Gravadora: Smalltown Supersound
Data de Lançamento: 25 de fevereiro de 2014
Para ser uma cantora soul de destaque hoje em dia não é mais necessário ter uma banda à disposição. É possível ser soul sem um tempero instrumental soul às costas.
A boa aceitação de Jessie Ware e, mais recentemente, Kelela, provaram que uma boa produção eletrônica pode fazer essa transição. SBTRKT e Nguzunguzu são os cozinheiros da vez, extraindo algumas das receitas dos chefs do Massive Attack, a referência-mor nesse microcosmo estético.
Antes mesmo do trio de Bristol estrear com Blue Lines (1991) e colocar o trip hop em cena, a cantora sueca Neneh Cherry já provocava questionamentos, do hip hop ao soul. Robert ‘3-D’ Del Naja, do Massive Attack, chegou a contribuir com a faixa “Manchild” em Raw Like Sushi (1989), onde estranheza e incerteza se fundiram em tempos em que o R&B carecia de renovação.
Depois dele, Neneh lançou os discos Homebrew (1992) e Man (1996), perdendo terreno nos Estados Unidos e levando a Europa para si, com direito a uma premiação no MTV Europe Music Awards pela canção “7 Seconds”.
O tempo passou, Neneh foi se adaptando às novas tecnologias e, agora, 17 anos depois, Blank Project mais uma vez bagunça as arestas de quem ainda perde tempo tentando classificá-la. Com a produção que vai do downtempo ao drum’n bass-tribal de Four Tet, o disco poderia ser mais um no catálogo do que se chama ‘neo-soul’ (ou trip hop). Poderia, mas felizmente não é.
Que SBTRKT e Nguzunguzu teriam a contribuir com o estranho appeal de Neneh em batidas improváveis, bom, isso é discutível. Mas a melancolia das batidas substanciais de Four Tet é que formam o melhor encaixe para que qualquer possibilidade de categorização seja extravasada. Tudo ante aos despejos emocionais atirados e expelidos no disco.
A forma minimalista em que Blank Project inicia com “Across the Water” parece ter sido extraído da mente de uma Fiona Apple. Mas Neneh consegue ser ainda mais direta: ‘Então deixe-me ser bem clara/Desde que nossa mãe se foi/Sempre parece que vai chover’. (Segundo a cantora, foi a perda da mãe, a artista plástica Monica Karlssom, em 2009, que a motivou a compor com o marido Cameron McVey as faixas do disco.)
A produção de Four Tet é eficaz por conseguir captar os jorrões sentimentais da cantora. O trovejar que permeia a faixa-título não tem nada de exagerado: Neneh lembra de como o parceiro ficou ao seu lado em momentos difíceis e explica como as desavenças normais de um casamento colocam as emoções em constante ebulição. Explica com os sentimentos, claro, não de forma literal.
“Spit Three Times” atinge a louvável façanha de entrelaçar gótico e trip hop. Sim, é estranho, e a estética ainda torna-se secundária diante da forma que Neneh destila sua sorte. Ela se diz supersticiosa, viciada, cospe três vezes ao chão. Não tem medo de admitir o insípido. Caso se impressione com a bateria que soa ao fundo, saiba: ela mal se aproxima do grau de periculosidade da cantora. ‘Me deixe sozinha’, pede sem esperar consentimento. Melhor obedecer.
Eletrônico e pulsante, Blank Project é um disco que intriga em qualquer esfera analisável. Seria o coração da cantora batendo na percussão de “Cynical”? Por que sugere algo animado quando a canção diz ‘eu estava apaixonada por você durante tanto tempo/E não posso te salvar’? Seria Four Tet nos confundindo ou Neneh Cherry mantendo seu alívio oculto?
Em “Weightless”, que poderia ter um som mais amenizado por conta da letra, a opção de batida é um grave contido, segurando para soltar um riff, uma percussão ou uma guitarra bem guardada. A sonoridade é propositalmente defasada e, enquanto ela insiste em dizer que se sente ‘mais leve’, temos nossas percepções testadas. Assim, Blank Project se afasta de qualquer resquício de sinceridade. É um disco de despejo de emoções. E as emoções costumam enganar.
Assim posto, é como se Neneh se confundisse em sua própria dor. Parece não saber lidar com ela, o que nos deixa atônitos quanto à direção que ela nos aponta. Em “Out of the Black”, ela chama a conterrânea Robyn para o que pode ser um dos singles do ano. A faixa tem um senso de alegria contida isoladamente; dentro de Blank Project, é um pequeno alívio ante a tristeza que, por mais que se passe velada e transfigurada ao longo do disco, emerge como a sombra que não deixa de acompanhá-la.
Você se anima e puxa a dança em “Everything”, pira na sonoridade de “Out of the Black” e aumenta o volume quando entra “Naked”. Mas a sensação que paira é sempre de incerteza. O que Neneh Cherry estaria nos pregando? O faz por vontade ou por estar ainda mais incerta que os ouvintes?
Entre dúvidas, caos e paradoxos, a catarse dos sentimentos de Neneh Cherry resultou em um dos melhores discos que você vai ouvir em 2014.
