Gravadora: Quintavant
Data de Lançamento: 25 de setembro de 2015

Tempos de política. De política não, de incerteza política. De falácia política e de superficialidade ao falar sobre política. Tudo, agora, é política.

Negro Léo sempre soube disso, mas não precisa mencionar partidos, esquemas de corrupção ou idiossincrasias partidárias. Em seu segundo disco cheio, Niños Heroes, ele assume todas as temáticas a partir do colapso. A política também está lá, como canta em “Na Vala Abjeta das Conformidades”, numa espécie de freaky-melancólico: ‘Expectativa de vida de gente/No Brasil/É uma chance de calouro’.

Todavia, também está “o sangue, o fogo, Deus, a morte, o sexo, a língua, o mercado”, conforme enumera o músico. “Tudo está aí para ser despedaçado com os dentes da nossa miséria e da nossa opulência”.

Niños Heroes é uma viagem saturada em 22 canções verborrágicas, que raramente ultrapassam os 3 minutos. Adotando estrutura dodecafônica, distorce free-jazz e space-rock paulatinamente apoiado por guitarras e sintetizadores em ebulição – ainda que, comparado ao anterior Ilhas de Calor, considerado o melhor disco nacional de 2014 pelo Na Mira, Leo tenha explorado mais a sonoridade fuzarca dos metais, especialmente em “Bebês Fantasmas da Guerra Dormindo” e “Hey Steven”, com participação do célebre sax-tenorista Alexander Zhemchuznikov, bem versado na escola Pharoah Sanders/John Gilmore. (As duas canções mencionadas também têm participação de Paulo Dantas no sax-alto.)

Entre desventuras e vertigens, Niños Heroes analisa o espectro social e existencial da mesma forma como encaramos a política: com muita sujeira

O que diferencia Niños Heroes da obra anterior é a dinâmica som/canto, que aparenta estar em incessante batalha. O vocalista não se alia às explorações rítmicas, mesmo porque elas praticamente inexistem. Assim como Ilhas de Calor, as canções são erigidas a partir de desconstruções. Quando ouvimos, por exemplo, em “Pulque” e “Toqsean” a distorção prevalecer, é como se Léo perdesse uma batalha. Mas, então, vem “Warm Love” ou “Outra Vibe” e o vemos domar com sua voz, como se tivesse exercendo o pleno domínio do diálogo numa conversa informal. (Essas ‘travas’, claro, são abstrações: afinal, mesmo nas canções instrumentais Negro Léo opera, geralmente tocando wurlitzer, clavinete e violão.)

Se um disco e dois EPs são objetivamente eficientes para mostrar como Negro Léo domina a torta musicalidade de sua obra, importante mencionar os momentos em que deixa o silêncio e o ritmo interferirem. Digamos que esse ‘paradigma’ aponta resoluções, como mostram “Não São Ciclopes” e “Oooh Baby”, recarregando – óbvio! – com força total a voracidade ‘economizada’.

Para essa jornada torrencial – menos paulatina, mais desconstrutiva – Negro Léo conta com os mesmos parceiros: Felipe Zenícola (baixo), Eduardo Manso (guitarra) e Thomas Harres (bateria). Além dos mencionados Dantas e Zhemchuznikov, Negro Léo tem participações dos guitarristas Marcos Campello (que toca em “Pulque”, “Taaig” e “Vrau Vrau”) e Arthur Lacerda (“Turismo Sexual no Mandela”).

Entre desventuras e vertigens, Niños Heroes analisa o espectro social e existencial da mesma forma como encaramos a política: com muita sujeira. Partindo do pressuposto orwelliano de que a política está em tudo, nem é preciso reforçar o contexto do álbum. Por isso, deixemos Fred Coelho divagar:

“O cardápio posto: todos nós falhamos nesse mercado de expectativas. Revolver tudo, do buraco fundo até o talo da vida. Rasgar os códigos, flutuar nas bocas, lamber as feridas e forçar a barra. Além da canção, da história, da conveniência, da conivência, do sorriso de comercial, da melodia feliz e boçal, do refrão corta e cola. Mesmo assim, não se convença de imediato que aqui há algo que nos afaste. Ao contrário: o abismo nos namora, nos seduz, nos degola e nos salva. É preciso que se cave. É preciso cavar a si”.

Ouça Niños Heroes, de Negro Léo, no player abaixo. Para fazer o download, visite o BandCamp do músico.

Outros lançamentos relevantes:

Rodrigo Campos: Conversas com Toshiro (YB Music)
Girl Band: Holding Hands With Jamie (Rough Trade)
Run The Jewels: Meow The Jewels (Mass Appeal)
The Dead Weather: Dodge and Burn (Third Man Records)
Kurt Vile: B’Lieve I’m Goin Down… (Matador)
John Scofield: Past Present (Impulse!)
Julia Holter: Have You in My Wilderness (Domino)