Gravadora: JCOA Records
Data de Lançamento: 1971
Escalator Over the Hill é um disco deveras ambicioso.
Considerado um dos grandes cânones do avant-garde, o álbum da pianista e bandleader Carla Bley com poesia de Paul Haines é uma epopeia que engloba música da Broadway, fusion-rock, clássico contemporâneo e spoken-word no formato livre de composição (sim, free-jazz!).
Apesar de ser visto como o segundo álbum de Bley, em Escalator a pianista já era considerada veterana. Tinha um disco na bagagem, além de ter colaborado no premiado Liberation Music Orchestra (1969), que marcou a estreia do contrabaixista Charlie Haden como bandleader. (Faltava, no entanto, bons managers: sua biógrafa Amy C. Beal conta que ela buscou travar contato com o produtor Teo Macero – da Columbia – o influente Nesuhi Ertegun – da Atlantic – e Francis Wolff – da gravadora Blue Note – mas sem sucesso.)
Os textos do disco foram elaborados por Haines quando ele morava em Nova Delhi (Índia). Segundo ele, as letras “transcreviam apenas sensações, não ideias”. Carla percebeu a complexidade do que tinha em mãos e contou com o apoio do Jazz Composers Guild Orchestra, que ajudou a formar em 1965 com o trompetista Michael Mantler, com quem permaneceu casada de 1965 a 92.
Cerca de 90 músicos ajudaram a fazer com que Escalator fosse materializado. Foram quase três anos para que o projeto ficasse devidamente concluído.
Haines compreendeu a demora: “[o álbum] estava fora do alcance natural da narrativa, e isso foi reservado para que a música pudesse transcrever”.
Cerca de 90 músicos ajudaram a fazer com que Escalator fosse materializado. Foram quase três anos para que o projeto ficasse devidamente concluído.
Ao contrário do que se pensou na época, a pianista carregava a influência do vanguardista parisiense Erik Satie, e não do pianista alemão Kurt Weill, que só chegou a conhecer depois. Em Escalator, de fato, Carla estava exercendo aquilo que muitos bandleaders mais invejavam em Duke Ellington: a habilidade de compor pensando em outros músicos.
Nesse aspecto, importante notar o espaço dado ao trombonista Roswell Rudd – algo já perceptível na primeira faixa, “Hotel Overture”. Seus mais de 13 minutos mostram Rudd indo do gélido lamento ao impressionante diálogo de free-jazz que toma de assalto com a entrada do sax-tenor de Gato Barbieri e o clarinete de Perry Robinson.
Rudd é uma das peças-chave do disco. Vêm dele as esfuziantes notas rústicas, fáceis de perceber mesmo quando contemplamos o instrumentista como parte da orquestra (“Like Animals”), na microfonia de “Stay Awake” (com voz aterradora de Viva, uma das modelos de Andy Warhol) ou no massivo diálogo de metais (“Song To Anything That Moves”).

O trompetista Michael Mantler ajudou Carla na empreitada; eles foram casados entre 1965 e 92
Mas, antes mesmo de Bley, que se destaca mais como compositora que instrumentista, a dominação sonora de Escalator deve-se muito à execução de Mantler que, lembra o crítico Joachim Ernst-Berendt, tinha “capacidade notável de introduzir vozes independentes do free-jazz, sem deixar que isso apagasse a sua personalidade”. Se você quer vê-lo empenhado num bonito acompanhamento de trompete, basta perceber os poucos segundos de “Holiday in Risk Theme”, mas não pode ocultar a importância de sua presença no nebuloso desenvolvimento de “This is Here…”, que parece abrir as portas para um lugar mágico que só pode ser visitado e imaginado uma vez: no momento em que se ouve o disco.
A lista de músicos importantes que contribuem em Escalator Over the Hill é extensa, mas vale mencionar alguns: além dos já apresentados, instrumentistas como o italiano Enrico Rava (trompete), o vanguardista Don Cherry (trompetista que já experimentava com a multilinguagem do jazz em carreira solo), Paul Motian (bateria) e John Buckingham (tuba) são alguns dos requisitados jazzistas.
Escalator Over the Hill só foi concebido aos palcos em 1998; a equipe foi reduzida a 23 músicos, mas a apresentação foi tão ovacionada, que virou turnê e motivou lançamento do álbum em CD duplo
O baixista Jack Bruce conduz alguns temas, como a eletrificada “Businessman” – com solos arrepiantes na guitarra de John McLaughlin – e “Detective Writer Daughter”, onde Carla cria uma dinâmica que o deixa tão confortável como nos tempos de Cream, que havia encerrado há pouco tempo. O dueto vocal da canção é instigante.
Don Preston é outro nome de destaque em Escalator. Ele é dono do suspense que paira na voz do ‘doutor’ em “Like Animals” e imita um leão na faixa-título. Ao lado dos condutores Carla e Mantler, estava lá até para preencher com sonoridades de moscas, rãs e outros barulhos inusitados que fossem necessários.
Na época de lançamento, Carla Bley, Paul Haines e Michael Mantler (que deveria ter o nome estampado na capa) não tinham o budget necessário para colocar o álbum em turnê – algo praticamente inconcebível, vide a quantidade de músicos. Mesmo assim, devido à grandiosa qualidade, faturaram o French Grand Prix du Disque du Jazz, em 1973, e congratulados como Melhor Álbum de Jazz pela Melody Maker. A revista especializada Down Beat nomeou a pianista como um “talento que merece largo reconhecimento”.
Escalator Over the Hill só foi concebido aos palcos em 1998, por conta do aniversário de 300 anos da cidade de Cologne (Alemanha). Quase três décadas depois, a equipe de músicos reduziu-se a 23 integrantes, contando com 4 cantores (Syd Straw, Phil Minton, David Ross e Linda Sharrock). As críticas foram tão positivas, que ela estendeu a turnê para Áustria, França e Itália, além de conseguir fazer com que o LP triplo também fosse registrado em CD duplo.
Veja imagens das sessões do disco, extraídos do documentário de Steve Gebhardt sobre as dificuldades de gravação de Escalator:
