Gravadora: Nonesuch
Data de Lançamento: 9 de maio de 2014

Aceite uma coisa: o The Black Keys é uma banda tipicamente de estúdio.

Se se achava que com Brothers (2010) e El Camino (2011) Dan Auerbach e Patrick Carney preenchiam a lacuna de stadium-rock injustamente entregue a grupos indie-sem-graça, Turn Blue veio para mostrar que a aliança com a tecnologia e as manipulações digitais tem mais a ver com banda que aplausos artificiais a céu aberto.

Culpe Danger Mouse por isso. Ele, que também lapidou os dois álbuns anteriores, é quem dá claramente a direção de amenidades como a faixa-título e o blues slow-down de “Year in Review”.

Talvez o hype não desperte mais interesse, o que justifica o trajeto por vias mais melancólicas, como “Bullet in the Brain”, cuja explosão estimulada pela bateria tem um propósito curioso: é como se Carney tivesse consolando o amigo Auerbach, que passou pelas dificuldades de um divórcio entre as gravações do álbum.

O embargo conjugal é sentido pelo ouvinte num lamento como “Waiting On Words”: ‘Adeus/Não sei para onde você está indo/A única coisa que realmente sei/É que meu amor por você é real’. A divergência entre opção estética e reflexo emocional gera uma indefinição nos caminhos trilhados pela banda. Por isso, as autorreciclagens pop como “Fever” e “It’s Up to You Now”, asseguradas pela guitarra-stoner de Auerbach, não soam mais que um porto seguro no qual a banda se apoia para fazer jus ao passado, que lhe rendeu bons frutos.

O que fica velado em Turn Blue é que, se a pausa por uma nova direção é necessária ao duo, a indefinição soa mais como uma barreira estética que uma possibilidade de renovação. A manipulação digital é que se sobressai à ousadia da banda, o que poderia colocar em xeque um novo questionamento: seria necessária uma contribuição futura de Danger Mouse nesse processo? Pois, como a terrível empreitada de After the Disco mostrou, ele parece estar preso demais a um ‘retrocentrismo’ descartável.

Não vamos negar; o retrô pode ser favorável nas inspirações de Turn Blue, como em “In Our Prime” – não apenas uma das melhores do disco, mas de toda a carreira da banda. Todavia, esse mesmo ar traveste demais a energia de “In Time”, algo que o Tame Impala faz melhor. “10 Lovers” engana o ouvinte com um início interessante, mas a composição merecia maior dedicação. Apesar da corpulência que ganha com o passar dos minutos, seu formato bem lapidado não a salva.

Nesse caso, o ‘voltar às origens’ suposto em “Gotta Get Away” é sintomático ao mostrar que o Black Keys sairia mais bem-sucedido ao desenvolver-se num caminho que poderia ser mais bem explorado, que confiar piamente nos efeitos da produção de Danger Mouse. A faixa relembra a dobradinha Brothers-El Camino, que alçou os Keys a um topo que talvez fosse alto demais (pelo menos, Turn Blue deixou isso bem evidente).

Se são aplausos contidos que o Black Keys procura, eles devem perder a força. Empresários, fiquem atentos: talvez não seja um bom negócio anunciar o duo como headliner de um próximo megafestival…