Gravadora: Domino
Data de Lançamento: 24 de setembro de 2015
Chamber music, nos dias de hoje, é rótulo de música hipster. De qualquer forma, Julia Holter não tem nada a ver com isso. As estranhas explorações sônicas que propôs em Ekstasis (2012) e Loud City Song (2013) são tão magnificamente aventureiras, que difícil mesmo é pensar em como não se maravilhar com isso.
Have You in My Wilderness evoca essas comparações porque, por mais que os experimentos com música acústica tenham, hoje, mais público jovem que nunca dantes, aqui Julia optou por tornar sua música mais acessível.
Julia Holter atravessa ambiências aproveitando o que se pode extrair musicalmente de cada uma delas. A passagem do tempo, para ela, é acúmulo de experiências e fonte de riqueza
Ela extraiu as muitas camadas avant-garde e, dando uma nova assimilação delas à sua música, entregou um som límpido, vespertino, vivaldiano.
Os arranjos de corda desempenham uma sonoridade tátil – não tocante. Do contrabaixo arrojado ao crescendo de violinos, “Silhouette” acompanha a transição de paisagens e momentos cantados por Julia. “Night Song” torna-se tão densa como se os segundos se convertessem em horas, levando a cantora a divagar na imensidão do desconhecido.
“Sea Calls Me Home” é o mais próximo que o ouvinte vai se deparar com pop – isso porque, de fato, é uma variante quase extremada tratando-se de Julia Holter. Para ela, o pop permite as delineações de um sax hard-bop/semi-free, cortesia das ousadas notas de Chris Speed. Sua breve aparição permite que a canção dilua numa limpidez em que piano/voz/baixo são suficientes para manter a bela estrutura de pé. E quais são os elementos pop, então? Assobios, refrão, bateria monocromática.
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As camadas de um ambient post-rock mostram que a herança musical de Julia está assegurada com “Lucette Stranded on Island”, mas é na adequação de um ritmo compassado de “Everytime Boots” e na rigidez de um jazz de vertente europeia em “Feel You” que a acessibilidade perde toda e qualquer acepção negativa. (Calma, Julia não abandonou suas elucubrações, que tanto marcaram os discos anteriores. Um bom exemplo: a convergência entre percussões, ambient e spoken-word entrelaçam de forma cristalina em “Vasquez”.)
Julia Holter atravessa ambiências aproveitando o que se pode extrair musicalmente de cada uma delas. A passagem do tempo, para ela, é acúmulo de experiências e fonte de riqueza que torna o (clichê) cristalino algo (impressionantemente) monumental.
Chamber music? Avant-garde? É… Pop, também. Um pop com vida, pulsado por linhas de contrabaixo, tensionado pelas cordas e sopros. Um pop demasiado humano, por conta da voz serenamente misteriosa de Julia Holter.
