Gravadora: Nonesuch
Data de Lançamento: 9 de outubro de 2015
Quando o Daft Punk dava os primeiros passos do sucesso com Discovery (1997), Ludovic Navarre já estava em cena. Antes da febre que se tornou a EDM, o DJ por trás de St. Germain seguia na correnteza da música lounge, ainda em alta no período em que lançou Boulevard (1995) – que só foi lançado nos Estados Unidos em 2002, quando ele já havia, digamos, sumido do mapa após o estrondo que foi Tourist (2000), um dos discos mais bem-sucedidos do que ficou taxado como nu-jazz.
Depois de várias turnês musicais – inclusive tocando com Herbie Hancock e com o cantor francês Claude Nougaro – Navarre decidiu que hora era de parar por uns tempos. Ele não estava mais empolgado com a sonoridade de seu álbum que vendeu mais de 3 milhões de cópias. “Eu precisava fazer algo novo”, disse, em entrevista ao jornal The Independent. “Então comecei uma longa, longa jornada de pesquisa”.
A eletrônica, em St. Germain, determina a interação dos instrumentos entre eles. Nada é acelerado, tirado do tempo: as canções desbravam novas formas de dinamizar esses gêneros malineses
Navarre visitou comunidades malinesas em Paris, onde mora, e passou a assimilar o distinto swing das cordas e percussões da música tradicional daqueles povos. Já versado nos afro-beats e outros ritmos tradicionais de Gana e Nigéria, o músico levou seis anos para gravar as 8 faixas de St. Germain, terceiro disco deste projeto.
De cara, ele deixa avisado: “É dance music – não world music”. Claro que o que ele diz não impede de estabelecer tais conexões, mas, dentro do que o disco homônimo transfigura em termos estéticos, Navarre não está errado. Essas referências africanas fazem parte de um arquivo imagético, coletado com a cautela de um ourives, preservando a essência rítmica do que instrumentos como kora, balafon, guitarra, sax e n’goni podem contribuir.
A eletrônica, em St. Germain, determina a interação dos instrumentos entre eles. Nada é acelerado, tirado do tempo: as canções desbravam novas formas de dinamizar tais gêneros, com interferência quase minimalista.
Na primeira canção divulgada, “Real Blues”, Navarre usa os vocais do lendário bluesman Lightning Hopkins, mas o frizz entre balafon e a guitarra do habilidoso Guimba Kouyate se entrecruzam com a acidez dos chimbais que sustentam o andamento da canção.
A seguinte, “Sittin’ Here”, joga batidas de um techno ritualístico na voz espirituosa de Nahawa Doumbia, enquanto em “Voilà” é Fanta Bagayogo quem oferece serenidade às notas ondulatórias de Kouyate.
Em “How Dare You”, percebemos o quanto esses cuidados por parte de Navarre foram importantes: no meio de um trio de guitarristas e a voz de Zoumana Tereta, ele toma o cuidado de inserir batidas deep-funk aos poucos, como se pedisse passagem aos poucos em um trânsito turbulento. Quando domina o som, é ele quem mantém a velocidade máxima.
O percussionista brasileiro Jorge Bezerra é um membro importante em St. Germain. É só lembrar com quem ele toca para estabelecer a convincente ponte jazzística para este disco: Joe Zawinul. (“Family Tree” é como se fosse um escopo pra ele, mas sem as delineações no piano elétrico – em seu lugar, esvoaçam solos de um sax arabesco).
Desde que iniciou carreira, o St. Germain mantém um vínculo com a tradição da música negra, respeitando seus amálgamas e moldando a eletrônica a partir do desenvolvimento dos ritmos com que trabalha. “Ficou originalmente desestabilizado quando a musicalidade ficou totalmente livre. Mas era fundamental que eles tocassem música malinesa”, contou Navarre, ao Wall Street Journal, quando reuniu os músicos com quem tocou pela primeira vez. Cada canção foi registrada isoladamente, como se captasse um eclipse que não poderia ser perdido. Contextualmente, a escolha tornou-se arbitrária, como toda direção artística de um músico, mas a justificativa é convincente: “Sinto que é de lá, do Mali, que vem o blues”.
Outros lançamentos relevantes:
• Bárbara Eugênia: Frou Frou (Independente)
• This Lonely Crowd: Meraki (Sinewave)
• Juçara Marçal & Cadu Tenório: Anganga (Quintavant/Sinewave)
• Markus Reuter: Mundo Nuevo (Iapetus)
• The Game: Documentary 2 (Blood Money/Entertainment One)
