Gravadora: YB Music
Data de Lançamento: 25 de setembro de 2015
Download gratuito via site oficial
Testemunhar não é presenciar a verdade absoluta. Todos os acontecimentos estão envoltos em um contexto que ninguém consegue interpretar em sua totalidade.
Estar em um lugar não o faz mensageiro do que é, ou foi – te dá a possibilidade de ver e analisar aquele local, a partir do seu repertório e da sua cultura.
Quando vemos, nossa imaginação dá lugar ao que compreendemos como real. Então, a sucessão de símbolos imagéticos é substituída por aspectos que entendemos como ‘concretos’, testemunhados por nossa visão ocular.
Vemos, logo aquilo existe.
A essência artístico-filosófica do que entendemos por beleza, em sua acepção platônica, faz todo o sentido na música de Rodrigo Campos – especialmente em Conversas com Toshiro, em que as cores amarela, vermelha e preta compreendem manifestações diversas
Para Rodrigo Campos, pouco interfere a noção arquitetônica de Tóquio ou a paisagem de Hiroshima. O Japão está nas abstrações de Yasujirō Ozu, na imagem que ele criou poeticamente para Toshiro e nos desdobramentos que sugere na crônica de personagens como Takeshi, Asayo, Funatsu, Katsumi.
O cenário é bem mais distante que o bairro de São Mateus, em São Paulo, ou o estado da Bahia. Focalizar um conjunto de histórias a partir de localidades permite a Rodrigo encontrar o feixe perfeito para o que denominamos ‘álbum’.
A cada lançamento, o ato empírico de presenciar ou fazer parte das geografias que o compositor recorta diminui.
No primeiro disco, ele ‘devolveu’ os ensinamentos do lugar em que passou a maior parte da vida.
No segundo, musicalmente mais denso, Rodrigo ressignificou o que viu poucas vezes a partir de um reflexo existencialista.
Em Conversas com Toshiro, seu desenvolvimento criativo exige recorrer aos cineastas, mangás e pensadores que dão a Rodrigo Campos a ideia do que pode ser o Japão. A construção intelectual é transmitida a partir das histórias, tecidas em poucas palavras, para que o ouvinte também ative o próprio senso imaginativo.
A partir dessa noção é que se avalia as decisões musicais de Rodrigo Campos. Mais uma vez, ele contou com a direção de Romulo Fróes (parceiro de Passo Torto e outras empreitadas), que junto a ele estimula a busca de sons mais abstratos que tortos (ou feios).
É porque a essência artístico-filosófica do que entendemos por beleza, em sua acepção platônica, faz todo o sentido na música de Rodrigo – especialmente em Conversas com Toshiro, em que as cores amarela (por ser a terra do sol nascente), vermelha e preta compreendem manifestações diversas daquele lugar. (Do vermelho também vem o sangue dos filmes de samurai; o amarelo, a raça nipônica – que, em “Velho Amarelo”, pode muito bem ser situado na pele de um imigrante; e do preto, yin-yang, o obscuro – que, para muitos de nós, é o desconhecido.)
Os instrumentos utilizados por Rodrigo e os músicos que o acompanham são caracteristicamente ocidentais: violão, guitarra, percussão, flauta. A subjetividade das notas é que é sintomática: em “Mar do Japão”, as distorções de guitarra de Dustan Gallas, o backing vocal meio Iemanjá de Ná Ozzetti/Juçara Marçal e a síncope percussiva de Curumin dão à herança musical de Dorival Caymmi alcance para descrever o antagonismo indústria/paisagem: ‘Mar do Japão tem água viva/Mar do Japão tem carro antigo‘.
O ritmo vocal de Rodrigo em “Funatso” é tão cortante quanto uma espada, mas a harmonização acústica e as elucubrações dos backings – além da repetição das estrofes – evocam a serenidade que nós, ocidentais, associamos a essa cultura. Ele o chama de ‘rei covarde‘ e ‘metade de um homem, de um bicho‘, como digno retrato dum personagem do anime Future Diary.
Explorar o vibrafone de Carlos dos Santos e contar com a orquestração metálica de Marcos Paiva – cuja simbiose introduz perfeitamente “Toshiro Reverso” – serviu para Rodrigo Campos estreitar ainda mais sua música, acústica e imaginativa, com os elementos cinematográficos.
Valendo-se da estética belamente adornada de Wong Kar-Wai e dos perfis ‘anônimos’ envolvidos em situações complexas, típicos de Yoji Yamada, Rodrigo faz com que o lugar seja transportado à formulação do ouvinte e ganhe cores, formas e ideias tão abrangentes, que podem ser pinceladas por qualquer um que o ouve.
