Houveram tempos de rebeldia no punk; eles conseguiram ser ainda mais rebeldes. Havia ferocidade musical; eles estavam ainda mais famintos.

Protestos pipocavam contra a Rainha da Inglaterra e contra a mão-de-ferro de Margaret Thatcher, e na música, como não poderia ser diferente, bandas como Sex Pistols e The Clash chamavam para o embate. Se essas bandas tinham o arsenal, eles tinham a bomba atômica, a arma mais beligerante para enfrentar o sistema.

O nome deles é The Pop Group. E eles eram agressivos, caóticos, incômodos. Eram os black-blocs musicais do Reino Unido, e isso gerava desconforto mesmo aos mais próximos da essência punk. Três acordes? Que nada! Pra fuzarca ser completa, também tinha que ter free-jazz, dub, no-wave, noise e calypso no calibre. Afinal, todos esses gêneros também têm o pé na música de protesto e nortearam revoluções ao redor do mundo.

“Nós sempre fomos muito internacionalistas”, revelou o vocalista Mark Stewart em entrevista exclusiva ao Na Mira. “Ouço música radical de todas as partes do mundo”.

Em sua primeira fase, o The Pop Group durou apenas quatro anos. Seu disco de estreia, Y (1979), é tão desconcertante quanto o clássico Stations of the Crass (1979), do Crass, um dos poucos exemplos de similaridade. No entanto, Stewart e sua trupe sempre se mostraram mais comprometidos com problemáticas sociais – mas não de uma forma demagogicamente esclarecedora, como Joe Strummer demonstrou em algumas ocasiões. O impacto de clássicos como “We Are Time” e “Don’t Sell Your Dreams” pegaram a crítica de jeito. O radialista britânico John Peel ficou fascinado e não demorou para que o grupo fosse a uma de suas clássicas sessões.

O segundo álbum, For How Much Longer Do We Tolerate Mass Murder? (1980), foi ainda mais visceral – se é que alguém pudesse supor algo mais radical que Y. O início do disco é arrebatador: “Forces of Oppression”, “Feed the Hungry”, “One Out of Many”… Era o decreto de incêndio ao palácio da Monarquia!

O alcance musical a partir de então foi tão expressivo que é possível imaginar Nick Cave, LCD Soundsystem e Rage Against the Machine habitando a mesma órbita de influência.

“We Are All Prostitutes”, o grande hino do The Pop Group, surgiria pouco tempo depois. Não havia pudor, muito menos censura, afinal, a nova casa deles era a Rough Trade, gravadora que firmou-se como exemplo de divulgação de bandas underground. Mark Stewart chegou a morar por um breve tempo com Geoff Travis, linha de frente da gravadora. Ele relembra. “Íamos à casa de seu irmão mais velho. Ele trabalhava bastante com bandas independentes e tudo o mais e hoje já controla algo que se tornou uma companhia”.

“Precisamos ser livres”, exclama o músico. Sim, o lema permanece depois do celebrado retorno da banda, um ano após a recusa de participar do festival All Tomorrow Parties (“Somos todos umas putas!”, brincou Mark sobre o assunto).

Logo no início de 2015 tivemos a prova de que o retorno foi produtivo – depois de relançar, no ano passado, o clássico We Are Time (1980) e a compilação de raridades Cabinet of Curiosities, The Pop Group disponibilizou a inédita “Citizen Zombie”, que dá nome ao novo álbum. Algumas semanas depois, tivemos a viciante “Mad Truth”, que já ganhou um clipe dançante com direção de Asia Argento.

Numa conversa pra lá de descontraída, Mark Stewart revelou a sensação de estar de volta com a banda (formada por Dan Catsis no baixo, Gareth Sager nas guitarras e teclados e Bruce Smith na bateria), disse porque quis Paul Epworth na produção, pediu dicas de bandas da Música Torta Brasileira, falou sobre liberdade de criação, o mistério em torno de “The Boys From Brazil”, a esquisita faixa do primeiro disco. E, claro, aloprou o AC/DC.

Stewart deixou avisado: vai ter turnê na América Latina. Provavelmente o Brasil esteja no radar para conferir o repertório de Citizen Zombie, que será oficialmente lançado dia 23 de fevereiro de 2015.

