Durante os anos 1940 o jazz havia pendido para duas vertentes: para uma linha orquestral e meticulosa, onde os grupos de Count Basie, Duke Ellington e Louis Armstrong se destacavam; e para uma linha extremamente virtuosa e ao mesmo tempo marginal, a tal ‘música para músicos’, que culminou na cena bebop.

Miles Davis deu seus primeiros passos artísticos na segunda vertente, mas era esperto o suficiente para não competir com o também trompetista Dizzy Gillespie ou com Charlie Parker, chegando a integrar a banda do saxofonista.

Habilidoso no trompete Miles Davis era, mas sua genialidade como músico não estava na intenção de atingir notas rápidas do instrumento.

Antes de chegar a Kind of Blue (1959), o disco que todos sabem que é revolucionário, mas não sabe direito o motivo, o jazzista movimentou-se, movimentou-se e movimentou-se de um modo particular, assimilando influências que iam de Ahmad Jamal (mais novo que ele) a Frank Sinatra.

Para ter uma ideia de como o trompetista chegou à (uma de suas) obra(s)-prima(s), a Sony Legacy relançou em novembro do ano passado um box set de seus primeiros discos com a gravadora Columbia. São 9 CDs que estabeleceram a transição do cool jazz, passando por seu aperfeiçoamento no trompete, o início da parceria com o maestro Gil Evans, seus experimentos com trilha sonora até a consolidação do modal jazz, que teve seu ápice em Kind of Blue.

Todos os discos foram relançados em Mono, aproximando-se com grande fidelidade ao som que os músicos, produtores e engenheiros queriam chegar naquela época (importante frisar que ainda não se tinha à disposição os métodos de gravação em dois canais).

Groovin’ Cast Especial: Miles Davis Mono (1957-61) by Na Mira Do Groove on Mixcloud

Do virtuosismo à liberdade de improviso
Pouco antes de chegar à Columbia, em 1955, Miles Davis esteve envolvido com uso de heroína. Além de todos os efeitos relativos à droga, o músico sentiu que sua proeminência no trompete estava diminuindo. Ainda na casa dos 20, ele sabia que deveria aproveitar sua juventude para explorar as notas mais difíceis que poderia. Essa era uma pressão normal para a época, pois a cena bebop, tão admirada pelos aficionados, tinha como prerrogativa o virtuosismo técnico.

O contrato com a Columbia foi estabelecido enquanto Miles ainda estava com a Prestige. Ou seja, antes de abandonar de vez os estúdios que lhe concederam a oportunidade de gravar um disco notável como Blue Moods (1955) e formar o seu primeiro grande quinteto com John Coltrane (sax tenor), Red Garland (piano), Paul Chambers (contrabaixo) e Philly Joe Jones (bateria), Miles Davis teve que entregar alguns discos em relativa ligeireza e permitir que a gravadora relançasse seus trabalhos mesmo após um novo contrato. Tendo isso em vista, duas sessões de 1956 foram proveitosas para o posterior lançamento de quatro álbuns sepultar de vez seu compromisso com a Prestige: Cookin’ (1957), Relaxin’ (1958), Workin’ (1959) e Steamin’ (1961), todos com boa aceitação da crítica.

À parte das estratégias da antiga gravadora, Miles Davis estreou com grande estilo com Round About Midnight (1957). Classificado como um dos melhores registros do hard-bop, provou que sua fase obscura de imersão na heroína estava superada. É um álbum lúcido, sentimental e envolvente que reúne versões de standards que vão de Stan Getz (“Dear Old Stockholm”) a Thelonious Monk (faixa-título).

Ainda que seja um disco que o mostra a todo vapor sobre o seu trompete, Round About Midnight não tem muito da personalidade de Miles Davis, algo que seria desenvolvido nos discos posteriores. Entretanto, nos dá dimensão de sua habilidade no instrumento, antes que se criassem questionamentos.

