Gravadora: Blue Note
Data de Lançamento: 11 de março de 2014
Eis o eterno paradigma do jazz: mostrar que o gênero não depende somente de virtuoses.
Mais de um século após suas profusões, esse pré-requisito artístico passou de algo ‘espetacular’ para mera ‘necessidade’. Isso acontece, pelo menos, de umas duas décadas pra cá.
Nesse quesito, a atual produção europeia tem sido mais bem-sucedida, uma vez que o jazz e suas conexões têm maior respaldo em países como a Dinamarca (Atomic) e Noruega (Elephant 9), já que a terra dos ianques tem dado atenção demais à produção pop. Fora um ou outro em atividade, o jazz deixou a luz perder a força e ir se apagando aos poucos por ali.
Quando Ambrose Akinmusire surgiu nesse contexto, o questionamento era se estávamos diante de um próximo Wynton Marsalis ou Dizzy Gillespie. Entende-se: com a dificuldade de encontrar inovação no gênero, passou-se a observar mais a técnica do que um conjunto estético de fatores que fazem determinado músico chegar a determinado som. Será que um jazzista só merece lugar na história se confrontar ou equiparar-se aos clássicos?
When the Heart Emerges Glistening (2011) era meio que uma fugacidade dessa pergunta. Os improváveis encontros e desencontros de notas no trompete de Akinmusire beiravam em muitos momentos o status de formidável, mas para cada desenvolvimento temático havia uma ruptura questionadora. Akinmusire não queria comparações e respondeu com um disco em que a técnica ofereceu caminhos alternativos a quem prefere exaltar a magnificência de melodias e solos que o conjunto da obra.
Com The Imagined Savior is Far Easier to Paint, a resposta à comparação com os ícones é mais pragmática. Não, Ambrose não quer competir com Gillespie e Marsalis; quer, sim, tangenciar outras arestas jazzísticas com o mínimo de comprometimento com o passado.
Para chegar a isso, o trompetista tirou os holofotes de seu instrumento e criou uma atmosfera repaginada em que dialoga com soul music, folk, música clássica.
Toda e qualquer linha musical parece ser rompida pelo trompete de Akinmusire, que passa como voyeur em “Our Basement (Ed)”, com belos vocais de Becca Stevens e o piano de Sam Harris numa linha claramente orquestrada europeia. Clima total Joanna Newsom.
Partindo para outros terrenos com a mesma visão distanciada de seu instrumento, Akimusire ‘visita’ David Sylvian e ‘leva’ Joni Mitchell como inspiração em “Asian (Joam)”, passeia pelos tempos áureos dos anos 1950 com “Ceaseless Inexhaustible Child” e deixa a guitarra do novo membro de seu grupo, Charles Altura, fazer o jus do sobrenome em “Vartha”.
Muito além do brilho, o próprio surgimento do trompete nas faixas de The Imagined Saviour… é ainda mais bem calculado que nos dois discos anteriores. A impressão é que Akinmusire nos coloca como testemunhos numa espiral aventureira. Diferente de sua também excelente contemporânea Matana Roberts (dona de Coin Coin Chapter 2, um dos melhores álbuns de 2013), que busca a própria ancestralidade com um rigor antropológico que transcende a técnica, Akinmusire permite que as vertentes musicais observadas a fundo se expressem por si mesmas.
Cada interferência de seu trompete flui como pontos marcados de sua própria assimilação estética. É como se Akinmusire pegasse um livro de toda a história mundial da música e inserisse suas próprias assimilações. Elas podem ser impressionantes e poderosas como em “Bubbles” e “Inflatedbyspinning”, emocionantes como “The Beauty of Dissolving Portraits” e passageiras como em “Rollcall For Those Absent”.
As assinalações são valorizadas e, desta forma, Akinmusire resguarda a preciosidade contemporânea não tão fácil de notar no jazz feito atualmente.
