Gravadora: NoPaper Records
Data de Lançamento: 22 de janeiro de 2016

Pode não parecer, mas Skilled Mechanics é um disco colaborativo, não apenas de Tricky. Inspirado em um documentário sobre espionagem, o título ‘obscuro e cínico’, segundo o próprio músico, marca sua mudança para Berlim e parceria com o velho amigo DJ Milo e o baterista Luke Harris.

Ao longo dos anos o britânico marrento do trip hop tem variado suas colaborações – chegando, inclusive, a gravar com Mallu Magalhães – mas um ponto deve ser observado: ele não cria química ou estabelece pontos que conectem as características musicais dos que chama de ‘parceiros’.

Se por um lado as canções não fogem de seu controle, por outra não exploram novas dimensões.

Esse senso de ‘dimensão’, na obra de Tricky, é intrincado, porque depende de suas ‘fases’. Se é a elas que devemos recorrer ao ouvir Skilled Mechanics, podemos dizer que se atrela mais a False Idols (2013) que ao disco mais recente, o flamejante Adrian Thaws (2014). Isso significa melodias mais onduladas, vocais nebulosos e um foco na composição que transporta o ouvinte para o habitat mental de Tricky.

O melhor exemplo disso é “Boy”. Um synth alarmante cativa o ouvinte de primeira. Lembra bastante o último disco, mas a canção é um repassar biográfico da difícil infância de Tricky: um pai negligente, uma mãe que se suicidou, noites maldormidas no escuro. ‘Não posso entender’, diz, num processo musical que parece entregue às máquinas. Sacou, o título?

As sombras evocadas na sonoridade de Skilled Mechanics são resguardadas e estão prontas para atacar em momentos chacais: a já citada “Boy” é uma entrega, mas quando ele quer avançar, como faz em “Don’t Go”, o ouvinte pode ficar perplexo. Andamento normal de bateria, atmosfera melancólica… Perceba que são os vocais de Tricky que se movimentam como serpente faminta: ‘Venha e me bata lentamente/Até que você goste’. Ressurge, então, as deliberações sexuais de sua obra, presentes desde Maxinquaye (1995).

Entrevista em vídeo com Tricky, antes de show no Brasil

Como um todo, Skilled Mechanics mostra o músico tentando se adequar à mecanização humana, sem considerar isso bom ou ruim. É um processo inverso à do garoto de A.I.: Inteligência Artificial; podemos até pensar que Tricky imaginou um universo orwelliano em que a conformidade é a única via possível de resistência.

Em “Diving Away”, a síncope lúdica o leva ao otimismo de ter uma garota, por exemplo, e seguir adiante. Já em “How’s Your Life”, Tricky sai do espectro alienante que criou para si, e critica quem ‘assiste TV e acha que isso é vida‘.

A movimentação entre a sombra e o lado sereno aufere a Tricky um controle que poucos considerariam elogiável. Isso complexifica ainda mais o que poderíamos concluir de Skilled Mechanics. Ora, ele não é colaborativo? Sim, mas só iremos perceber isso nas entradas vocais da rapper chinesa Ivy (“Beijing to Berlin”), da já parceira de outros carnavais Francesca Belmonte (“We Begin”) e da sensual Oh Land (na inicial “I’m Not Going”).

A musicalidade operante das demais canções não têm equilíbrio; são tão desajustadas quanto a racionalidade humana e as peças mecânicas.

Tricky não nos dá a chave disso tudo; quando nos apegamos a algo dele, vem Milo e Harris e subvertem essa noção.

Por isso, paira a estranha sensação de uma hora Skilled Mechanics ser mais bem-sucedido como um disco de singles. Noutra ocasião, até se destaca como um álbum estranho, mas que oculta pérolas. Então permanece o incômodo, mas não cessa o fator curiosidade, essa sim, chama implacável para que o ouvinte retorne, prenda-se e se liberte de Skilled Mechanics.