A inovação estética é secundária, mas isso não tira o brilho de uma das melhores formações jazzísticas de todos os tempos. Do swing em “Tadd’s Delight” à intensa carga emocional de “Bye Bye Blackbird”, os ouvintes testemunharam a evolução da musicalidade dos metais de Miles e John Coltrane, que ia conquistando seu espaço aos poucos.

Os primeiros passos para a grande mudança musical do grupo de Miles foram dados em Milestones (1958). As técnicas do hard-bop e o seu swing agressivo estão contidos em takes como “Billy Boy” e “Dr. Jekill”, sustentando a prerrogativa que descreve este trabalho como “álbum seminal que ajudou a dar forma à história do jazz”.

Sobre este disco, vale tentar decifrar o enigma de seu título. Milestones é uma expressão inglesa que designa ponto de controle em um cronograma, por checagem ou por marcos. Também dá nome a uma técnica de projetos que testa a funcionalidade de um produto durante seu desenvolvimento. E, adentrando a esfera musical, Milestones é o nome de uma melodia bebop escrita por John Lewis, gravada em 1947 com crédito de Miles Davis. (Foi Lewis também quem escreveu o petardo “Two Bass Hit”, que integra o disco, em parceria com Dizzy Gillespie.)

Em Milestones, o sax alto de Cannonball Adderley tornou-se o principal suporte das buscas harmônicas do trompetista, estruturando uma sonoridadade blueseira em contraponto aos arroubos de notas do não menos genial John Coltrane

A pretensão de mudar de Miles Davis é acrescida com a chegada de um importante novo membro: Cannonball Adderley, no sax alto. Assim, criou-se um novo elemento sonoro na musicalidade do grupo. Miles reconheceu a influência blueseira de seu saxofone, que pendia tanto para o cool jazz como para o hard-bop (Adderley tocou com Ray Charles nos anos 1940 e manteve seu próprio grupo ao lado do irmão cornetista Nat Adderley). Ou seja, enquanto Coltrane arrancava notas viscerais no tenor, Adderley munia seu sax alto com melodia e sentimentalidade.

Seja colocando suas características musicais dentro do ragtime da faixa-título ou entrando no dinamismo de “Sid’s Ahead”, nas duas únicas composições de Miles Davis em Milestones Cannonball Adderley entendeu que sua contribuição era mais que necessária ao grupo. Ele tornou-se o principal suporte das buscas harmônicas do trompetista, estruturando uma sonoridadade blueseira em contraponto aos arroubos de notas do não menos genial John Coltrane.

Se, por um lado, Milestones indicou os primeiros passos do modal jazz (principalmente nas duas composições de Miles), por outro serviu de despedida para Philly Joe Jones e Red Garland. Parecia algo exasperador ao trompetista: quando pensava ter fixado o melhor grupo possível para suas descobertas musicais, um ou outro decidia seguir carreira solo, abandonar a música ou chafurdar-se nas raízes do bebop, uma vez que Miles estava se afastando cada vez mais dessa vertente.

Mas como ele poderia prever que a saída de músicos tão habilidosos seria o ponto de partida para sua obra-prima inaugural do modal?

Antes de falar dos detalhes de Kind of Blue, é preciso saber qual foi a sua grande revolução. A despeito de seus números impressionantes de vendas (4 milhões de unidades foram comercializadas só nos EUA), Kind of Blue é o disco que representa a ruptura estética do jazz naquele momento. Miles conseguiu definir um novo paradigma com a obra: usou como base partituras em escala ao invés da convencional progressão de acordes e estrutura harmônica. Nessa nova dinâmica, havia uma distinta preferência por intervalos até atingir a quarta nota perfeita (quartal), fazendo uso de uma técnica que estabelecia um lento ritmo harmônico em acordes simples de menor duração e suprimindo a tal progressão de acordes funcionais.

Simplificando a coisa, não havia uma linearidade harmônica e, ao mesmo tempo, nenhuma quebra abrupta de ritmo. Assim, ficava mais fácil improvisar em curtos intervalos de tempo, dando maior liberdade aos músicos do quinteto.

