
Cindy Blackman – Another Lifetime




Mais conhecida por ter realizado uma turnê com Lenny Kravitz entre os anos 1990 e 2000, há tempos a baterista Cindy Blackman é vista com bons olhos no terreno jazzístico. No alto de seus 50 anos, Cindy é incisiva nas baquetas e tem energia de sobra na execução de seus temas no campo do ‘fusion jazz-rock’ com suas improvisações frenéticas.
Neste ano, Cindy lançou o álbum Another Lifetime que, diferente do que a capa sugere, foge da suavidade. Aliás, muito pelo contrário: o álbum é groove puro, sustentados pelo frenesi instrumental proporcionado pelo seu quarteto: a própria Cindy na bateria, os guitarristas Mike Stern e Fionn O’Lochlainn e o Doug Carn no órgão.
“Vashkar”, um tema de Carla Bley, é uma incursão terapêutica e, por ser a primeira faixa do álbum, já vem com todo o gás, atropelando qualquer estereótipo que ouse limitar a habilidade técnica de Cindy. Aliás, a canção tem um ritmo progressivo e passa por mudanças rítmicas de forma estupenda, inteligentemente intercaladas pelos instrumentistas.
Em Another Lifetime, é possível ver o flerte da baterista com o rock, revitalizando um ritmo musical que ganhou popularidade no final da década de 1960 após a legendária formação da big band de Miles Davis, que culminou em álbuns históricos como Bitches Brew e o fabuloso live jazz de Agartha. Nascia o chamado Fusion. E quem colheu seus frutos foi o guitarrista John McLaughlin, que formou a Mahavishnu Orchestra em 1971 e trouxe grande virtuosismo ao gênero com sua banda repleta de gênios.
Se por um lado McLaughlin foi o responsável por disseminar o fusion, o grande epicentro dessa criação foi o baterista Tony Williams. E ele é o homenageado deste trabalho de Cindy. Citado por Miles Davis – com quem Williams tocou em uma das melhores bandas do trompetista – como “a peça principal que o grupo girava em torno”, o lendário baterista é a referência-mor de Cindy quando o assunto é criatividade musical. “Tony era, na minha opinião, não só o baterista como um dos mais inovadores músicos que já pintaram por este planeta”, afirmou Cindy para o site Okay Player.
O título Another Lifetime é uma clara referência à banda pioneira do baterista homenageado, o The Tony Williams Lifetime. E, por mais que pareça saudosismo, o álbum é absolutamente pessoal. Deixa explícita a ‘liberdade’ que a artista sempre procura em ritmos que permitem a improvisação como o jazz, sem deixar de lado sua assertividade roqueira. Nessa missão intimista, Cindy conta com as participações mais que bem-vindas do saxofonista Joe Lovano (considerado o”cara do ano” do jazz pela Downbeat Magazine), o guitarrista Vernon Reid (Living Colour), a pianista e jazz-singer Patrice Rushen, além dos baixistas David Santos e Benny Reitveld.
O álbum tem a proposta de um live em estúdio e remete muito bem ao estilo John Coltrane de se fazer jazz. Ou seja, da melhor qualidade possível.
Cindy Blackman: “Vashkar”
Para quem ainda não bota fé no virtuosismo da baterista, confira este vídeo:
