Está agendado para o dia 25 de outubro o lançamento do novo disco do Tom Waits, Bad as Me. Mas o Na Mira do Groove já se antecipou e posta, em primeira mão, um faixa a faixa exclusivo de um dos discos mais esperados de 2011.

Se você já ouviu o single de mesmo nome, “Bad as Me”, provavelmente deve estar com ótimas expectativas sobre o disco. E é por isso mesmo que venho lhes dizer que – rá! – o álbum já agrada bastante logo numa primeira audição. Waits continua fazendo aquelas baladas meio cafajestes, como “Kiss Me”, e ainda exibe vocais guturais que deixariam qualquer frontman de heavy metal boquiaberto – caso de “Hell Broke Luce”.

Confira o faixa a faixa:

1. “Chicago”
Começa com referências country e vai ganhando um agito blueseiro, com as guitarras de Keith Richards e Larry Taylor. O colaborador eterno nas guitarras, Marc Ribot, mais uma vez dá o ar da graça ao ponderar todas essas referências musicais que vêm de instrumentos de corda. Um começo bem vigoroso.

2. “Raised Right Men”
Flea, do RHCP, oferece uma linha contínua de baixo enquanto Tom Waits cai no deleite de sua voz arrastada, tal qual um fracassado que impõe sua filosofia de que não há homens predestinados. A harmônica de Charlie Musselwhite soa como um berimbau elétrico e o órgão coloca algumas acentuações que lembram trilhas cinematográficas, deixando a canção mais insípida – como é de se esperar de Waits.

3. “Talking At the Same Time”
Augie Meyers assume os pianos aqui e cria um clima meio anos 50, daquele período em que Ella Fitzgerald e Billie Holiday dominavam a cena vocal jazzística. O trombone de Ben Jaffe é o complemento necessário para que Waits siga com êxito com sua voz puxando mais para o soprano. Poderia-se dizer que é um revival, não fosse as guitarras faroeste do grande Ribot e de David Hidalgo (Los Lobos).

4. “Get Lost”
É bem urgente: começa com um conflito nos instrumentos de corda, mas logo vai se ajeitando com o refrão de Waits numa polka animada que poderia figurar em qualquer festa. Os riffs são bem ligeiros, sem falar que Ribot arrebenta nos solos blueseiros. Apesar de tudo isso, é uma música limpa, direta ao ponto: doideira pura. Tom Waits, manolo.

5. “Face to the Highway”
Eis que entra a primeira balada de Waits no disco, com letras tão inteligíveis quanto um “Georgia Lee” (Mule Variations). Só que o violino clássico e os pianos pausados dão lugar a um som mais popular, com guitarras, baixo, teclados e percussões. Dawn Harms assume os violinos também, mas eles são apenas um complemento – ainda que se esforcem para ser melancólicos com um tom pendendo para o gospel. É bem intimista e crava bem nos ouvidos: ‘I turn my face to the highwaayy!!’

6. “Pay Me”
Lembra do acordeão que abre “Rain Dogs”? Então, ele aparece novamente, mas só que em uma balada à lá Charles Bukowski, talvez o personagem que mais se assemelhe às pretensões artísticas de Tom Waits. Quem toca acordeão aqui é, novamente, Augie Meyers.

7. “Back in the Crowd”
Completa a tríade de músicas tristes de Waits em Bad as Me. Já vazou antes, mas não custa reforçar que é temperada por um country-blues bem antigueira mesmo. Fala sobre um homem que se achava o único sortudo do mundo por ter a amada; um homem que estava entre o azul (céu) e o cinza (seria asfalto?), e que clama para voltar à multidão caso ela não o aceite. Ele quer as respostas, e irá resignar-se de qualquer forma. A dúvida é que é o grande vilão.

8. “Bad as Me”
Tom Waits mostra muito bem porque é um dos maiores vocalistas em atividade: forja diversas tonalidades vocais, do rapaz que fica exasperado ao se deparar com um niilista que é o mesmo tipo mal, como ele, a uma voz diabólica, falando que as coisas aindam normais com esse personagem assustado – como se fosse um outro ‘eu’ deste cara, um ‘eu-diabólico’. Se você gosta de Tom Waits, não vai cansar de colocar essa canção no repeat. É boa demais! Ele até fala “um, dois, três, quatro!”

9. “Kiss Me”
Apenas ao piano, e com leves ponderações de Marcus Shelby no contrabaixo, Tom Waits inverte todo aquele clichê que ronda ‘cantoras ao piano’, como Adele e Lana Del Rey. Deve ser porque não há nenhuma verve pop, ou nenhum sentimentalismo vendável. Aqui, você realmente se sente nos anos 40.

10. “Satisfied”
Para convidar o baixista Les Claypool (Primus), é porque alguma fuzarca haveria de acontecer. Essa faixa aqui lembra bastante a intrepidez de “Big in Japan”, canção de abertura do clássico Mule Variations. Tem também um pouco de “Earth Die Screaming” (Bone Machine), quebrando um pouco da predominância dos instrumentos de corda, algo evidente em Bad as Me. Clint Maedgen arrebenta nos solos desordeiros de seu saxofone.

11. “Last Leaf”
Um dueto de dois dinossauros da música: por um lado, a voz que continua em forma, mas provoca falsetes propositais, de Tom Waits; do outro, o aventureiro musical Keith Richards do alto de seu violão, ambos tocando um country blues evidenciando o peso da idade de cada um: ‘sou a última folha da árvore’.

12. “Hell Broke Luce”
Trocando o ritmo espanhol por uma dança ininteligível, quase anárquica, esta faixa remete à clássica “Walking Spanish” (Rain Dogs) pelas incursões vocais de Waits: pesadas, quase autoritárias, tal qual um general da música que só faz o exercício rotineiro de se impor. É a canção mais esfuziante de todo o disco – o que não significa que não seja boa. Ah, Richards e Flea tocam aqui mais uma vez.

13. “New Year’s Eve”
‘Continue falando, mas não vamos usar nomes’, diz Tom Waits em mais uma de suas faixas confessionais, como ele costuma fazer ao encerrar os discos. Não fica devendo em nada em relação ao clássico “Hang Down Your Head”, gravado há 26 anos atrás, no quesito ‘vocal impecável’. Maedgen mostra-se singelo no sax tenor, enquanto o acordeão, mais uma vez, põe a melancolia na mesa.