Dois fatos notáveis levaram Miles Davis ao modal:

1) Em 1953, George Russell terminou de escrever um livro que condensava toda a teoria do que seria o modal. Intitulado The Lydian Chromatic Concept of Tonal Organization for Improvisation, o livro despertou interesse no trompetista por apresentar novas técnicas harmônicas para se chegar à improvisação, de forma que em qualquer nota seria possível encaixar a que se queria “sem sacrificar as raízes musicais do blues”, como sintetizou o crítico Ben Ratliff no New York Times. Miles Davis tornou-se grande amigo de Russell e passou a incentivar outros músicos a se adaptarem à teoria (incluindo Eric Dolphy e Lee Konitz).

2) A trajetória musical de Miles Davis passou e se aprofundou por diferentes formas de se fazer jazz. Começou com o ragtime, flertou com a Dixieland, foi fundo no bebop, firmou-se bem no eixo do cool jazz ao hard-bop e obteve outros parâmetros com sua fase orquestral (nas parcerias com Gil Evans, fase que será esmiuçada neste mesmo texto).

Portanto, Kind of Blue representa o eixo perfeito tanto de sua obra musical, como no jazz em um todo. Este álbum sintetizou todos os percalços de Miles Davis até aquele momento e redefiniu a forma de se fazer jazz quando o gênero mais precisava de renovação (é preciso ter em mente que o rock estava galgando grandes audiências naquele momento e ‘tomando’ para si parte significativa da audiência jazzística, enquanto os aficionados de jazz estavam na eterna procura pelo ‘novo Charlie Parker’).

O modo como Miles Davis geriu a obra poderia ter obtido maior respaldo dentro do âmbito fechado do jazz, mas como explicar o fenômeno que o alçou ao disco mais vendido do gênero de todos os tempos?

Aí vale analisar Kind of Blue como uma obra emocional. E você vai entender todo o frisson. Da mais profunda solidão à mais exacerbada boemia, Kind of Blue cria facilmente um senso de identificação com todos os estados de espírito do ser humano. Está solitário e sente a falta daquela pessoa que só te faz bem? Coloque “All Blues” pra rodar. Enfrenta uma situação de difícil resolução, seja financeira ou sexual? Ouça “Flamenco Sketches”. Quer um acompanhamento para a bebida? “Freddie Freeloader”. Precisa de uma trilha para rememorar os melhores momentos da vida, contemplando fotos antigas e brinquedos velhos? Deixe que a implacável linha de baixo de Paul Chambers em “So What” guie o filme de sua própria vida.

Ao perceber o contexto de Kind of Blue supõe-se que uma interferência divina pairou sobre este trabalho. Primeiramente, os músicos envolvidos eram considerados jovens e careciam de maior entrosamento, principalmente após a entrada de Jimmy Cobb (bateria) e Bill Evans (piano). Segundo: como próprio Bill Evans relatou, “Miles concebeu este disco apenas algumas horas antes das datas de gravações e apareceu com rascunhos que indicavam ao grupo o que deveria ser tocado. Dali em diante, você ouve algo próximo à pura espontaneidade daquelas performances”. E, terceiro: havia o risco dessa fórmula dar errado e ter que dar um passo para trás.

(Bill Evans, por sinal, foi um dos integrantes-chave na concepção de Kind of Blue. O pianista era adepto à teoria do modal e foi indicado pelo próprio George Russell.)

Mais de 50 anos depois de seu lançamento, Kind of Blue ainda carrega o peso de ter redefinido o conceito de modernidade no jazz. Se procuravam um ‘substituto’ à altura de Charlie Parker após os anos de incerteza que seguiram sua morte, em 1955, este disco provou que o gênero estava longe de encontrar limites.

Miles Davis se superava e superava as expectativas dos ouvintes de jazz em um álbum que é ainda mais do que tudo aquilo que dizem.

