Gravadora: RCA
Data de Lançamento: 25 de março de 2015

O soulman Anthony Hamilton tem uma trajetória musical que iniciou lá em 1996, mas pode finalmente dar uma guinada nos charts da Billboard. Tudo por conta de uma versão exuberante de “Hotline Bling”, com seu grupo The Hamiltones.

A relação do músico da Carolina do Norte com Drake já vem desde 2013, ano em que o rapper lançou Nothing Was the Same. Naquela época, “nós escrevemos, criamos alguns sons”, disse Hamilton à Rolling Stone. (Antes disso, Hamilton excursionou com D’Angelo, tocou com Rick Ross e colaborou com diversos rappers.)

O trabalho com Drake ainda não saiu – mas saiu um disco que tem tudo para dar a Anthony Hamilton o merecido lugar entre os melhores soulmen de sua geração. É o disco What I’m Feelin’, nono de sua carreira.

Nele, Hamilton retoma sua parceria com Mark Batson, com quem não trabalhava desde Ain’t Nobody Worryin’ (2005). Entre os colaboradores estão Salaam Remi (famoso por seu trabalho com Amy Winehouse e Nas) e James Poyser (premiado por trabalhos com Erykah Badu e The Roots).


What I’m Feelin’ traz tudo aquilo que o soul atual não traz: apego às raízes do blues e do country norte-americano. O disco não tem apelo algum de modernidade, embora a sonoridade seja sofisticada a ponto de casar com o vocal melífluo de Anthony Hamilton – mais associado à leveza de John Legend que, por exemplo, às elucubrações de Frank Ocean, ainda que ele seja mais experiente que os dois.

A pegada de “Charlene”, até hoje a mais conhecida música de Hamilton, é retomada, mas sem as interjeições tão excessivas nas paradas de soul e R&B. Uma boa sugestão a novo hit é “Ain’t No Shame”, soul no melhor estilo Al Green com as guitarras esparsas de Al Anderson.

Crítica: D’Angelo & The Vanguard | Black Messiah

Já tratada como single oficial, “Amen” é uma espécie de gospel revitalizado. Hamilton canta como se estivesse pregando, algo já recorrente em sua obra. Ele estica as notas conforme o andar musical, segurando os momentos de catarse iminentes às canções desse tipo. “Escutei a música, quis tomar uma aproximação diferente e compus como se fosse R. Kelly”, disse Hamilton. “Assim que a escutei, sabia que tinha algo a ver com igreja”.

“I Want You” e “Grateful” também têm sua carga gospel, mas não se fecha aos afeitos à música religiosa. Antes de tudo, a música de Anthony Hamilton é espirituosa como a de um Charles Bradley mais novo.

What I’m Feelin’ é basicamente um diário aberto de emoções e, principalmente, da fé de Hamilton. Em momentos difíceis, como antecipa em “Walk in My Shoes”, ele não perde o trajeto da caminhada mesmo sem a mulher e a família. Ao piano de Batson e um arranjo de cordas excepcional de Poyser, Anthony Hamilton convence o ouvinte a se emocionar com sua história.

Esse nível colaborativo de qualidade de Hamilton-Batson-Poyser também é sentido em “Take You Home” – com órgãos fritando ao fundo – e “Love is An Angry Thing”, soul ‘cru’ de traços sulistas que não perde seu elemento gospel.

“Tudo bem ser gentil e vulnerável enquanto homem”, disse Hamilton ao site Xonecole. “Tudo agora é sobre ser cool, ser da última moda e ter uma certa percepção das pessoas, em vez de ser você naturalmente”. A música de What I’m Feelin’ pode até ter os traços de neo-soul; o que não tem de inovador, sobra em sinceridade.

Outros lançamentos relevantes:

Bob Mould: Patch The Sky (Merge)
2Chainz: Collegrove (Def Jam)
RJD2: Dame Fortune (RJ’s Electrical Connections)
Vijay Iyer & Wadada Leo Smith: A Cosmic Rhythm with Each Stroke (ECM)
SBTRKT: Save Yourself (Save Yourself)