Com o método da cabala não se brinca. Principalmente quando envolve o nascer e morrer, comumente feito às 3:33 de acordo com este rígido ensinamento que vem do Judaísmo.

Crente ou não nesse pensamento, Wallace Costa esbarrou com o misticismo no 11º disco solo.

Numa das conversas perdidas com o Na Mira pelas redes sociais, o compositor foi bem claro:

– Passei por um aperto aqui. Perdi o meu disco novo, o 3:33.

– Mas está tudo bem? – mandei, na hora.

– Gravei um disco diferente com outras músicas, porque já não lembrava os arranjos.

Logo pensei na morte de uma ideia; antes de achar que fosse profecia cabalística, adotei a teoria de que era Murphy quem estava entrando em ação mesmo.

– Consegui recuperá-lo esses dias – confessou o músico. – Fiquei muito triste. Enfim, acabou que eu vou escolher metade de cada [para o lançamento de 3:33]. Bem doido isso. Acho que esse drama todo deixou o disco mais interessante.

Não só interessante, como também mais enigmático. Com arranjos mais ousados, maior presença de guitarras e composições de teor mais elevado de abstração, 3:33 significa uma ruptura estética com o formato folk que tornou-se convenção de sua alcunha solo.

Quem acompanha o produtivo Wallace sabe que há padrões em cada um de seus cinco projetos: os álbuns solo costumam ter 15 faixas (EPs, 5 faixas); Transparente Intenso tem 17 faixas; Frozen Institute, 12 faixas; Um Camenzind sempre com 10 faixas; e o único disco do Nonwords possui 11 faixas.

“Não é uma superstição. É um toc de organização”, defende-se Wallace ao falar do novo disco solo, de 13 faixas. “Mas isso mudou com o 3:33. Quis quebrar essa onda de ser prisioneiro de minhas loucuras. Como disse o amigo/irmão Danilo Sevali: ‘você criou isso. Você pode dar um fim. Essa é a beleza da criação/criador’”.

Com apenas 24 anos, o morador da pequena cidade de Cruzeiro não deixa o tédio escapar de sua expressão musical. Os efeitos em retardo e vocais preguiçosos de “Tiros de Desencanto” revelam mais que qualquer teoria sobre como é viver num lugar pacato. “Quando você mora numa cidade pequena, como a minha, é difícil ter acesso a tudo que rola pelo mundo”, conta Wallace. “A internet salvou minha adolescência”.

De formação não muito diferente dos que possuem sua idade (seja na metrópole ou no interior), o primeiro clichê que recai sobre o seu trabalho é a classificação folk lo-fi. Possui certa lógica, munida do recorrente vício em classificar cenas musicais de forma generalizada.

Se os ouvidos se atentam à obra de Wallace, percebemos um compositor complexo; taciturno, como cabe aos solitários, mas inteligentemente sensato e tocante dentro de seu universo particular, materializado na Acácio Records, que reúne a maioria de seu catálogo.

Um total de 20 discos é demasiado para um músico como Wallace, que soma apenas 5 anos de carreira. Isso mostra que a barreira entre o filtro (às vezes nocivo, às vezes não) da indústria musical quedou como o Muro de Berlim. Ele é apenas mais um dos muitos (e produtivos) artistas musicais que disponibilizam tudo o que criam pela rede.

A liberdade é um fator valioso na obra de Wallace; ele compõe na velocidade de seus ritmos emocionais, tendo como ponto de partida Nick Drake, Elliott Smith, Leonard Cohen, Built to Spill e Yo La Tengo. “Lembro de ter contato com a música folk bem novo”, conta Wallace. “O filme The Graduate foi meu primeiro contato com a música folk. Comprei um violão e mergulhei na ideia de fazer minhas músicas. Nunca tive aula de qualquer instrumento, aprendi do meu jeito”.

Em 3:33, a despeito de mudanças, o ‘jeito’ de Wallace permanece intacto. Letras em inglês e português, canções de curta duração e as singelas melodias ganham uma tônica semelhante ao anterior Wooden (ou a Erosion, 2º melhor disco de 2013).

O uso de guitarras mais distorcidas em “Inebriado” ou o estouro massivo que conclui “Vontade” sugerem uma ótica intranquila de suas percepções. Conforme a sucessão de plays, Wallace conquista o ouvinte com o uso da ‘mente vazia’ em “Salto” e nos comove com o lamento de “Long Year”, cuja reflexão sobre a dureza de 2014 recai para os reverbs, um efeito que remete ao acordeom e melodias melancólicas do violão.

Não deve ter sido fácil para Wallace. Na verdade, nunca foi. “Não sei se isso um dia vai passar”.

3:33 é o quarto disco solo de Wallace só em 2014. Ou seja, o fato de permanecer produtivo nem sempre se associa ao bem-estar de seu estado de espírito. Dizem que a tristeza e a melancolia são importantes na obra de um artista porque o permite reavaliar e redimir tudo que aconteceu de errado durante determinado período. Pouco sabemos o que Wallace sente, apesar de imaginarmos algo relativo à clausura. Esse é o norte de seus discos? Quiçá… Bem distante dos holofotes, o mistério rodeia um dos mais interessantes músicos de nossa geração.