Gravadora: Scubidu Records/Selo Sesc
Data de Lançamento: 28 de julho de 2017
Disco da Semana: Hermeto Pascoal & Banda, No Mundo dos Sons
Dizem que nós, brasileiros, somos bons de farra, mas nenhum de nossos compatriotas faz isso tão bem quanto o alagoano Hermeto Pascoal.
Mais de 12 anos sem lançar um disco com a sua banda, No Mundo dos Sons celebra tudo quanto é tipo de músico, de distintas escolas musicais.
Algumas mudanças foram inevitáveis: Ajurinã entrou no lugar do baterista Márcio Bahia e Jota P substitui Vinícius Dorin no saxofone, que morreu no começo de 2016, além da inclusão de Fabio, filho de Hermeto, na percussão.
Completa o grupo o experiente baixista Itiberê Zwarg (parceiro do grupo de Hermeto desde 1977) e o pianista André Marques.
Homenagens aos mestres
Em “Vinicius Dorin em Búzios” ele homenageia o parceiro com um bossa-jazz cristalino em que prepondera a melodia do sax-soprano de Jota P.
Os jazzistas Thad Jones e Miles Davis, com quem Hermeto tocou em sua carreira, também são relembrados: o primeiro pelo arrojo de big-bands histriônicas dos anos 1970, uma era em que o jazz se compactava com os combos do fusion. Como Hermeto entende e muito bem de fusion, fez questão de homenagear seu criador em “Para Miles Davis”. Nela, percebe-se um tipo de conexão espiritual que os dois tiveram lá em 1971, com o disco Live-Evil.
O tango argentino é apimentado com cuban-jazz em “Viva Piazzolla!” e, para quem sentia falta da música regional brasileira na obra de Hermeto, tem muito com o que dançar em “Forró da Gota para Sivuca”, dedicado a um dos poucos mestres nesse mundão que podem se comparar à versatilidade de Hermeto.

Brasil fervor novo
Entre notas que fervem do piano, de um contrabaixo acelerado e riffs e solos de acordeom e saxofones, Hermeto encontra um jeito de ressaltar a intensidade dos elementos da música brasileira.
O melhor é que ele chega a ótimos resultados da forma mais imprevisível que se possa imaginar.
Em “Para Tom Jobim”, por exemplo, nada de amenidades: ele traz o naturalismo sonoro da era Matita Perê (1973), com sons de bicho ao fundo, e vai colocando entrecortes ágeis que simulam o passeio pela riqueza da cultura brasileira. Tem bossa sim, mas só depois de muito samba, baião, jongo, hard-bop…
“Viva Edu Lobo!” é outra em que Hermeto foge de qualquer tipo de associação estética ao compositor homenageado. Primeiro o tema começa com ênfase nos graves e se entrega completamente a um ritmo que pende entre o frevo e o típico som festivo do tropicalismo (do qual Edu era uma espécie de contraventor no auge da era dos festivais, até expandir mais seus horizontes musicais com o passar dos anos). Por fim, prepondera o som de cordas intrincadas de teclados e clavinet, criando uma coesão que serve como paralelo da obra de Edu como um todo.
Ser festivo é ser heterogêneo
Como tantas riquezas, expressões e artistas se dialogam com tanta proeminência? É exatamente aí que reside a genialidade de Hermeto Pascoal.
Improvisador talentoso, o alagoano centrou um disco inteiro em um diálogo de modo festivo. Dentro da variação de ritmos dançantes, há espaço para apitos, sons de porco, urros e quebras de tempo musicais (para tanto, vide “Um Abraço, Chick Corea” ou “Carlos Malta Tupizando”, onde sons indígenas vão de encontro a um poço cheio de groove).
Na linguagem de Hermeto, festividade vai muito além de alegria. Tem a ver com celebração da mistura, heterogeneidade, riqueza e variação em que as diferenças se misturam.
A única homogeneidade de tudo isso é a expressão do próprio Hermeto que, aos 81 anos, permanece como símbolo-mor de multiculturalismo na nossa música.
Leia também: 40 anos de um dos maiores clássicos de Hermeto: Slaves Mass
Outros lançamentos relevantes:
• Otto: Ottomatopeia (Press Pass)
• Arcade Fire: Everything Now (Merge)
• Manchester Orchestra: A Black Mile to the Surface (Loma Vista)
• Jillette Johnson: All I Ever See in You Is Me (New Rounder)