Já foram disponibilizadas duas novas músicas do The Pop Group reformulado. O que podemos esperar do novo disco, Citizen Zombie?
Loucura! Loucura psicótica, loucura em versão deluxe! Para lhe dizer a verdade, não consigo entender este disco, me desculpe. Começaremos a gravar novos materiais por toda a próxima semana, para nossa turnê pelo mundo. E terminamos o disco antes do Natal, então é a primeira vez que estou sentando para ouvir. Não consigo entendê-lo melhor que ninguém, é tudo novo pra mim.

Por que a escolha de Paul Epworth na produção do disco?
Porque ele é o melhor produtor do mundo. A filosofia do The Pop Group é: se quisermos destruir as coisas, temos que destruir com o que temos de melhor! Queremos destruir as melhores coisas. Para tentar arrebentar um diamante ou apenas tocar com uns caras é completamente fácil pra gente soar como uma banda de free-jazz, jazz dançante, experimental ou totalmente fora de série. Tentamos ir na contramão do que deveríamos fazer, quebrar todas as prerrogativas, e chegamos até Paul Epworth, que tem aconselhado o The Pop Group nesses últimos tempos e já era um grande fã.

Os primeiros discos que fizemos mudaram completamente sua forma de ver o mundo quando ele era mais novo, e ele surgiu com todas as facilidades de um dos melhores estúdios atualmente. Então, gravamos as canções desnorteados como brinquedos perdidos. Soamos maravilhosamente bem, como se estivéssemos naquelas igrejas gigantes com diversos brinquedos emprestados, até nos tornarmos tortuosos, furiosos.

Em uma das canções disponibilizadas, “Mad Truth”, não encontrei essa fúria.
Sim, mas para mim o fato de me tornar o mínimo normal que seja já é algo furioso. Porque é estranho. O problema é que as pessoas não entendem o que representamos e o que tentamos fazer. Porque, sempre, o The Pop Group quis ser THE Pop Group (ou, O grupo pop). Não há nenhuma ironia. Formamos nossa trajetória punk e vimos que seria realmente legal pegar nossas ideias malucas e o interesse em conceitos intelectuais, tendo em vista as rádios. “Mad Truth” é um exemplo.

Algumas faixas deste álbum começam como algo radiofonicamente furioso. Queremos ser convidados para apresentações na televisão e coisas do tipo. É realmente importante que pessoas esclarecidas se comprometam um pouco com a imprensa em geral, porque às vezes é entediante ser completamente underground a todo o tempo. Costumamos nos situar em toda nossa produção conceitual para explodir bem no coração da comunidade.

Numa entrevista à TV italiana você mencionou a ‘zumbificação’ da sociedade. O que quer dizer?
É você (risos)! Ou qualquer um que se olhe no espelho.

As pessoas estão mais alienadas com a tecnologia?
Basicamente, é o dever para com a escravidão. Atualmente, vivemos em prisões digitais. O maior problema de todos é perceber que o nível do ser humano social, ao tentar se comprometer comigo, com meus amigos, ou até minha namorada, chega ao nível de se tornar zumbi, seja pelo Facebook, nas mídias sociais em geral, naquela mania de dizer ‘espere um minuto…

Antigamente, as pessoas costumavam jogar Tetris em seus Game Boys. Mas, agora, são completos zumbis com suas máquinas. Quando morava em Berlim, fui a um bar e comecei a fazer uma piada. Todo mundo fez ‘shhh‘, porque estavam em seus iPhones, entende o que estou dizendo? (Risos)

É triste…
Acredito que nas próximas duas gerações as pessoas vão crescer sem os ouvidos, mas com dedos mais longos, para que possam tocar suas telas (Risos).

Atualmente, acredita que a situação política é pior que nos anos 1980?
No Brasil? (Risos)

Haha, apesar dos poucos avanços, as coisas melhoraram por aqui, pelo menos um pouco. Mas, pensando no mundo, em geral, como você vê a política atualmente?
As pessoas pedem para que eu explique como o The Pop Group funcionava nos tempos de pós-punk. Era realmente um planeta diferente. Gosto sempre de pensar no futuro. Escrevi esse verso para uma música que estou trabalhando: ‘The flags of our fathers/Lie tattered and torn bankrupt ideologies litter the dealing room floors’ (As bandeiras de nossos pais/Repousam esfarrapadas e se tornam uma ninhada de ideologias falidas rolando escada abaixo‘). É numa melodia quebrada, ainda estou desenvolvendo. O problema é: os políticos permanecem estúpidos e as pessoas legais não querem se comprometer com política porque acham que é algo sujo.