Gil Evans, parceiro de ouro
Um feito como Kind of Blue logicamente não se repetiria da noite para o dia. Miles poderia ter feito o mesmo esquema de gravação com os mesmos músicos e provavelmente atingiria um resultado surpreendente. No entanto, tudo convergiu para o contrário: Adderley quis focar em seu projeto com o irmão, Bill Evans formou o seu próprio trio e John Coltrane aplicou os valiosos ensinamentos em um de seus melhores discos, Giant Steps (1960), que lhe deu o pontapé inicial à prolífica carreira solo.

O peso dessas saídas é sentido como uma bigorna em Someday My Prince Will Come (1961). O disco foi um passo atrás meio que forçado: sem uma porcentagem essencial dos grandes talentos do disco anterior, Miles Davis foi buscar no tema de A Branca de Neve e Os Sete Anões um refrescor para os novos passos. Ele chamou o saxofonista Hank Mobley para dirimir a partida de Adderley e Coltrane, que ainda chega a colaborar na faixa-título e em “Teo”.

Metade do disco é constituída de temas retrabalhados. A outra metade, erigida por Miles Davis, retoma o ponto de partida do modal, mas com perceptíveis reticências: ainda que Wynton Kelly tenha participado de uma faixa de Kind of Blue (“Freddie Freeloader”), ele não era tão versado nesse estilo inovador como Bill Evans; Mobley infelizmente não poderia simular com um tenor o contraponto musical de Adderley-Coltrane; e não sentimos aquele despejo emocional que tanto intensificou a magia do álbum de 1959.

Se pensarmos em Someday My Prince Will Come como uma continuidade do seminal álbum anterior, podemos encará-lo como a materialização do lamento que Miles Davis não quis expressar na fase pós-Kind of Blue.

Mas outras coisas estavam acontecendo. Se não haveria continuidade na exploração do modal, outras arestas surgiriam.

Miles sentiu, mas não desanimou: ele ainda estava envolvido com outros projetos em que queria dar continuidade. E o maior deles era a colaboração com o arranjador e maestro Gil Evans.

O primeiro disco dessa parceria grandiosa se deu cerca de dois anos antes de Kind of Blue. Juntando uma orquestra de 19 músicos, Gil Evans conduziu Miles Ahead (1957) cruzando a tradição do jazz norte-americano com o interesse de Miles pela música europeia. Esse interesse já existia na época do lançamento de Birth of the Cool (1949), quando conheceu Gil.

Naquele período, Miles Ahead significava uma direção oposta dos caminhos artísticos do trompetista. Era como se nada fosse o suficiente. Enquanto burilava um jeito característico que desaguaria no modal, ele aprendeu o rígido processo de estar à frente de uma orquestra. “Miles é um líder no jazz porque tem uma confidência definitiva com aquilo que gosta e não tem medo”, declarou Gil Evans. “Miles tem confidência a seu próprio sabor e segue em sua forma particular”.

Porgy and Bess: “Miles tocou como um possesso e Evans escreveu com a mesma intensidade” (Ian Carr)

As colaborações com Gil Evans o fizeram evoluir em sua dinâmica musical. Decifrar partituras complexas lhe deu expertise para aprimorar sua forma de improvisar em suas obras mais importantes.

Miles Ahead, por si só, destaca-se mais por se tornar um debut de Miles Davis em um terreno que ele pouco conhecia, do que um disco aprimorado. Mas não pense que o trompetista cedeu às imposições. Além de ajudar a orientar os músicos envolvidos, Miles exigiu que o produtor George Avakian retirasse de circulação a capa oficial que mostra uma mulher sofisticada num ambiente fino: “Por que você colocou essa puta branca aí na capa?!?”, chegou a vociferar.

(A partir de então, ficou combinado que a versão oficial da capa de Miles Ahead teria Miles Davis e seu trompete mesmo, como a maioria dos demais registros lançados sob sua autoria.)

Deste importante disco, vale prestar atenção em “Blues For Pablo”. Ela é lenta, mas a vontade de colocar um crescendo serve como registro de que o trompetista estava em seus primeiros testes com orquestrações.

A prova cabal de seu gigantismo como bandleader ao lado de Gil Evans se daria algum tempo depois, com Porgy and Bess (1959).

