Pode não parecer, mas algumas coisas mudaram de 2011 pra 2014. Não apenas para a banda ruído/mm, cujo novo trabalho, Rasura, foi aprovado pela Lei de Incentivo da Fundação Cultural, de Curitiba, com patrocínio da Caixa Econômica Federal. A música instrumental como um todo adquiriu mais espaço e, se não se tornou palatável aos ouvidos de quem está acostumado com os gêneros tradicionais brasileiros, tornou-se importante sustento de um nanomercado que revela – e muito! – sobre a atual produção artística brasileira.

Sim, a música instrumental majoritariamente galga por vias independentes. Mas é inegável perceber que listas de melhores discos nacionais feitas ao fim do ano distribuem espaços bem mais generosos a grupos sem vocais.

O ruído/mm, claro, participa de várias delas desde 2004, quando surgiu com o álbum Série Cinza, pavimentando caminho pelo post-rock, naquela época bem estreito. Com o selo Sinewave, com quem a banda trabalha desde o lançamento do anterior Introdução à Cortina do Sótão (2011), o post-rock cresceu aos poucos devido à boa repercussão pela internet.

Não é injusto dizer que estes curitibanos estão na dianteira deste trajeto. São 11 anos, tempo suficiente de uma importante maturidade – algo que o post-rock brasileiro, ainda, não goza. Mas a identidade da banda, esta sim, consta muito bem em Rasura. “Acho que acaba sendo mantida, porque são deliberações nossas, naturais”, explicou o guitarrista Ricardo Pill em conversa via e-mail. (Além de Pill integram o ruído/mm: Alexandre Liblik no piano, teclado e escaleta; André Ramiro na guitarra; Felipe Ayres na guitarra e efeitos eletrônicos; Giovani Farina na bateria; e Rafael Panke no baixo.)

Pill explicou outras coisas acerca de Rasura. Explicou os detalhes da masterização com o engenheiro de som Mark Kramer, que trabalhou com as lendárias Butthole Surfers e Galaxy 500; das dificuldades ainda inerentes às bandas instrumentais; a entrada do guitarrista Felipe Ayres ao grupo; e outros detalhes a mais, que você confere a seguir:

Por mais que o título sugira algo fragmentário, Rasura é um disco mais coeso que qualquer outra obra do ruído/mm. Mantém a identidade. Vocês ainda consideram esse fator importante, mesmo depois de mais de uma década de atividade?
Acho esse tópico bem subjetivo e sutil, principalmente quando uma banda fala de si. Não há uma consciência de manutenção nem de negação de estilo, às vezes deliberamos. Existe a vontade de fazer diferente, de testar outros territórios. Nos entediamos… Mas acho que a identidade acaba sendo mantida porque são deliberações nossas, naturais.

Houve notáveis diferenças dos discos anteriores até este trabalho: obtiveram patrocínio e fizeram masterização com Mark Kramer.
Esse disco foi feito com pela Lei de Incentivo da Fundação Cultural de Curitiba. Com os recursos previstos no projeto, tivemos um pouco de estrutura [se comparado aos outros discos], em termos de gravação/mixagem. Mas o essencial foi poder contar com o trabalho de pessoas que já estavam próximas à banda há bastante tempo para a parte de apoio – fotografia dos Irmãos Thoms; vídeo de divulgação de Vitor Moraes; capa e direção de arte de Mario de Alencar e Jaime Silveira. Tudo isso foi feito por pessoas com quem temos sintonia e que têm sintonia conosco. O próprio Kramer já havia curtido muito o Introdução à Cortina do Sótão. A master dele foi delicada – como ele diria, anti loudnesswar.

Vocês preveem maior visibilidade ao trabalho de vocês?
É uma previsão difícil, mas acho que um pouco de evolução é normal. Esperamos que o disco chegue aos ouvidos certos, só isso…

Os pianos e as guitarras me pareceram mais soberbos. Peguemos o contraste entre esses dois instrumentos em “Inconstantina”, pra mim não só uma das melhores do disco, como de toda a carreira de vocês. O que realmente diferencia Rasura dos discos anteriores?
Me perdi um pouquinho no soberbos (risos). Acho que este disco é um pouco mais coeso, como você colocou. Nossa abordagem foi um pouco diferente. Não sei bem, mas, arriscando, é mais vertical, menos horizontal, mais conversas monofônicas, mais repetições ressignificadas, mais punk. “Inconstantina” é uma música influenciada pelos nossos comparsas do Constantina. Um pouco de nossa visão deturpada da coisa deles. Os discos deles rodaram em nossos players por um tempão, por isso (in)constantina.

Como a entrada de Felipe Ayres contribuiu ao ruído/mm?
Cara, em todos os sentidos. Ele entrou na banda há pouco tempo, mas parece que está lá desde sempre. Tem uma sintonia muito grande conosco, em termos de gosto. É um multiman, toca, trabalha com produção de som, trilha original e por aí afora. Apesar de não ter gravado o Rasura conosco, a mão dele já está lá, nos shows, ensaios e improvisações. Um pouco da abrangência que estou falando está reunido em um site próprio.

Você falou de shows: me deu a impressão de que Rasura é daqueles discos que se agigantam ao vivo. Como tem rolado as apresentações até então?
Até agora foram dois, estamos melhorando. Muito tempo longe de palco, mas ao vivo ele é um pouco mais dinâmico, até mais pesado… Como está tudo fresco, é muito bom executá-lo ao vivo e aos poucos ver como se mescla com o resto de nosso repertório.

11 anos depois, acreditam que a ruído/mm tem mais espaço? Por que motivo?
Se compararmos, sim, sem dúvida. Acho que o fato de não pararmos de lançar discos e de fazer discos que nós, como ouvintes, gostamos… Eu mesmo demoro bastante tempo pra conferir uma banda nova. Ouço falar uma vez, depois outra, depois alguém mostra algo. É assim, em tempos de calda longa ainda mais… Fuck! Ninguém sabe o que tá rolando.