Gravadora: Blue Note
Data de Lançamento: Janeiro de 1965
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“Em algum momento dos anos 1960”, Horace Silver conheceu Sérgio Mendes. O carioca, que tinha residência em Nova York, chamou o pianista para passar umas férias em sua casa no Rio de Janeiro, para conhecer o Carnaval.
Ele ficou na cidade vizinha, Niterói, e fez presença em todos os shows da turnê que Sérgio empreendeu na cidade. Lá, ele conheceu o baterista Dom Um Romão e a cantora Flora Purim. Eles levaram Horace para ouvir algumas sessões em estúdio, além de acompanhá-lo nas ruas, tomadas pelas festas carnavalescas.
Então, o pianista pioneiro do hard-bop conheceu a praia de Copacabana e ficou fascinado com “todas aquelas belas garotas em seus biquínis. O Brasil certamente tem algumas das mulheres mais belas”, disse, em sua autobiografia, Let’s Get to The Nitty Gritty, escrita com Philip Pastras.
Mesmo incomodado com o fato dos brasileiros serem distraídos e raramente cumprirem os horários, Horace Silver gostou bastante da música daqui. E deu asas à inspiração:
“Após voltar para minha casa, em Nova York, de minha visita com Sérgio e Dom, fiquei assombrado com o ritmo da bossa nova que escutei no Brasil. Disse a mim mesmo: ‘Vou tentar escrever uma música com este conceito musical’. Fiquei no piano por algumas horas e consegui compor, mas a melodia não soou brasileira para mim; soou mais como as velhas melodias cabo-verdianas que meu pai tocava. Meu pai sempre quis que trouxesse algumas dessas músicas à interpretação jazzística. Essa ideia não me aprazia, mas quando percebi que escrevi uma música com um conceito rítmico brasileiro e um conceito melódico do Cabo Verde, imediatamente pensei em dedicar a música ao meu pai. Então, dei o título “Song For My Father” e coloquei a pose dele na capa do LP, de mesmo nome”.
A canção “Song For My Father” se tornou um opus na carreira de Horace Silver. Mas, o que a faixa-título de um dos principais discos do pianista mostrou-se, ao longo dos anos, foi uma elasticidade de estilos que serviu de base para canções como “Riki Don’t Lose That Number” (Steely Dan, 1974), “Don’t You Worry ‘Bout a Thing” (Stevie Wonder, 1974) e “Me Ship Came In” (The Style Council, 1984) – para citar algumas que usaram partes do tema como base.
Não é banalidade alguma observar que, ao lado do quinteto reformulado, a dinâmica percussiva, straight-ahead de Horace Silver funciona melhor. Isso porque o frescor das notas é uma tônica essencial para o andamento de seu hard-bop
Cá entre nós: de bossa, “Song for My Father” não tem quase nada. Sua relativa calmaria nos acordes e ligeira simbiose com o sax-tenorista Joe Henderson pendem mais para o cool-jazz de Stan Getz que, por exemplo, alguma associação com Johnny Alf. Tudo bem que a entrada dos demais instrumentistas reforça a conotação norte-americana do tema, mas essa comparação, de fato, é ínfima. Porque esta faixa dá o start a uma transição elementar na carreira de Horace Silver: marca a passagem de seu quinteto, com Blue Mitchell (trompete), Junior Cook (sax-tenor), Gene Taylor (baixo) e Roy Brooks (bateria), para um grupo completamente reformulado.
Na versão original, Mitchell, Cook e companhia tocam apenas na minimalista “Calcutta Cutie”, com mínima participação em choque às notas de Horace. Taylor e Brooks, no entanto, o acompanham na balada “Lonely Woman”.
O relançamento em CD de Song For My Father revelou outras versões de Horace com o antigo quinteto: uma releitura para “Sanctimonious Sam”, do flautista Musa Kaleem, além de registros do compassado bop de “Sighin’ and Cryin’” e do jazz com influência latina “Silver Threads Among The Soul” – incluindo uma versão em trio, apenas com Horace, Taylor e Brooks, de “Que Pasa”.
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Apresentemos, então, os músicos que passam a tocar com Horace em Song For My Father: o trompetista Carmell Jones (que havia tocado com Bud Shank e Sarah Vaughan); o contrabaixista Teddy Smith (Sonny Rollins), o jovem baterista Roger Humphries, então com 20 anos, e o citado Henderson, talvez a mudança mais abrupta no combo do pianista.
O crítico Dan Ouelette assim definiu o papel do saxofonista:
“Henderson foi uma revelação, com seu tenor estático flutuante, enquanto Silver pulava na intensa atividade da bateria de Humphries, que desliza, espanca e deixa que os bumbos corram”.
“The Natives Are Restless Tonight” deixa bem claro o frescor desse novo grupo. O estilo semipercussivo do piano de Horace inspira notas de Henderson que lembram Cannonball Adderley. Aqui, ele parece reconfigurar a estética muito bem traçada com os Jazz Messengers, pioneiro do hard-bop uma década antes (ao lado do baterista Art Blakey).
“The Kicker” é ainda mais sintomática nessa busca musical. Entrecortante e esparsa, tem clara inspiração no bebop dos anos 1940, em que a inventiva agilidade de Henderson e Jones arrebatam de cara, simbolizando o início com ‘pé direito’ de uma nova motivação musical.
Mas é o estilo de Horace Silver que prepondera, e ele é crucial em sua obra. Dosando os ensinamentos dum estilo percussivo da escola Bud Powell, Horace é mais straight-ahead, mais focado, mais retilíneo que, por exemplo, Thelonious Monk, apesar de não ser reconhecido por nenhuma espécie de virtuosismo.
A forma com que Horace toca favorece bem mais o desempenho de um quinteto enquanto grupo. Isso faz tanto sentido em Songs For My Father, que não é banalidade alguma observar que, ao lado do quinteto reformulado, sua dinâmica funciona melhor. Isso porque o frescor das notas é uma tônica essencial para o andamento de seu hard-bop.
Não que o pianista buscasse um novo sentido de inventividade – a grande contribuição do álbum, em sua carreira, está no novo patamar de espiritualidade, algo que se percebe nos melhores discos de John Coltrane. “Não consigo me lembrar as razões específicas para ter acabado com a banda” com Junior Cook e Blue Mitchell, contou Horace. As diferenças das canções do álbum deixam isso bem claro: Cook-Mitchell e cia não comprometem em nada a qualidade da música de Horace Silver, mas estava na hora de respirar novos ares musicais.