A gravação foi bem exaustiva, a ponto de Miles Davis o creditar como o “mais difícil disco que fiz em minha carreira”.

A ideia de refazer no estúdio a ópera de autoria de George Gerswhin, Ira Gerswhin e Dubose Heyward partiu de Gil Evans. Algumas interpretações estavam a caminho naquele momento, ainda mais com o interesse de Samuel Goldwyn de lançar o filme deste tema no ano seguinte, mas Evans estava interessado em um projeto jazzístico e sinfônico ao mesmo tempo.

Mostrada pela primeira vez em 1935, a ópera conta a vida da comunidade afroamericana dos anos 1920 na Carolina do Sul (EUA). Seu reconhecimento veio apenas em 1976, momento em que foi reinterpretada na Houston Grand Opera. Por estereotipar os negros, alguns consideraram Porgy and Bess uma obra racista. Mas Miles Davis, que era parcialmente envolvido nos direitos civis dos negros em seu País, via em Porgy and Bess uma boa forma de mostrar ao público que consumia sua música (majoritariamente brancos) a sensibilidade dos negros, que ainda sofriam com a segregação na época.

Obviamente, o disco exigiu maior carga sentimental dos músicos envolvidos. As poucas palavras do biógrafo Ian Carr são definidoras: “Miles tocou como um possesso e Evans escreveu com a mesma intensidade”.

A grande dificuldade estava em conciliar a complexa partitura com um quê de emocional. A faixa “Gone”, por exemplo, inicia com rupturas milimétricas de tempo que devem ter exigido do baterista Philly Joe Jones uma síntese apurada. “Prayer (Oh Doctor Jesus)” exigiu uma paciência avassaladora de Miles para atingir aquelas notas que, apesar de lentas, eram difíceis. Todavia, ele nos entrega um ápice de emoção em sua forma mais estupenda: um ato de fé de que as coisas podem melhorar se acreditarmos.

“Summertime”, a mais conhecida do disco, ganhou um arranjo cool-jazz que já estava imerso na musicalidade própria de Miles. A decisão foi acertada, pois tornou-se a vitrine do disco. Mas, se analisarmos o quesito beleza, o single fica atrás da singeleza de “My Man’s Gone Now”: é tocante como uma balada deve ser, com o acréscimo de que se agiganta aos poucos, transformando a tristeza em um pequeno sorriso. Proposta semelhante tem “I Loves You, Porgy”, momento em que vemos que a técnica de Miles é secundária perante o exímio resultado emocionante de sua música.

Se houve um disco que deu a Miles Davis o primor necessário para se chegar a Kind of Blue, este disco é Porgy and Bess. Foi o teste mais difícil para que ele pudesse se libertar a partir de seus próprios conceitos. Depois daqui, cada direção tomada foi um acerto sem precedentes, tanto o Kind of Blue, por seus motivos inovadores e quase divinos, como pelo sucessor da parceria com Gil Evans, o soberbo Sketches of Spain (1960).

A gravação de Sketches of Spain foi algo acidental. Miles chamou Evans para direcionar partituras a partir da obra Concierto de Aranjuez, e daí despertou o interesse em pesquisar e ouvir músicas tradicionais espanholas, o que justifica o título do álbum.

Kind of Blue deu uma nova sustentação para o jazz a partir daquele momento, mas o peso de seus três discos com Gil Evans tiveram impacto ainda maior na trajetória musical de Miles Davis

O disco mostra Miles bem mais livre e à vontade com o formato de orquestração, mesmo sem conter peças de improviso. A faixa “Concierto de Aranjuez”, que abre o disco, transformou-se em uma peça de 16 minutos como se fosse uma passagem por um lugar desconhecido, a trilha de uma fantasia que balança nossos sentidos. O crescendo dos metais que complementam as notas divagadoras do trompete de Miles Davis chegam a arrepiar.

