Gravadora: 4AD
Data de Lançamento: 6 de novembro de 2015
A eletrônica que Claire Boucher faz não é avant-garde, tampouco experimental. Os hits “Genesis” e “Oblivion” deram ao lo-fi dela uma perspectiva de grandiosidade pelo uso massivo do bass, como se fossem riffs de uma guitarra imaginária.
O novo disco de seu projeto Grimes, Art Angels, por outro lado, parece trilha de anime. As interjeições são claramente inspiradas no k-pop e o andamento das batidas parecem compor um imaginário criativamente fantasioso – tão criativos quanto as interjeições de Sakura Card Captors, ou juvenis como Pokémon.
Grimes é um dos nomes mais promissores da EDM atual e prova ser capaz de oferecer produções mais maduras com o avançar do disco
É inevitável: “Laughing and Not Being Normal” e “Belly of The Beat” parecem extraídas de uma abertura de anime pop. Os irreconhecíveis vocais de “Flesh Without Blood” e “Kill V. Maim” se assemelham às irreconhecíveis vicissitudes adolescentes. Quer dizer, não só adolescente; pode apresentar Art Angels a uma criança a partir de 7 anos que muito provavelmente ela irá gostar.
Seria isso um defeito? Não, é uma característica. Grimes é um dos nomes mais promissores da EDM atual e prova ser capaz de oferecer produções mais maduras com o avançar do disco. As pancadas “REALiTi” e “Venus Fly”, com participação de Janelle Monáe, se destacam por fluir o fantasioso à quebra rítmica – a primeira, de forma melíflua, bem suave; a segunda sugere um encontro entre trap e R&B, formando uma das grandes músicas para as pistas do ano.
De fato, Art Angels é mais identitário que Visions (2012) porque sua própria construção obedece uma linha do tempo onde a personagem parece evoluir de uma canção para outra. As últimas faixas são melhores que as primeiras, se o fator a avaliar é justaposição. As primeiras denotam bastante criatividade, mas dependem mais de seu timbre de voz, que muito remete a estigmas adolescentes.
Não é a separação de gêneros que contribui para o déficit; é a impossibilidade de passar por uma barreira que, infelizmente, existe, seja no lo-fi ou na EDM.
