Gravadora: Natura Musical
Data de Lançamento: 4 de setembro de 2015

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TransmutAção não é cantarolável como o ótimo antecessor Sintoniza Lá (2012) – mas, por outro lado, recarrega o funk e o swing. Há menos energia despendida nas notas de guitarra e trompete, mas a impressão é que elas parecem surtir mais efeito.

Primeiramente pensado como um disco instrumental, BNegão & Seletores de Frequência mudaram os planos quando receberam aprovação da Natura Musical para patrocínio: então, reelaboraram as canções, agora com letras, numa unidade musicalmente mais abrasileirada – mas não da forma como muitos teorizariam.

O que mais surpreende é que TransmutAção não soa readaptado a um tipo de público. Marca, por outro lado, uma transição.

Por mais reflexivo, estranho ou musicalmente denso que TransmutAção seja, é notável constatar que as mensagens são transmitidas com mais eficácia

Despretensiosamente analítico, BNegão traça com naturalidade o perfil do jovem contemporâneo, em “Mundo Tela” (‘Os mano pira e as mina pira/Mas não se viram muito bem/Na vida que tem fora dela‘), depois de estabelecer a conexão com o disco anterior na pop, mas sem tanto fôlego, “No Momento (100%)”. Ele não mente quando diz instituir a procura de algo diferente. Faz parte da ‘revolução real‘ que ele propaga.

O funk em TransmutAção recebe um tratamento mais lapidado. Se por um lado ele não é tão cheio de ginga, como no sucesso de “Essa é Pra Tocar no Baile”, por outro exibe uma desenvoltura criativa mais maturada. É o caso da instrumental “Surfin’ Astatke”, em que a mixagem de Mário Caldato Jr. e o fervor da percussão conectam oriente e ocidente com a pretensão de meros rapazes latino-americanos. Segundo a banda, esta faixa já estava pronta e era destinada ao disco instrumental, antes da aprovação da Natura.

É dada, então, a légua que atinge boa distância na curta “Um Tema para Iemanjá”. Eles navegam fundo, e emergem em “Giratória (Sua Direção)”, com despojo de um George Clinton arrematado pela música candomblé. De cosmic-funk, a canção vira um batidão que acompanha a intensidade proposta. E segue, escapista como a convicção de um indeciso que esconde suas qualidades. As percussões onipresentes e o trompete esticado sonorizam uma das melhores faixas do disco: ‘Como um ratinho vimoso na gaiola giratória/Você faz esse mundo girar/Veste a camisa, defende e vai pra briga/Vai, sua energia/Mas não para pra pensar‘.

Mas, como BNegão canta lá em “No Momento (100%)”, indecisão não é bem a sua praia. Transitando por energias diferentes, coopta o ouvinte para a gafieira em “No Amanhecer” e flerta com as raízes do samba em “Fita Amarela”, composição de Noel Rosa que ganha bruta potência instrumental.

Nem o fã mais devotado de BNegão acreditaria que o carioca fosse chegar tão longe em TransmutAção. Diversidade musical já é uma prerrogativa a se esperar de alguém que estreou com Enxugando Gelo (2003). Em “No Ar”, ele cita ‘passado, futuro e presente‘ com linhas cruzadas dos metais de Pedro Selector, que cortam como o mais afiado dos facões. A despeito da virulência, essa conexão atemporal faz todo o sentido para a obra de BNegão. Em TransmutAção, assim como em Sintoniza Lá e Enxugando Gelo, não há linha divisória de tempo entre os gêneros com que trabalha.

Por mais reflexivo, estranho ou musicalmente denso que TransmutAção seja, é notável constatar que as mensagens são transmitidas com mais eficácia. O slow-funk em “Mundo Tela” é apropriado para prestar atenção na crítica sagaz à nossa dependência tecnológica; “Nóis (Ponto de Mutação)” se apoia num som percussivo futurista, enquanto o vocalista cita influências e personalidades-chave de seu repertório intelectual, como Darcy Ribeiro e Matheus Aleluia. Muitos nomes são citados, e isso cansa o ouvinte. O agradecimento, porém, honra o interlocutor, que conseguiu adequar sua sonoridade à passagem do tempo.