Apesar do termo ser ligado a um tipo de música litúrgica da Espanha, “Saeta” inicia como uma marcha imponente. Miles permite que seu estilo de tocar trompete adentre no conceito e percebemos como é maravilhosa a sonoridade daquele fliscorne (um trompete de formato mais cônico muito utilizado em alas da infantaria e cavalaria).

Outra contribuição valiosíssima de Gil Evans é a composição “Solea”. Vale usar a emoção para descrevê-la: é o melhor take já feito por Miles e Evans! O trompetista trafega por notas complexas como se elas fossem ondas marítimas passageiras. A orquestra mantém um nível de constante ondulação enquanto Miles as quebra com uma performance arrebatadora, de elevar o nosso estado de espírito.

“Solea”, por si só, valeria todas e quaisquer tentativas musicais feitas por Miles e Gil Evans. Não é por acaso que ela encerra Sketches of Spain. Fica um desejo de quero mais, de testemunhar onde mais essa dupla poderia chegar – algo que infelizmente não aconteceu por conta de outros projetos que tomaram largo tempo tanto de Miles, como Gil Evans.

“Solea” encerra o último disco da dupla no ápice, como todo boxeador ou jogador de futebol desejaria ao entrar no ringue ou em campo pela última vez antes de sua aposentadoria. A diferença é que Miles e Evans deixaram o melhor para o final. Que Porgy and Bess fosse o teste mais difícil; eles passaram e dominaram o desafio, superando seus próprios dotes musicais.

O efeito de Kind of Blue deu uma nova sustentação para o jazz a partir daquele momento, mas o peso de seus três discos com Gil Evans tiveram impacto ainda maior na trajetória musical de Miles Davis. Ele se tornou um bandleader requisitadíssimo, expandiu suas fronteiras dentro do jazz e obteve repertório mais refinado para as muitas experimentações que testaria a seguir. Além disso, Miles e Evans tiraram os já consagrados Louis Armostrong e Duke Ellington no topo da categoria de trompetista e compositor, respectivamente, na seleção dos melhores jazzistas selecionados pela publicação Melody Maker.

Tais fatos só reforçam a assertiva: Porgy and Bess e Sketches of Spain são tão bons que questionam o próprio status de obra-prima unânime que Kind of Blue se tornou.

Raridades a mais no box set
Além de formar uma espécie de eixo de Kind of Blue, este box set traz registros raros, que ainda não foram lançados em CD. Um deles é Jazz Track, compilação de duas diferentes sessões de estúdio em 1958. A primeira parte é composta pela trilha sonora que Miles Davis fez de Ascensor para o Cadafalso, filme de Louis Malle que o iniciou na nouvelle vague.

Mais interessante é a segunda parte de Jazz Track: há registros raros, com “On Green Dolphin Street”, com belo acompanhamento no piano de Bill Evans e uma dinâmica impressionante sustentada pelo sax de John Coltrane. Ali, a influência bebop permanece, por mais que se renegue o estilo. “Fran-Dance” é uma balada pronta para ser tocada no cabaré, enquanto “Stella By Starlight” surge como grande triunfo do disco. A colocação de cada instrumento é louvável, mas são as quebras harmônicas do estilo de cada um que, unidas, formam uma peça valiosa. Encaixaria bem em Kind of Blue.

O título de Miles & Monk engana. Não pense que o trompetista participa de um show conjunto com o ‘monstro’ do piano Thelonious Monk. Suas apresentações foram separadas, mas a contribuição deste registro é válida por ser uma das poucas performances do primeiro grande sexteto de Miles Davis ao vivo. As faixas datam do período próximo ao lançamento de Milestones, com a impressionante performance de “Ah-Leu-Cha” (de Charlie Parker), contrastada pela única composição de Miles neste CD, o cool-jazz de “Fran-Dance”.

A segunda parte do disco é constituída de dois takes da apresentação de Thelonious: “Nutty”, cuja escala dinâmica se assemelha à forma do modal, e a eterna “Blue Monk”, um de seus blues mais notáveis com a participação do clarinetista Pee Wee Russell.

