De um lado, as tensões recriadas em temas lúgubres com o Sobre A Máquina. Do outro, as canções enigmáticas encaixadas em belas melodias com o Fábrica.
Não há nada de industrial na música feita por Emygdio Costa – há, sim, requintes de experimentalismo e até mesmo inquietude, ainda que Grão pareça ser concebido por um artista aprofundado em sua timidez.
Segundo disco do Fábrica, Grão foi concebido a partir de um ‘conflito interno’, como revela Emygdio em entrevista ao Na Mira. “Não me censurei em momento algum, as coisas vinham na cabeça e imediatamente eram escoadas para o violão ou papel. Acho que por isso elas assumiram um caráter mais subjetivo”.
Com 11 faixas, o disco traz texturas inovadoras e composições contemplativas. Na época do lançamento, no início de novembro, Emygdio havia entregado referências de Edu Lobo, Leyland Kirby e Grizzly Bear. Também dá pra perceber uma incursão meio amazônica e até mesmo cinematográfica: “Queria que o ouvinte se sentisse num filme do Terrence Malick, com aqueles planos abertos e contemplativos da natureza que, apesar de bela, a qualquer momento pode se voltar ferozmente contra você”.
Em entrevista exclusiva ao Na Mira, Emygdio decifrou Grão, comentou a atual produção musical brasileira e expôs alguns perrengues de ser artista independente:
Como o conceito do disco foi pensado? Onde você realmente queria chegar com o lançamento de Grão?
A concepção não se deu a partir de um conceito previamente estabelecido. Na realidade, um conflito interno plantou em mim uma necessidade crescente de comunicar e me expor. Acabei encontrando na música um veículo para tal, além de expurgar certas feridas abertas que carregava.
Gravar um disco mais íntimo tem dessas vantagens. É como uma visita diária ao psicólogo: você pode desabafar sobre tudo e não ser julgado. Posteriormente, com as primeiras músicas esboçadas, percebi que tratava-se de um disco autocentrado mesmo. O assunto sou eu (risos). Logo, não acho que houve intenção de chegar a algum lugar específico. Eu queria me atingir.
O processo de composição, como foi (letras e melodias, que são uma beleza à parte)?
Tentei fugir um pouco do meu processo costumeiro de composição. Não me censurei em momento algum, as coisas vinham na cabeça e imediatamente eram escoadas para o violão ou papel. Acho que por isso elas assumiram um caráter mais subjetivo.
Foi um processo onde me esquivei ao máximo da interferência da consciência nas composições. Em algumas, até me utilizo de uma linguagem não verbal, desnudando por completo a melodia e forçando o ouvinte a buscar a mensagem diretamente na música. Foi curioso me ver abordando assuntos há muito perdidos ou submersos em minha memória. Entendi que, quando buscava algo específico, o objeto tendia a fugir de mim. Aprendi a esperá-lo quieto, me aproximar sem sustos. Assim, ficou mais fácil de entender e domar minhas ideias.
Há várias participações no álbum, alguns de parceiros como Cadu Tenório e Alex Zhemchuzhnikov (Sobre A Máquina) ou mesmo o MoMo. Como você percebeu que eles poderiam se encaixar na proposta do disco?
No início, fiz todo o processo de composição e criação dos arranjos sozinho. Porém, após uma longa conversa com um amigo, notei que nossa geração é muito autossuficiente e que isso acabava gerando músicos presos em casulos, isolados em sua música. Não queria isso para mim. Gosto da troca, acredito muito na interação entre pessoas e no efeito direto que ela causa na arte individual.
Então, convidei artistas que admiro para participar do projeto, o que se mostrou uma decisão acertada. As coisas tomaram outro rumo. Quando expunha minhas ideias perante a bagagem particular de cada músico, um terceiro elemento surgia na canção. Foi algo incrível.
Primeiramente convidado a gravar um piano na faixa “Grão”, Sávio de Queiroz (Ceticências) acabou se juntando a mim na produção do disco. Foi interessante ter alguém ajudando a traduzir minha linguagem particular para algo mais universal. Também chamei o produtor do disco anterior, Igor Ferreira, para masterizar o resultado final do trabalho. São pessoas que me entendem e sabem o que fazer para me auxiliar a alcançar o som por mim desejado. Isso aliado às inspiradas intervenções de Gabriel Feitosa, Momo, Lucas Hirata (Fraturas), Renato Frias (O Padre dos Balões), Braulio Almeida e outros.