Você se depara com as aclamadas palavras de artistas, intelectuais, pessoas legais, e então percebe o que acontece no mundo, mas eles não querem se comprometer com aquelas outras pessoas. Isso é controlado por estúpidos ególatras, que se dedicam às corporações. É o absurdo em dobro, mas ainda sou esperançoso, acredito que o trabalho mútuo um dia será a favor da Terra.

Ainda acredita que somos todos prostitutas?
Quanto custa? Pode me enviar o dinheiro pelo PayPal? (Risos).

Por que decidiu voltar com o The Pop Group mais de 30 anos depois de seu último disco de estúdio?
Sei lá, é bizarro, realmente não entendo. Meu conceito de tempo é um tanto estranho, porque, pra mim, o tempo é como um círculo não linear. Realmente não entendo os conceitos romanos de horas. Basicamente, [nós, da banda] somos mais amigos, porque começamos no período de escola. Éramos como uma gangue em Bristol: mais ou menos 2.000 pessoas de lá permanecem amigos, alguns deles trabalham em indústrias, outros em botecos, outros são escritores, e constantemente ilustramos essas pessoas em nossa música, sempre experimentando.

O mesmo dia em que perdermos o conceito do The Pop Group haverá a demonstração em Londres de um artista que lutou por cerca de 2.000 pessoas, ou a mesma demonstração que empenho com a minha banda jamaicana, é tudo a mesma coisa pra mim. Mas nos mantemos amigos.

O mais engraçado de tudo isso é que o cara que escreve The Simpsons, Matt Groening, estava curando o festival All Tomorrow Parties, em 2010, e disse que poderia escolher qualquer banda que quisesse para o festival, viva ou morta. Disse que queria que Iggy Pop voltasse com os Stooges e que eu voltasse com o The Pop Group. Achei aquilo maravilhoso, quer dizer, poderíamos estar no próximo episódio dos Simpsons! Somos todos como o Homer, de qualquer forma.

Não voltei com a banda naquele ano, mas pouco tempo depois percebi que há diversas pessoas legais no mundo todo que realmente gostariam que a banda fizesse algumas coisas. Foi bastante encorajador pra gente, afinal, o The Pop Group é um canal de televisão útil para transmitir ideias radicais.

Vejo o The Pop Group mais conectado com a música norte-americana que com a britânica. Difícil achar outro exemplo em seu país de algum grupo com tanta voracidade política: talvez Crass, Slits ou mesmo o The Clash, como você já citou muitas e muitas vezes.
Ouço música radical de todas as partes do mundo. Meu amigo trabalha no selo musical Indigenous Resistance (Resistência Indígena), que ajuda o povo indígena a lutar por suas leis como forma de ampliar seu projeto de pesquisa. Então, passei a ouvir algumas músicas indígenas, que é bem radical. Ouço música de todo o mundo, porque algumas causas a música anglo-saxônica não pode reivindicar.

De qualquer forma o The Pop Group sempre quebrou essas barreiras anglo-saxônicas.
Sempre fomos muito internacionalistas. Em Bristol, quando era criança, havia um cara que era o mais incrível dos socialistas em questão de paz, em diversos sentidos. Ele tinha uma incrível visão. Bristol sempre foi uma espécie de recipiente e chegou a ter um trem que trazia escravos africanos nos séculos XVI e XVII. Portanto, desde muito novo, percebi as conexões que haviam pelo mundo. É impossível imaginar que um país deveria negar o outro. Todo mundo está interconectado. Esqueci o nome da banda, mas lembro que por volta de 1978 ou 1979 havia um grupo em São Paulo que tocava algo similar às músicas do The Pop Group.

Não seria essa banda de São Paulo a Patife Band? É a que acho que melhor se encaixa com o Pop Group…
Pode me mandar o nome? (Mandamos; ele ouviu e achou o máximo, mas não soube dizer se era essa a banda ou não).

