Gravadora: Young Turks
Data de Lançamento: 11 de agosto de 2014

Maior alvo de experimento musical do que o R&B, na música internacional, não há.

Desde o bem-sucedido appeal da Motown nos anos 1950, passando por Muscle Shoals, James Brown, Prince, Janet Jackson, aos tempos de D’Angelo, Beyoncé e sua transfiguração total por James Blake e How to Dress Well, o gênero tem uma linha cronológica extensa, a ponto de acompanhar a evolução de toda música pós-segunda metade do século passado.

Entre seus contemporâneos mais sagazes podemos enquadrar, numa boa, Frank Ocean, SBTRKT e Beyoncé. Todos com suas discrepâncias artísticas, talvez em diferentes prateleiras de discos, mas com a tag do R&B sinalizada em algum canto qualquer do encarte.

A mais nova artista a transfigurar esta cena com relativo destaque é FKA twigs. Esta britânica de 26 anos, nascida Tahliah Barnett, deu força a uma vertente que num futuro próximo pode se chamar art-R&B.

Em sua proposta musical encontram-se fragmentos variados: balé, trip-hop, dreampop, eletrônico, indie. E o R&B? Está condensado em sua voz arrastada, depressiva, catedrática.

FKA twigs é mais um fruto da apropriação que a eletrônica tem tomado do R&B. Na verdade, essa é a forma com que os britânicos melhor lidam com o gênero, desde a influente cena de Bristol, com o Massive Attack.

Logo em “Preface” sentimos a espatifada geral de ritmos e melodias, como se um vidro quebrado se reconstituísse aos poucos.

As abstrações do som de FKA twigs têm a ver com movimentação: ela, que é dançarina, canta e manipula sonoridades como se estivesse mexendo em um After Effects da vida real. No hit “Two Weeks”, contrapõe techno e um ambient meteórico que casam perfeitamente com seu tempo de canção, talvez uma de suas técnicas mais admiráveis.

Técnica, por sinal, é o grande termo de LP1. Com o exponencial consumo e uso de iPads e softwares falar de artificialidade pode soar redundante, mas ainda deve pesar na variante musical que se estabelece, especialmente em um gênero como o R&B.

FKA twigs faz uso milimétrico dessa característica tão típica de nosso século, a ponto de querer confundir nossas percepções numa faixa como “Video Girl”, onde questiona se é aquela garota que, antes de formar seu pseudônimo, participou de diversos clipes.

“Video Girl” é daquelas faixas que se confundiriam num repertório da conterrânea Jessie Ware, mas é a canção em que FKA melhor joga com sua persona. Nesta canção, o artificial torna-se arquetípico: sua forma de evocar a canção nos distancia de algo que um dia ela já foi. Repete a todo momento ‘you lie/you lie/you lie’ como se quisesse impor um passado que não passou.

Tal ritmo caleidoscópico, que prevalece no trabalho, se mescla ao emocional. Isso não salva seu mau lado como compositora de faixas como “Lights On” e “Numbers” (tão ruim quanto James Blake), o que comprova que seu sustentáculo está no teor artístico e estranho.

O fator substancial de LP1 exige paciência que poucos estariam dispostos a ter. E é onde entra a técnica.

FKA twigs joga virtualmente com a maioria dos elementos que preponderam no R&B atual. Quebra ritmos, cria maneirismos emocionais que mais estranham que comovem, canta de forma criptografada e agrada a trupe indie com o mistério que promove.

Noutras palavras, LP1 é desconstrução milimétrica. Assim, um disco que deveria ser artístico e possivelmente conceitual resulta-se num álbum chato. Convenhamos: Kelela e Neneh Cherry fazem melhor.

Se existe substância numa “Closer”, que emula uma espécie de afeto robótico, tudo vira fumaça com a dinâmica ininteligível que toma conta. “Two Weeks” tem um conjunto soberbo de sobreposições musicais, inclusive conta como uma letra assimilável, mas de tão enclausurada que é dificilmente obteria a dimensão popular a nível de Beyoncé.

Tudo bem que popular é antítese total do que o FKA twigs faz desde 2012. Mas o distanciamento que ela cria é tão artificial quanto a própria construção do disco e o que deveria soar minimamente interessante não sai da esfera do tecnicamente estranho. E… chato…