Gravadora: Downtown Records
Data de Lançamento: 1º de outubro de 2015

Assim como How to Dress Well, o Autre Ne Veut se esconde num pano de fundo artístico que, conceitualmente, reflete as emoções reais. De amores, situações, sentimentos, receios, tragédias. É assim que os novos músicos têm encarado a soul-music.

Por que Oneohtrix Point Never e Hudson Mohawke não teriam correlação com D’Angelo e Frank Ocean? Ora, estes quatro nomes são tão bem encapsulados em Age of Transparency, que muito provavelmente já dá pra antever musicalmente o que possa ser extraído. Eis, então, o grande trunfo de Arthur Ashin: seu soul espertamente emoldurado faz com que contrabaixo jazzístico, post-rock e saturações eletrônicas se reduzam a meros transmissores de uma carga emocional impávida e nada previsível.

Se por um lado Autre Ne Veut tinha de tudo para se beneficiar da dependência das produções, que fique bem claro: Age of Transparency não é bem o que você esteja pensando

O dark-ambient que inicia a faixa-título descamba para um pop que o The Weeknd tragicamente tem se afastado cada vez mais. Nela, violinos se casam com batidas eletrônicas. Parece descabido, mas tem tudo a ver, pois, tirando a trincheira histórica que separa a música clássica da música digitalizada, de fato essa sonoridade emula um desejo irreparável de ter a pessoa que se gosta de volta.

A criatividade da produção de Age of Transparency realça a virtude do Autre Ne Veut enquanto cena, mas deixa o espectador ‘viciado’ em resoluções musicais fora de sua caixinha, testada inúmeras vezes ao avançar do disco.

É por isso que a secura de “Never Wanted” soa indesejável por um momento – até que a inserção de batidas techno surjam, um contraponto benquisto por conta da linguagem adotada por Ashin desde o primeiro segundo de Age of Transparency. A leveza do contrabaixo é impactante, mas sua perpetuação, ainda em “Never Wanted”, cansa.

Algo semelhante acontece com o persistente monocromatismo de “Over Now”. Antes que um noisy vulcânico assombre a canção, com ares de beleza, é fácil enganar-se de que as coisas estão acabando ali, naquele momento. Usar o caos, representado pelo barulho, como simbologia, é louvável. Ainda assim, soa como artifício, algo meticulosamente arquitetado. (Na soul-music, esse é um pecado longe de ser perdoado.)

O empirismo pode estar cada vez mais afastado da soul-music, e, se por um lado Autre Ne Veut tinha de tudo para se beneficiar da dependência das produções, que fique bem claro: Age of Transparency não é bem o que você esteja pensando.

Não é comum de cantores do gênero extrapolarem suas cordas vocais ao transpor o âmago de suas emoções? Pois, para o Autre Ne Veut também. Quanto a isso, seus arroubos estéticos são aliados importantíssimos: “Switch Hitter” é dotada de uma sincronia pop com reverbs e synths explosivos de invejar Kanye West; em “Panic Room”, o desespero vocal alia-se a uma sonoridade exploratória, que num minuto lembra Goblin, noutro Arca, e ainda em outro, um lamento gospel que Janet Jackson certamente utilizaria num disco dos anos 1990.

Mesmo que transfigurado, o gospel é sintomático em Age of Transparency. Quando Ashin deixa que a espiritualidade do gênero dome sua obra, é quando estamos diante do que o Autre Ne Veut pode oferecer de melhor. Por isso mesmo, quando “Over Now” deixar de tocar, entregue-se ao multiestilismo de “Get Out”. Épica do começo ao fim, ela absorve o pop pausado de discos como Beyoncé (2013) e o transcende a um R&B eclesiástico. Redenção ou presente divino, não deixa de atestar: se esse é o futuro do R&B ou do pop – ou algo que o valha – o Autre Ne Veut sabe muito bem que caminho seguir.