De qualquer forma, tudo ficava no underground naqueles tempos. Há muita coisa independente da Alemanha, São Francisco, na Inglaterra… Todo mundo gravava em cassetes e mandava para o John Peel. Lembro uma vez de ir a Moscou e também ver florescer uma interessante cena musical.

Você estava falando sobre independência: desde o começo, o The Pop Group é conectado à cena independente, também porque fez parte do início da trajetória da gravadora Rough Trade. Pode falar um pouco sobre isso?
Quando mudei para Londres pela primeira vez, dividi uma casa com Geoff Travis, que já trabalhava com as lojas da Rough Trade e depois deu o passo para a sua gravadora. De vez em quando, íamos à casa de seu irmão mais velho. Desde então, ele trabalhava bastante com bandas independentes e tudo o mais e hoje já controla algo que se tornou uma companhia. É verdadeiramente importante.

No entanto, não importa a escolha que fazemos, nada é norteado por um grande produtor ou por um artista. Precisamos ser livres.

Sou brasileiro, obviamente tenho que perguntar: qual o propósito de “The Boys From Brazil”, do primeiro disco do The Pop Group (Y, de 1979)?
É uma história muito, muito longa. Vou resumir pela metade. No material de gravação desse disco, costumávamos usar técnicas de edição. Minha avó era vidente, estava sempre conversando com os espíritos. De vez em quando pegávamos um livro aleatoriamente e, da mesma forma, escolhíamos diversas palavras, jogava no chão e fazia um cut-up, uma edição e, de repente, chegávamos a alguma coisa, algo profundo, somente com a seleção dos dedos das pessoas. Era um procedimento totalmente aleatório. Acredito que quando você faz um procedimento randômico desse tipo, você tem acesso ao sobrenatural. Então, quebramos a melodia e chegamos à música.

O The Pop Group vai fazer shows por aqui?
Decerto que sim. Ainda não sei onde, mas começamos a organizar shows na Austrália, Japão, América do Norte e definitivamente iremos à América do Sul. Sempre ouvimos alguma coisa bacana do Brasil, mas algo que se tornou uma grande influência deste disco foi a cumbia. Há cinco ou seis anos atrás, comprei um disco em Chicago e me deparei com o footwork (gênero urbano da música eletrônica) de DJ Rashad, um som maravilhosamente rico. Ouvi dizer que no Brasil há uma cena dark, é verdade? Como se chama?

Chamamos essa cena de ‘Música Torta Brasileira’, mas é uma cena independente, restrita a alguns conhecedores e jornalistas que se interessam e propagam esse som.
Pode me mandar esses nomes pelo Skype?

Com certeza. Vou mandar com alguns links para audição, pode ser?
Perfeito.

O que mais você poderia nos dizer sobre o atual momento do The Pop Group?
É instigante a pegada da banda. Porque começamos como garotos e gostamos de algumas coisas doidas. Prosseguimos constantemente, a todo o tempo, como num contínuo abate. Os poucos shows que fizemos na Inglaterra e na Espanha têm sido alegres comemorações. As pessoas vêm de lugares distantes não apenas para ver o Pop Group, mas apenas para fazer parte da multidão, todo mundo levanta e diz: ‘sim, sou doidão!’.

O público de hoje aceita melhor o som do Pop Group, comparado a décadas atrás?
É estranho, acredito que o mundo está bem mais legal para aceitar o que fazemos. As pessoas fuçam para ouvir algo de Björk, Massive Attack ou Nine Inch Nails, todos revolucionários em suas trajetórias, que também nos serviram de influência. Os ouvidos das pessoas se excitam com novas coisas, elas não querem ouvir algo doce, querem ouvir diferentes tipos de música.

Acredito que há um público bem maior direcionado à esquerda, soprando em FKA-twigs ou justamente por aí, mundo afora. Fico muito feliz com esse momento, assim como com a qualidade de alta definição de áudio, algo que realmente, realmente mesmo reivindica frequências hipersônicas diferentes.

Ainda toca as músicas antigas nos shows?
Claro, somos todos prostitutas! (Risos) Tem uma pessoa conhecida, que adoro tirar sarro, que parece bastante o Angus Young, do AC/DC. Conheço uns bebês que… Enfim… Eles, com aquela mesma chatice de som por 30 anos. E de repente eles retornam e fazem aquelas mesmas piadas estúpidas novamente…

Hahahaha.
Não é nada engraçado (!).