
Em comemoração aos 40 anos de uma das obras-primas do Miles Davis, a Sony Records relançou o álbum Bitches Brew em edição de luxo com um recheio de novidades, como o registro em DVD de alguns de seus inovadores temas tocados em um concerto em Copenhagen, que data de 1969.
Após gravar o aclamado In a Silent Way, buscando uma nova sonoridade para o jazz depois da revolução de Kind Of Blue, o trompetista reuniu alguns músicos que na época eram meio inexperientes e chamou-os para fazer uma sessão na Columbia Records. Eles estavam meio perdidos, não sabiam direito o que o renomado jazzista pretendia buscar.
Com algumas instruções de tempo e melodias preparadas, o compositor criou um ambiente de improvisação para buscar aquela aura do rock’n roll que estava muito em alta, principalmente após o Woodstock. (Reza a lenda que Miles Davis meio que ‘pirou’ quando viu Jimi Hendrix naquele histórico show em agosto de 1969.) Para isso, chamou diversos músicos em três sessões de gravação, dentre eles Joe Zawinul e Chick Corea (pianos elétricos), Wayne Shorter (sax soprano), John McLaughlin (guitarra elétrica), Jack DeJohnette (baterias), Dave Holland (baixo elétrico), Don Alias (bateria e percussão), Bennie Maupin (clarinete) e muitos outros.
“Pharaoh’s Dance”, a canção de abertura, tem 20 minutos de duração e mostra uma singela anarquia da junção de todos esses instrumentos. O baixo elétrico pontua as baquetas e Miles Davis aos poucos vai sobrepondo seu trumpete com as belas partituras de piano. Ali se vê a proximidade que os músicos tentam estabelecer com as jam sessions de rock, suscitando em uma mistura de referências orquestrais. Nesta mesma canção, percebe-se um toque de ancestralidade ao tentar recriar um tema que sugere algo ritualístico.
A partir daí, nascia o Fusion Jazz. Ao recriar uma jam session à sua maneira, sempre orientando os músicos a buscarem as melhores notas para compor os temas, Miles Davis deu ao jazz uma roupagem mais psicodélica e abusou como pôde de instrumentos elétricos e das variações rítmicas, como se cada canção fosse uma sucessão de marés altas e baixas, jorrando como água doce em nossos ouvidos.
Essa experimentação é explicável. Miles Davis era grande fã de Hendrix, da renovação estética que Sly Stone trouxe ao R&B e também da energia de palco de James Brown. Na verdade, ele já tinha uma carreira consolidada depois de trazer inúmeras experimentações no campo jazzístico. Talvez, Bitches Brew representasse mais uma renovação pessoal de Davis, que acabou tendo proporções gigantescas por romper com o purismo do passado.
Uma das muitas obras-primas de um dos maiores músicos do século passado, Bitches Brew é indispensável na discografia de qualquer apreciador de música.
