Gravadora: SLAP/Som Livre
Data de Lançamento: 5 de maio de 2014
Um acidente de carro e estava encerrado um dos ciclos musicais brasileiros mais importantes dos últimos, digamos, 25 anos. A morte de Chico Science foi sentida por toda a geração dos anos 1990 que via no manguebit a expansão necessária para o fortalecimento de diversas frentes estéticas da música jovem.
O Nação Zumbi perdera seu frontman, mas não as rédeas: Jorge DuPeixe foi da percussão para o microfone e injetou rigidez no seu canto assertivo. Rádio S.amb.A (2000) colheu bons frutos, mas o turning point dessa fase se deu com Nação Zumbi (2002) – um dos 10 melhores discos da década passada pelo Na Mira – que trouxe uma enxurrada de hits (“Mormaço”, “Propaganda”, “Meu Maracatu Pesa Uma Tonelada”) e devolveu à banda a postura de imbatível.
Para essa terceira fase, mais um disco homônimo. E um novo desafio: como permanecer relevante sete anos depois do último registro, Fome de Tudo (2007)? Que direção seguir nessa retomada?
Ao ouvir as canções deste novo Nação Zumbi, nem parece que os integrantes passaram por dezenas de projetos. Porque a mudança é sentida mesmo quando observamos o teor das composições. Entre linhas.
Mais sentimental, o NZ, que sempre dialogou com a juventude de sua geração, acompanhou o passar dos anos de seu público. O single “Cicatriz” não deixa de ser sintomático: existe um compromisso com o passado (‘pra lembrar o que lhe aconteceu‘), mas a banda quer continuar a escrever sua história sem prender-se a ele. A faixa soa como um ‘licença aqui’, uma consulta prévia ao público – ainda que de forma metafórica.
A essência é permanente: as alfaias e tambores continuam vibrando o ouvinte, mas o que NZ faz de diferente é sugerir nova direção. Mais otimista e menos idealista, DuPeixe transfere sua complexidade de interpretar o que acontece ao seu redor para novos campos. O que antes era complexidade social em petardos como “Know How” e “Toda Surdez Será Castigada” agora está revertido a uma complexidade emocional. ‘Ontem você quis o amanhã/Hoje você quer o depois/(…)Relógios não esperam por ninguém‘, canta em “Novas Auroras”. No andamento regueiro de “Defeito Perfeito”, DuPeixe enaltece: ‘Eu lhe quero assim/Desse jeito/(…)E o mesmo que você vê no seu espelho/É o que eu sempre vejo‘.
A paixão é o mote de cada um desses temas, mas estamos diante de uma banda que lida com o que o humano tem de mais concreto: carne e osso. E sedução.
Com essa nova postura, ganhamos um Nação Zumbi demasiadamente humano – e automaticamente perdemos um pouco de sua postura combativa. Em tempos de manifestações anti-Copa do Mundo e de um novo momento de consciência social no País, a banda perde o bonde de se tornar um dos porta-vozes sonoros desse cansaço coletivo (se ainda estiver à procura dessa trilha, os discos antigos estão em catálogo). Por outro lado, nem sempre o calor do momento condiz com as nossas emoções, né?
Nesse sentido, “Foi de Amor” é uma bem-vinda dose testosterônica para se fazer o que se quer, sem reprimendas. As guitarras flamejantes de Lúcio Maia fornecem o pano de fundo para DuPeixe incentivar o uso da ‘droga mais que letal‘ para lutar pelo que se deseja. Até chegar a essa faixa, o ouvinte passou por amenidades (“O Que Te Faz Rir”), nostalgias (“A Melhor Hora da Praia”, com uma pontinha de Marisa Monte nos backing vocals) e intimismos (“Um Sonho”). Uma vez tascada a fúria na faixa 9, a banda prossegue nas duas últimas, “Cuidado” e “Pegando Fogo”, relembrando os momentos áureos de shows acachapantes e sentimentos adormecidos.
Quem sentia falta do NZ dos velhos tempos dirá que essa trinca final é o que há de melhor em Nação Zumbi; já quem acompanha as transições que o tempo reservou à banda verão neste homônimo uma oportunidade de repensar, assim como os integrantes, o legado a ser deixado daqui pra frente.
