Gravadora: YB Music
Data de Lançamento: 27 de agosto de 2014
A transgressão musical está para Romulo Fróes como a melancolia está para Nelson Cavaquinho.
Barulho Feio é o disco em que tal substantivo impõe-se como capitular. De estrutura difusa, trata a MPB com ranhura tão imponente, que deixaria qualquer uma dessas novas cantoras que insistem em exaltá-la com olhares tórridos. Ou deprimidas.
O compositor paulista não é dado a belezas, mesmo em um disco como Um Labirinto em Cada Pé (um dos melhores de 2011), cuja soberba musicalidade servia como atrativo às composições assertivas.
Esse atrativo é deliberadamente negado ao ouvinte em Barulho Feio. Porque o barulho não é tão presente assim.
Fortemente calcado na poesia, a sonoridade soa secundária. Por mais que contemplemos guitarras em fuzz, solos curtos de sax e contrabaixo em linhas tortas, tais sons aparecem ao fundo de uma cortina de fumaça, como se formasse o caos lá fora. É uma obra quase spoken-word, retrato de uma visão particularmente incômoda de quem enxerga o mundo contrapondo os maniqueísmos belo e feio.
Nessa era em que a música praticamente se sustenta pela internet (“nossa igreja e a diversidade, nossa praia”, comparou Romulo em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo), Barulho Feio é um disco com mais tendência a ser ignorado que elogiado. Não que o mundo seja assim tão injusto; o incômodo ao ouvinte significa a eficácia do trabalho, o que nos leva a questionar tantos elogios infundados à obra.
Para ser interpretado à baixa luz ou contemplado no breu, Barulho Feio não peca pela inacessibilidade; é a forma com que Romulo interpõe suas músicas que forma o elo perdido do álbum.
Barulho Feio é um disco cinza, que nasce cinza e morre cinza. Porque, por mais que saibamos estar diante de um dos mais admirados compositores de nossa geração, o contemplamos recitar as faixas com demasiada e desnecessária monotonia.
“Ó” é construída num acústico crescendo, mas soa rebarbativa com as repetições da expressão ‘ódio novo’. Como se acumulássemos ódio com tanta facilidade assim…
“Peixinho Triste” deveria ser um solstício de rara beleza no âmbito do álbum. Transforma-se numa espécie de tragédia, perfeitamente catalisada pelo violão lúgubre e pelo baixo thriller de Marcelo Cabral.
“Cadê” forma a experiência mais sensorial daqui. Parece composição de quem acabou de ficar cego.
Portanto, o barulho explicitado no disco nada mais é que a apreensão diante do desconhecido.
Um dos principais acertos de Romulo foi incluir o silêncio como parte desse feio, que pouco convence o ouvinte – salvo em momentos como “Espera”, admirável dueto com Juçara Marçal com fluência para despontar como uma de suas melhores composições.
Pelo uso incôndito de acordes num conceito baixinho como a bossa nova, ainda que a desfigure quase por completo (principalmente em “Não Há, Mas Derruba” e “Se Você Me Quiser”), Barulho Feio não é erro, nem acerto, nem beleza, nem feiura. Simplesmente passageiro, como os ruídos duma metrópole cujo ritmo industrial nada mais é que o ponteiro do relógio.
