: o som curto e incisivo do sax de Bud Shank (pense em fraseados de Lester Young mais efêmeros e explorando mais notas). Um dos principais representantes do West Coast Jazz, seu estilo tornou-se o modelo ideal para que, alguns anos mais tarde, Stan Getz se aproximasse com êxito, oferecendo suavidade ao ritmo de violão de Charlie Byrd.

“O sax se tornou a voz que definiu a influência do jazz moderno nos ritmos tradicionais brasileiros que se tornaram o estilo e padrão artístico [da Bossa Nova]”, disse Von Babasin, filho de Harry Babasin.

O segundo volume do disco também exibe outras investidas musicais dos integrantes. “Mood Antigua” mostra Shank delineando a flauta, instrumento em que se tornaria um dos principais expoentes. O choro em seu formato melodicamente complexo inspira temas como “Choro in A”, além de uma releitura bem arregimentada de “Carinhoso”, de Pixinguinha. Serestas (“Serenade For Alto”), influência do Tin Pan Allen (“Gershwin Prelude”) e, claro, o bom e velho samba (“Harlem Samba”) também entraram no rol de testes estéticos do quarteto.

Por ter sido lançado numa gravadora sem alcance internacional, os músicos do Rio de Janeiro só tiveram acesso a Brazilliance porque Laurindo trouxe 25 cópias do disco quando veio ao Brasil, em 1957. O resto, claro, é história: o estilo de Oscar Castro Neves no violão foi influenciado, a forma de Johnny Alf tocar o piano e as composições de João Gilberto e Tom Jobim, entre muitos outros envolvidos, formatariam a Bossa Nova como a conhecemos.

Neste caso, Brazilliance é um retrato bem mais heterogêneo de como a música popular brasileira poderia dialogar com o jazz. Esse entrelace foi fundamental para que a Bossa Nova, enquanto movimento nacional e internacional, encontrasse os primeiros indícios de identidade.

O produtor musical e grande conhecedor de jazz Arnaldo DeSouteiro assim sentenciou sobre este clássico:

“Foi a primeira vez, realmente, que se improvisou jazzisticamente sobre ritmos brasileiros. E se considerarmos a Bossa Nova uma fusão, basicamente, de ritmos brasileiros, no caso o samba, com elementos jazzísticos, caracterizando-se pelo uso da improvisação, o Laurindo Almeida foi realmente o grande precursor dessa história”.

Por mais que tenha preparado o terreno, com louvor, a um novo movimento musical, Laurindo Almeida desenvolveu ainda mais seu estilo pessoal como violonista. Gravou trilhas para filmes de Hollywood, criou performances magistrais, solo e com orquestra, para violão, faturando alguns Grammy.

Com o Modern Jazz Quartet, foi do popular ao erudito, tornando-se um dos maiores mestres no seu instrumento. Morreu em julho de 1995, aos 77 anos, na Califórnia (EUA).