Gravadora: Cuneiform
Data de Lançamento: 20 de janeiro de 2015

Boas histórias de viagens estão musicadas no terceiro disco do The Kandinsky Effect: turnês pela Ásia, Estados Unidos e Europa fizeram com que o trio trouxesse as particularidades do jazz de cada um desses cantos para a sua própria sonoridade em Somnambulist.

Como manda a cartilha do jazz europeu no século XXI, Somnambulist tem grande proximidade com o rock e com a eletrônica.

No entanto, ao invés de sugar a energia de solos flamejantes de guitarra, ou efeitos arrebatadores de programações de computador, a banda francesa usa esses elementos como intermédio, um tempero para acrescentar o som eletrificado de sua dinâmica jazzística.

São músicos que gostam de post-rock, IDM, blues, jazz escandinavo e rock clássico; são ecléticos. Absorvem as particularidades desses gêneros e devolvem um material paulatinamente pop.

A forma com que elementos pop são processados no som do Kandinsky Effect o diferenciam de nomes mais ou menos próximos, como Elephant9 ou Bill Frisell. Como jazzistas, eles parecem bem inspirados nos grupos firmados nos anos 1960-70 (Cream, Jeff Beck Group) em faixas como “Flips” e “Trits”, mas na maior parte do tempo deixam que a simbiose eletrônica/ambient/pop permaneça sempre no meio-termo, em prol do ritmo que sustenta “Koala”, ou a faixa-título.

Na questão rítmica, porém, The Kandinsky Effect é pouco inovador, principalmente porque parece retrabalhar em padrões musicais já testados à exaustão no circuito pop.

Por mais que sugira descontrole e certa vontade de se deixar levar pelo acaso, Somnambulist é matematizado demais. Quando os efeitos de Gäel Petrina tomam “Chomsky” de assalto, aguardamos algo arrebatador; nos resta, porém, um tempo vago, preenchido de forma decepcionante.

Pela expressão de seu instrumento, o saxofonista Warren Walker nos soa um tanto limitado – algo que sabemos que ele não é, devido aos seus trabalhos anteriores. Quando o baterista Caleb Dolister experimenta com percussões sob efeitos esfumaçantes de Petrina em “Annabelle Chases a Bug”, Walker nos surpreende ao optar por notas mais retilíneas em seu sax. Num escopo que claramente remete ao free-jazz escandinavo, o músico optou por uma linha cool-jazz. Ou seja, tornou-se ainda mais gélido que seus vizinhos.

Tudo bem que a criatividade não seja o ponto forte do Kandinsky Effect, afinal, eles ainda são novos na cena jazzística. São músicos que gostam de post-rock, IDM, blues, jazz escandinavo e rock clássico; são ecléticos. Absorvem as particularidades desses gêneros e devolvem um material paulatinamente pop.

Talvez os integrantes sejam condescendentes demais com os elementos que dizem retrabalhar, portanto, por mais belos que alguns takes sejam, ainda falta ao Kandinsky Effect desenvolver um ethos musical, nos surpreender com achados musicais mais vigorosos.

Cada estrutura harmônica de Somnambulist parece estar presa numa gaiola invisível. A boa notícia é que o trio está se fortificando; logo, sai dela.