Quanto mais ouço o disco, mais tenho a intenção de que ele se complexifica. Isso é intencional? O senso de percepção do ouvinte foi previsto na hora de conceber Grão?
Não diria mais complexo, mas notei que o disco vai tornando-se mais triste e introspectivo à medida que caminha para o término. Acho que também foi uma escolha inconsciente. Enxergo o disco como um autorretrato musicado. Tudo ali representa um aspecto da minha personalidade e a maneira como me relaciono com as coisas à minha volta. Queria que o ouvinte se sentisse num filme do Terrence Malick (risos), com aqueles planos abertos e contemplativos da natureza que, apesar de bela, a qualquer momento pode se voltar ferozmente contra você.
O disco foi todo composto no violão – eu sozinho trancado no quarto. Portanto, a raiz do disco é bem calma, um olhar sereno para dentro de mim mesmo. Porém, como todas as pessoas, também sou feito de arroubos, conflitos e muitas dúvidas
Vejo seu trabalho com duas características distintas: por um lado, uma herança amazônica que parece ligar Neyva Alencar e Hermeto Pascoal. Por outro, o tal do ‘pós-MPB’ apregoado pela geração Los Hermanos. O Fábrica realmente se encaixa aí? Como você vê o seu trabalho em um panorama musical brasileiro?
Interessante você citar o Hermeto. Na época da gravação ouvi muito o Live-Evil, disco de 1971 do Miles Davis que possui três composições assinadas pelo Pascoal. São uns temas me trazem essa imagem dele sentado à beira de um rio em comunhão com a natureza, assoviando melodias aleatórias que vem à cabeça.
Considero Grão um álbum muito imagético e de fato tem uma relação forte com natureza e organicidade. Porém, não fiz o disco visando encaixá-lo em algum gênero ou estilo específico. É uma junção de inúmeras referências emocionais, visuais e sonoras. Acho que a música brasileira – ao menos a alternativa – vive um momento curioso: vejo muita gente buscando se relacionar de alguma forma com nosso passado musical, seja ele antigo ou mais recente. Acho isso saudável, mas admito que sinto falta de mais artistas olhando de fato para frente, principalmente os que trabalham diretamente com canção. Gosto quando sou desafiado por uma música. Mas entendo que é complicado negar a influência de tantos gênios que a música brasileira nos apresentou e, neste disco, me enveredei por artistas menos lembrados pela minha geração, como Edu Lobo, José Mauro, Flaviola e o Bando do Sol e etc.
Ainda que o conceito acústico de Grão se sobressaia, há contrapontos sonoros (space-rock/free-jazz) em faixas como “Partida” e “Infante”. Qual a intenção disso?
A parte mais acústica e intimista presente no disco é uma representação da minha quietude. O disco foi todo composto no violão – eu sozinho trancado no quarto. Portanto, a raiz do disco é bem calma, um olhar sereno para dentro de mim mesmo.
Porém, como todas as pessoas, também sou feito de arroubos, conflitos e muitas dúvidas. Esses contrapontos sonoros mais ásperos traduzem essa outra faceta da minha personalidade, que geralmente era escoada para os discos do Sobre A Máquina. Grão é feito de dois lados distintos que se desafiam e se complementam na mesma medida.
Pretende registrar algum clipe de Grão? Pra qual música?
Se pudesse faria vídeo para todas as músicas! (risos). Porém, a realização é demasiadamente cara. Sou um artista independente, não há dinheiro para tal. Mas já estou elaborando alguns vídeos mais simples, ao vivo, e com formatação reduzida. Logo mais começarei a registrá-los e, em breve, estarão disponíveis para o público.
Em relação aos shows: como serão concebidos? Já tem datas para as primeiras apresentações?
Já tenho alguma ideia de como serão as apresentações. Essa parte será divertida, pois trata-se de um disco que permite experimentações e abordagens distintas. Cadu Tenório e Sávio de Queiroz se juntarão ao time para as apresentações ao vivo, o que trará um frescor estético interessante. Estou ansioso pelo resultado. Ainda não tenho datas, estou confirmando a viabilidade de um show de estreia com participação de todos que gravaram no disco. Será bonito, aguardem!
