Um dia antes de seu aniversário, São Paulo estava confusa. Não sabia se chovia ou deixava o sol tomar conta. O trajeto de mais ou menos uma hora da zona sul até o Palco Oeste oficial do evento #SP461 era algo arriscado. A chuva estava forte mas, sabendo do temperamento volátil da cidade, partimos. De dentro do trem, a chuva castigava. Ao aproximar do local, o sol ameaçava surgir. Não demorou para que fosse constatado: sábia decisão ter ido.
No dia 24 de janeiro, no mencionado Palco Oeste, localizado no Largo da Batata (hoje reformado, graças às obras da Linha 4 – Amarela do metrô e por um projeto de urbanização que teve início nos últimos meses de gestão Kassab), estavam marcados os shows para Fanta Konatê (14h), Ilú Oba de Mim (15h30), Negro Léo (16h30), Patife Band (18h), Alice Caymmi (19h30) e Dona Onete (21h15).
Chegamos por volta das 16h, e vimos que houve uma confusão nos horários, pois ainda nem havia começado a apresentação do Ilú Oba de Mim. Decidimos sair pra almoçar e, ao retornar, por volta das 17h, a apresentação montada no minipalco localizado na outra extremidade aglomerava uma pequena multidão.
O objetivo era claro: apenas queríamos ver o show do Negro Léo, que no ano passado lançou Ilhas de Calor, considerado o melhor disco nacional pelo Na Mira em 2014; e o do Patife Band, dono de um dos maiores clássicos do rock nacional: Corredor Polonês (1987).
Pelo palco percebia que as coisas deveriam se apressar. Para trazer o público ao palco principal, o Ilú Oba de Mim puxou a saída no meio da galera, ainda sob ritmo de dança afrobrasileira, como eles fazem muito bem. Alguns minutos depois e entrou Negro Léo, já incendiando com “O Voluntário da Colônia de Marte” e a intermitente repetição ‘não voltou pra casa‘ ao som de um wurlitzer monocórdico e pedais à pura exaustão.
A reação geral foi mais de catarse que estranhamento. Pesou a favor da banda o alto volume das caixas de som, o que potencializa ainda mais a proposta do grupo.
Negro Léo surgiu como mensageiro de um além, como se o calor que toma conta deste verão 2015 se materializasse num corpo musical. Em alguns momentos, ele amedronta, principalmente quando entoa suas composições mais enigmáticas, como “Underground Impossible Hit” – que traz o trecho ‘os usuários fumam maconha‘, o termo ideal para que os primeiros baseados fossem acendidos pela plateia.
O grande aspecto positivo dessa apresentação é perceber que Negro Léo não ofereceu nenhuma folga ou concessão ao público. Numa primeira audição, Ilhas de Calor pode até aglutinar termos como ‘difícil’ e ‘experimental’, mas ali, diante do público, as fritadas calculadas das guitarras de Eduardo Manso, o baixo que não escondia a essência funky de Felipe Zenícola e o wurlitzer dodecafônico do vocalista formaram o arsenal perfeito para as estrondosas viradas na bateria de Thomas Harres. Ou seja, por mais desconhecida que fosse a execução, ela é típica de uma anarquia associável ao rock’n roll. Um rock de maior proximidade com o free-jazz, obviamente, pois não há espaços para que cada membro tenha o momento de seu solo. O incêndio é coletivo a todo momento, mas de uma forma criptografada. A partir de composições como “Desencantamento Tóxico” ou “Nostalgia do Crack” percebemos que os flagelos do mundo, perceptíveis a qualquer cidadão comum, são suficientemente necessários para justificar o torpor e o caos executado por Negro Léo.
De acordo com o próprio vocalista, o show durou mais do que devia. Eles deveriam tocar apenas 40 minutos, mas por conta da boa (e surpreendente) aceitação do público, foi a 50 minutos. Terminou com a mais agressiva, niilista e controversa faixa do disco: nada menos que “Xereca Satânica” e seu nasty-fuzz, pra deixar o público ainda mais amalucado.
Demorou apenas o tempo de troca de instrumentos, e logo surgiu a Patife Band. Escondidinho, lá atrás, estava Paulo Barnabé, o vocalista das icônicas faixas de Corredor Polonês, até então único repertório factível para quem ovaciona a banda há mais de 25 anos.
Ele iniciou tocando bateria, deixando Paulo Mello esperando na lateral do palco. À frente, Matheus Leston, que comandava os sintetizadores, fazia às vezes de vocalista, urrando sons ininteligíveis, como se a banda tivesse realizando uma lavagem antes de dar início aos trabalhos. Esse período durou mais de 10 minutos, fazendo com que parte do público questionasse: realmente vai rolar o Corredor Polonês mesmo? (De qualquer forma, a cada execução, a banda era aplaudida.)
Sai, então, Barnabé da bateria. Ele fala baixo ao microfone, algo que se prova uma contrapartida quando o vemos cantar de forma faraônica, grotescamente atrativa. Também, ninguém estava ali para entender nada. Queria ouvir “Corredor Polonês”, “Poema em Linha Reta”.
Como era de se esperar, haveria de ter alguma surpresa nos arranjos. Afinal, a banda não é a mesma dos anos 1980. No entanto, no fator execução, o guitarrista Emerson Villani e Matheus foram corretos. E, tratando-se de Patife Band, correto não é um termo elogioso. Por isso a importância de Barnabé como líder nos palcos. Seus urros continuam vigorosos, como se sua ausência dos palcos servisse apenas para preservar seu talento.
O público pirou a cabeça nos hits “Tô Tenso” e a divertida “Pregador Maldito” que, apesar de mais curta que o comum, despertou muitos e muitos sorrisos naquela noite que acabava de se iniciar.
Mas o público queria mesmo ouvir a conhecida transfiguração que a Patife Band fez para “Vida de Operário”, dos malucos Excomungados. Na versão do disco Corredor Polonês, a banda jogou um acordeom sertanejo numa entoação bem caipira. A cada intervalo da segunda metade do show os pedidos não cessavam. Paralelamente, nesse tempo, crescia o gosto pela performance do saxofonista e trombonista Richard Fermino, que dava outra conotação aos clássicos do álbum.
Finda a apresentação, e a banda sai. O público grita mais alto: ‘Vida de operário!’, ‘vida de operário!’, ‘vida de operário!’. A Patife Band cede e volta aos palcos, mas para tocar novamente “Tô Tenso”, numa linha mais urgente. O pogo retomou e alguns reclamaram da banda não ter cedido – algo que os ouvintes mais afeitos já estavam acostumados.
O próximo show foi de Alice Caymmi, que apresentou o disco Rainha dos Raios (2014), destacado por alguns sites como um dos melhores discos de 2014. Preferimos sair e beber cerveja. Deve ter sido um bom show. Até assistiria ao show de Dona Onete, porque queria ver como funcionaria em uma cidade desajeitada como São Paulo toda a animação de Feitiço Caboclo (um dos melhores discos de 2013). Esse show, sim, deve ter sido melhor que o de Alice.