O que liga as fases de Thelonious e Miles em Miles & Monk é a imponência de todos os músicos envolvidos. Ambos estavam em momentos grandiosos de suas respectivas carreiras e habilidades, e o disco só desempenha a função de entrecruzar essas duas lendas.

Carreira genealógica
Por mais que o disco Kind of Blue permaneça como a obra mais notável do trompetista, muitas outras fases foram exploradas por Miles Davis até a sua morte, em 1991. Seu alcance musical foi tão gigantesco, que ele passou a ser escalado para os grandiosos festivais de rock de arena (a partir de sua fase elétrica, com o segundo grande quinteto) e tornou-se um inquieto explorador musical, dialogando com as inovações estéticas que surgiam a partir dos anos 1960, incluindo rock, funk, R&B e até hip hop.

Os que ainda não foram apresentados à obra completa de Miles Davis tendem a achar que os discos em torno de Kind of Blue sintetizaram uma fase estrita ao jazz. Felizmente as barreiras em relação às arestas musicais do trompetista têm se quebrado ao longo do caminho. Portanto, um box set como este serve como prova de que Miles Davis foi, possivelmente, o músico que melhor representou a genealogia do jazz em quase meia década de atividade.

Groovin’ Cast Especial: Miles Davis Mono (1957-61) by Na Mira Do Groove on Mixcloud

Detalhes de todos os lançamentos

’Round About Midnight: 4 de março de 1957 01. ’Round Midnight 02. Ah-Leu-Cha 03. All of You 04. Bye Bye Blackbird 05. Tadd’s Delight

06. Dear Old Stockholm

Miles Ahead: 14 de outubro de 1957 01. Springsville 02. The Maids of Cadiz 03. The Duke 04. My Ship 05. Miles Ahead 06. Blues for Pablo 07. New Rhumba 08. The Meaning of the Blues 09. Lament

10. I Don’t Wanna Be Kissed (By Anyone But You)

Milestones: 1º de dezembro de 1958 01. Dr. Jekyll 02. Sid’s Ahead 03. Two Bass Hit 04. Miles 05. Billy Boy

06. Straight, No Chase

Jazz Track: 19 de outubro de 1959 01. Générique 02. L’assassinat de Carala 03. Sur l’autoroute 04. Julien dans l’ascenseur 05. Florence sur les Champs-Elysées 06. Dîner au motel 07. Evasion de Julien 08. Visite du vigile 09. Au bar du Petit-Bac 10. Chez le photographe du motel 11. On Green Dolphin Street 12. Fran-Dance 13. Stella By Starlight

(Músicas 1-10 são do filme Ascensor para o Cadafalso)

Porgy and Bess: 9 de março de 1959 01. The Buzzard Song 02. Bess You Is My Woman Now 03. Gone 04. Gone, Gone, Gone 05. Summertime 06. Bess, Oh Where’s My Bess 07. Prayer (Oh, Doctor Jesus) 08. Fishermen, Strawberry and Devil Crab 09. My Man’s Gone Now 10. It Ain’t Necessarily So 11. Here Come de Honey Man 12. I Loves You, Porgy

13. There’s a Boat That’s Leaving Soon for New York

Kind Of Blue: 17 de agosto de 1959 01. So What 02. Freddie Freeloader 03. Blue In Green 04. All Blues

05. Flamenco Sketches

Sketches Of Spain: 18 de julho de 1960 01. Concierto de Aranjuez 02. Will o’ the Wisp 03. The Pan Piper 04. Saeta

05. Solea

Someday My Prince Will Come: 11 de dezembro de 1961 01. Someday My Prince Will Come 02. Old Folks 03. Pfrancing 04. Drad-Dog 05. Teo

06. I Thought About You

Miles And Monk At Newport: 11 de maio de 1964 01. Ah-Leu-Cha 02. Straight, No Chaser 03. Fran-Dance 04. Two Bass Hit (faixas 1-4 gravadas por Miles Davis em 4 de julho de 1958) 05. Nutty 06. Blue Monk

(faixas 5-6 gravadas por Thelonious Monk em 4 de julho de 1963)