É muito mais fácil você ter ouvido falar de Naná Vasconcelos do que ter ouvido suas músicas. Isso é comum com brasileiros internacionalmente prestigiados; o fato de sua obra ser reservada em nosso alto panteão cultural não instiga ninguém a chegar lá, nem que seja por mera curiosidade, para absorver sua contribuição. Ah, e que contribuição!

Naná Vasconcelos começou tocando maracas e bongô com o pai, influenciado por jazz, gafieira e música caribenha. Ouvindo Duke Ellington, Dizzy Gillespie e Count Basie, quis aprender a tocar bateria e tornou-se um dos melhores de Recife.

G. Álbuns: Milton Nascimento | Milton (Raça) (1976)

Em 1967, ficou fascinado com a música de Milton Nascimento e foi procurá-lo, numa época em que a figura do percussionista não era valorizada num grupo. Para integrar-se à efervescência cultural de Rio-São Paulo naquela época foi rapidinho: tocou percussão em “Ando Meio Desligado”, d’Os Mutantes, e participou de álbuns de Jards Macalé, Equipe Mercado e Gal Costa – além, claro, de Milton, que não desperdiçaria um talento desses.

“A música de Milton não era bossa, não era samba. Em vez de fazer o ritmo, comecei a improvisar, imaginar uma paisagem para aquela música, criar sons para ilustrar as letras das músicas”, chegou a dizer, em entrevista à Modern Drummer.

Heitor Villa-Lobos e Jimi Hendrix também foram grandes referências – o que o motivou a explorar o berimbau, instrumento que o acompanhou até seus últimos dias de vida.

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Em 1970, foi convidado a fazer uma turnê com o saxofonista argentino Gato Barbieri pelos Estados Unidos e Europa. Ao conhecer o estrangeiro, decidiu que era hora de sair do Brasil. Anos depois, em 1973, morando em Paris, gravou o primeiro disco solo, Áfricadeus. No mesmo ano, veio Amazonas.

Ao longo da carreira, o percussionista pernambucano tocou com músicos altamente gabaritados: gravou Bush Dance com Arto Lindsay, em 1986; participou do importantíssimo Organic Music Society (1972), do trompetista Don Cherry, que instituiu o world-jazz – inclusive, ao lado de Cherry, montou o trio Codona, completado pelo citarista Collin Walcott.

Um dos discos mais celebrados de sua carreira foi gravado ao lado do virtuoso violonista Egberto Gismonti: Dança das Cabeças (1977), responsável por unir as possibilidades da ‘música naturalista’ e a complexidade de acordes e batuques dos dois músicos.

Ainda este ano o músico continuou ‘abrindo’ os carnavais de Recife. Tive o privilégio de assistir uma dessas aberturas, em 2013, quando uma legião de batuqueiros colocou o Marco Zero pra ferver. A experiência foi bem intensa – afinal, a intensidade é um dos caminhos para se descobrir Naná.

Confira, a seguir, uma playlist especial dedicada ao ‘maior percussionista do mundo’, que já faturou 8 Grammys. Descanse em paz, mestre!

Tracklist:

Naná Vasconcelos: “Dinha Ô” (Amazonas, 1973)
Codona: “Que Faser” (Codona 2, 1981)
Naná Vasconcelos: “Nanatronics” (Nanatronics, 1985)
Egberto Gismonti & Naná Vasconcelos: “Dança das Cabeças” (Dança das Cabeças, 1977)
Naná Vasconcelos & The Bushdancers: “Rain Dance” (Rain Dance, 1989)
Naná Vasconcelos: “Zumbi” (Zumbi, 1983)
Itamar Assumpção & Naná Vasconcelos: “Itamar” (Isso Vai Dar Repercussão, 2004)
Naná Vasconcelos: “Toshiro” (Áfricadeus, 1973)