Gravadora: YB Music/Selo Instituto
Data de Lançamento: 26 de outubro de 2015
***
Quando Tejo Damasceno, Rica Amabis e Daniel Ganjaman lançaram o disco Coleção Nacional (2002), com o Instituto, foram sagazes ao sugerir produções descomunais aos timbres de músicos conectados com a cena urbana de São Paulo e Rio de Janeiro. (Não à toa, o disco entrou na seleção dos melhores discos nacionais da década de 2000.)
Em “Cabeça de Nego”, a voz de Sabotage soava inspiradora e criativa, ao lado de atabaques que pareciam vir de um culto afrorreligioso. Era a prova chacal de que o rapper do Canão subia altos degraus no rap nacional, que se reconfigurava naquele momento.
A premissa do Instituto nada mudou nestes últimos tempos. A grande diferença é o timing: sem pressa de ser concebido, Violar matura a sonoridade, mais eletronizada que o antecessor
Treze anos depois, as coisas mudaram, mas não muito. Ganjaman já não é parte integrante do coletivo que trabalha com trilhas publicitárias e cinematográficas. Mas, a alma de Sabotage, assassinado no início de 2003, permanece vivaz no novo trabalho, Violar.
Com exceção de um breve acompanhamento no refrão de “Alto do Zé do Pinho”, pouco se ouve da voz de Sabotage. Ela foi fruto do fascínio do paulistano ao receber um prêmio na terra de Chico Science – junto a ele, em voz quase imperceptível, Otto e Sombra somam ao coro. “Seco” foi idealizada pelo rapper Lyrics Born, do Japão. Ele veio a um festival e gostou do que Sabotage poderia oferecer. Sem tempo de contribuir até sua morte, a missão foi completada por BNegão, com refrão de Jojo Velarde.
A premissa do Instituto nada mudou nestes últimos tempos. A grande diferença é o timing: sem pressa de ser concebido, Violar matura a sonoridade, mais eletronizada que o antecessor. Uma das maiores virtudes do disco é perceber a música brasileira como elemento globalizador. Manguebit, afro-beat, bass, trap, indie, rap: não há trincheiras para que essas cenas se completem e entrelacem.
PUBLICIDADE
Em que contexto a sonoridade de Karol Conka firmaria algo concreto com Tulipa Ruiz, como em “Mais Carne”? Dá pra imaginar Jorge DuPeixe, do Nação Zumbi, numa simbiose tão boa com o space-funk como em “Na Surdina”? Ou a reverberação sonora ir tão longe na colaboração do Metá Metá em “Irôco”?
Há músicos internacionais no disco, e o destaque vai ao lendário baterista Tony Allen, que, junto a Fela Kuti, sonorizou o afro-beat, hoje de imensa influência na música brasileira. Com Criolo, Allen conecta o gênero ao samba e ao rap, em “Vai Ser Assim”. Mas é na estruturada parceria com Thiago França, em “Baía”, que notamos como o seu compasso é essencial para que os sopros se delineiem em busca de uma abstração que não fique presa ao contexto da música nigeriana. Afinal, as batidas são universais.
As três faixas de Violar assinadas pelo Instituto compreendem a melancolia e o catártico, contrapontos musicalmente expressivos na atual produção em nosso país. “Polugravura”, que inicia o disco, corporifica dub, bass e jazz num crescendo orquestrado. “Bossa Chinesa” transfigura a tradição do samba com uma espiritualidade que lembra os congados, enquanto “Ossário” vai da trilha de um comercial de automóvel até chegar à massa sonora com forte peso do manguebit, por conta das percussões. A forma com que são estruturadas remete a um processo de composição digitalmente calculado, puzzles estéticos que contrabalançam as ricas descobertas da música brasileira.
Claro que seria necessário mais de uma década para que toda essa riqueza fosse capturada.
Outros lançamentos relevantes:
• Romulo Fróes: Por Elas, Sem Elas (YB Music)
• Ian Ramil: Derivacivilização (Escápula)
• Jaloo: #1 (StereoMono/Skol Music)
• Joanna Newsom: Divers (Drag City)
• Laurie Anderson: Heart of a Dog (Nonesuch)
• Shining: Internacional Blackjazz Society (Spinefarm)
Errata:
• Apesar de voz quase imperceptível, Sabotage canta, sim, em “Alto do Zé do Pinho”. A informação anterior, que dizia que ele não cantava, estava errada (toque do comentarista Samuel Lobo).
