
BiD em foto ao estilo Instagram de Gil Silva, no Sesc Pompeia
Não é tão fácil assim ser transportado para a atmosfera flutuante do ragga nervoso do som do BiD, que mostrou ontem no Sesc Pinheiros (São Paulo) todo o peso do som jamaicano entrelaçado às referências africanas da música brasileira de Bambas Dois, disco lançado no final do ano passado.
Ou você se sentia conectado a um ritual quase xamanístico que te deixa conectado a Kingston, ou você não encontraria sentido algum nas jams que uniam ecos vocais à forte pegada percussiva e linha rítmica na guitarra de BiD, o cara responsável por aproximar Brasil e Jamaica numa noite que tinha tudo para se tornar mais um fim de semana antiquado por conta das improváveis ameaças (que se concretizaram) de chuva.
Quem é fã de ragga dos tempos da Toco e da raiz rastafariana do Congo Natty não poderia achar outra coisa: o show de BiD foi catártico. Eu sou um dos que compartilham dessa visão. Por mais que Bambas Dois não tenha mais que seis meses de vida desde seu lançamento, parece que canções como “Music For All” e “Chiquinha Hey” habitavam meu imaginário em um mesmo local do cérebro que me deixa extasiado quando ouço “Ting-A-Ling”, do Shabba Ranks, ou “Original Ses (Police in Helicopter)”, do Top Cat.
O show estava repleto de participações especiais: estava lá Anelis Assumpção, Karina Buhr e os jamaicanos Luciano e Jesse Royal, que cativaram com sua presença de palco. Só que o mais surpreendente dos featurings foi a presença de Priest Tiger que, por mais que poucos tivessem conhecimento, parecia representar a figura paternalista de um mestre do reggae/ragga/dancehall. Abriu o show mostrando seus vocais que a idade não conseguiu debilitar com “Something is Wrong”, um hino de devoção a Haile Selassie.
Os grandes momentos de apresentação do disco surgiram com “Only Jah Love (Raggatu)”, com uma composição que poucos ousariam acompanhar – mas quase todos arriscariam um passo. Quando Karina Buhr entrou em “Leha Dodi (Sheeba)”, parecíamos contemplar um ritual de candomblé com a voz urrante de Karina levada pelo tempo do dub.
Anelis também causou impacto ao cantar, mas o que ficou na memória mesmo foi sua versão para “No, No, No”, clássico de Dawn Penn que rasga corações nas pistas. A plateia curtiu tanto, que ela cantou novamente perto do encerramento do show, que durou mais de 2h (houve boatos de que a organização do Sesc até chegou a apagar algumas luzes para acelerar o término da apresentação).
Bob Marley e Peter Tosh, dois dos maiores reis do reggae, não poderiam deixar de ser homenageados: Royal cantou “One Drop”, Anelis cantou “Redemption Song”, tocaram também “Legalize It”, que serviu como reforço para a concentração de fumaça no local…
Nunca a World Music, que na maioria das vezes frustra os ouvintes pela junção inesperada de gêneros diferentes, fez tanto sentido no show do BiD. Entretanto, digo isso com a parcialidade de um fã assíduo do reggae/ragga/dancehall/forró/baião/agreste/jungle, ritmos explorados pelo músico e produtor.
Teve gente que achou viajeira demais, ouvi comentários até de que estava meio pop. Mas BiD não estava para agradar. Ainda bem.
