Gravadora: Ropeadope
Data de Lançamento: 18 de setembro de 2015

É difícil traduzir o termo Stretch Music. A acepção tem a ver com ‘expansão musical’, som que se estende e ultrapassa limites. Mas, onde isso deve chegar quando se fala em termos artísticos?

Apesar de dar título ao seu disco mais recente, Christian Scott explicou o que realmente significa este termo há três anos, quando lançava o álbum duplo Christian aTunde Adjuah (2012), que marcava sua mudança de nome. Eis o que significa o termo ‘stretch music’, segundo o trompetista disse ao Village Voice:

“Se você olhar para o jazz da forma que foi criado, 100 anos atrás, foi a primeira fusão musical de todas as culturas. Harmonia e ritmos do oeste africano, então houve a mistura com a Diáspora, e todas essas outras influências. O que fazemos com ‘stretch music’ é essencialmente a mesma ideia; é apenas uma atualização, separada por um século”.

De uma coisa Scott está certo: fusão musical é algo tão antigo no jazz, que colocar isso como novidade soaria herege.

Como, então, isso se dá, em pleno século XXI? Partindo do pressuposto musical de que, em seu novo disco, a abertura musical e estilística é um amálgama.

Nas 11 faixas de Stretch Music, é possível perceber inúmeras ramificações jazzísticas. O trompetista teve o cuidado de erigir uma obra em que a sonoridade – melíflua e vivaz, intensa e serena, africana e europeia – soasse oriunda de uma raiz própria.

Christian Scott mostra que é possível tratar a dinâmica e a diversidade de suas influências, adaptando-se ao que se pode aprender com elas

A unicidade musical de Stretch Music é, de fato, o que justifica a tentativa de propagar o termo como movimento. De tão conjunturais, os temas se incrustam a uma só vertente. Cada movimento, cada detalhe isolado do jazz surge como se pertencesse a algo maior. Noutros termos, Scott é a raiz principal de uma árvore bem frutífera.

Na quentura das percussões do cuban-jazz de “TWIN”, o trompete de Scott esquenta aos poucos, até que se estabiliza em algo que nos lembra o que Dizzy Gillespie nos brindou em Cornucopia (1970).

A percussão pan-africana de Joe Dyson Jr bem poderia ficar presa às referências latinas e africanas, mas a elasticidade sonora a que se envolve ultrapassa barreiras culturais. Em “Liberation Over Gangsterism”, flerta com a calmaria do cool-jazz europeu, adornado por notas da flauta de Elena Pinderhughes, que parecem ressoar de um afluente amazônico.

“Runnin 7s” tem apoio da bateria de Corey Fonville na construção de um solo percussivo ligeiramente impactante (por conta de seus dois minutos). “Tantric”, por outro lado, tem um apoio melódico antagônico: de um lado, o pad de bateria institui quebra rítmica, enquanto o delinear das notas de Scott segue uma linha blues. Onde muitos instrumentistas optariam pela limpeza sonora, Scott deixa que o entrecorte percussivo sirva como apoio, para o encontro de outra conotação rítmica. É assim que ele também transcorre em “Perspectives”, só que com notas mais próximas ao hard-bop.

“West of the West”, já mostrada anteriormente, dá indícios de que a música de Pat Metheny foi bem captada. O guitarrista Cliff Hines se apega mais às distorções que Metheny, o que diminui a necessidade de preencher os espaços com notas. A entrada rascante de Scott determina uma rápida procura rítmica, que ele soluciona com destreza, até dar vazão a notas truncadas que, antes de se apegarem ao virtuosismo, escapam de quaisquer preconcepções estéticas.

Se Stretch Music realmente esconde uma revolução, ela é sutil. Porque, se o intercâmbio musical é uma de suas prerrogativas, o contemporâneo Ambrose Akinmusire foi bem mais além, em The Imagined Saviour is Far Easier to Paint (2014).

Christian Scott, porém, mostra que é possível tratar a dinâmica e a diversidade de suas influências, adaptando-se ao que se pode aprender com elas. Mais que parte de seu estilo como trompetista, o álbum é parte de um termo que possui todas as credenciais para se firmar como novo movimento no jazz, que já se cansou da autorreciclagem.

Outros lançamentos relevantes:

Keith Richards: Crosseyed Heart (Mindless/Republic/Virgin EMI)
Battles: La Di Da Di (Warp)
Fennesz/King Midas Sound: Edition 1 (Ninja Tune)
Salad Boys: Metalmania (Trouble in Mind)
Telekinesis: Ad Infinitum (Merge)