
Membros do Arcade Fire posam para o jornal New York Times (foto de Christinne Muschi)
Uns dizem que foram os Strokes. Outros, o Arctic Monkeys. Alguns balbuciam que foi o Radiohead. Há defensores do White Stripes. Também tem quem diga que foram os caras do Franz Ferdinand. Mas os verdadeiros salvadores do rock não vêm de terras frutíferas no cenário da música pop, como Estados Unidos ou Inglaterra. Eles são canadenses, são um septeto e não fazem som dançante. Também não são lá muito carismáticos, mas se esforçam para garantir aos fãs as apresentações mais catárticas na atualidade.
Vamos direto ao ponto: o representante-mor do gênero mais agitado e controverso já existente depois dos anos 2000 é o Arcade Fire. E explicar isso vai exigir um pouco da sua paciência. Win Butler e companhia receberam todos os elogios possíveis, mas jamais estariam associados a um cargo que muitos críticos de música enchem as sacolas de pedra para dar um peso desnecessário, inexistente.
Primeiramente, pergunto: por que grupos que tentam revitalizar gêneros que foram explorados ao máximo em décadas passadas costumam ser endeusados? Nada contra os Strokes, mas tudo aquilo que eles sugerem já foi batido por Lou Reed e Jim Morrison faz tempo. O mérito desses ingleses está em oferecer essa estética a um público mais jovem, que provavelmente nunca colocou para tocar uma música do Velvet Underground no iPod.
As músicas do Arcade Fire não são repetitivas, apesar do método quase messiânico que tornou-se uma fórmula de sucesso
Não pretendo desconstruir tudo o que já foi dito sobre as bandas candidatas ao prêmio de salvadores do rock, mas o Arcade Fire é o grupo que deveria merecer essa honraria. E aqui não pesa a qualidade da música de cada grupo, mas as diferentes propostas que garantiram um sincretismo ao ritmo e, consequentemente, impediram seu sepultamento.
Win Butler, sua esposa Regine Chassagne e os outros cinco grandes músicos se destacam pela forma que fazem o rock, e não pelo alcance. Mesmo porque ficaria difícil para uma banda que deu o título de Funeral para o seu primeiro álbum esperar atingir as primeiras colocações em vendas. Começaram pelo indie sim, fazer o que, mas é um som que se destaca pela unicidade.
Além dos convencionais baixo, guitarra e bateria, instrumentos como acordeão, xilofone, trompa, harpa e mandolim estão presentes em canções que preferem investir em uma sonoridade conjunta do que destacar o virtuosismo de cada integrante. Isso garante que as músicas retomem o método erudito de composição: cada instrumento entra no momento certo para proporcionar um tom melódico mais rígido, concentrado e, sim, ponderado – algo que difere do tradicional ‘do it yourself’ ao fazer o bom e velho rock’n roll, mas que agrega e muito ao valor da música pop como um todo.
Assim, fica difícil enjoar das músicas do Arcade Fire. Elas não são repetitivas, apesar do método quase messiânico que tornou-se uma fórmula de sucesso para o grupo. Se analisar, todos os três álbuns têm uma essência: começam de forma bucólica e com um ar mais pesado e reflexivo, até atingir uma aura roqueira bem intimista, que ainda assim não deixa de empolgar. Por mais que eles queiram dar um tom autoral às composições, ali se percebe que a alma roqueira está mais que presente: das baladas mais soturnas, como “Crown of Love” (Funeral), às experimentações mais bem-sucedidas, como “Black Wave/Bad Vibrations” (Neon Bible), todas elas têm a similaridade de serem musicalmente audaciosas, simbolizando a eterna busca da perfeição sonora.
Quando foi lançado em 2004, Funeral parecia ser apenas mais um bom lançamento indie. Demonstrou ter um potencial a mais pela ousadia dos músicos em tratar um tema tão complicado como a morte de forma antológica, que deixava de lado o discurso direto para contorná-lo sem que o ouvinte ficasse confuso demais. Afinal, se ele não entender bulhufas, saberia que a densidade do acordeão ou a sobriedade do baixo dialogam diretamente com o título do álbum. Só para citar uma canção: “Neighborhood #3 (Power Out)” fala do ostracismo de uma família que já assimilou a morte ao seu jeito de viver. Mais ou menos como no filme Morangos Silvestres, clássico de Ingmar Bergman: por ter uma educação rígida e uma personalidade fria, o velho já convivia com a morte antes dela chegar. E ele só percebe que deixou de viver os longos anos que a sorte lhe rogou quando está perto de morrer.
Para dar toda essa impressão de tristeza, o Arcade Fire teve que ambientar todas as canções do álbum para oferecer algo conceitual – como todos os demais trabalhos também o são. Todavia, ainda dá para agitar e mexer muito com clássicos precoces como “Wake Up” e “Rebellion (Lies)”.
Com o trono garantido, veio o perigoso teste do segundo álbum. Neon Bible não leva o conceito tão a sério quanto o debut, mas dá os primeiros passos para conquistar o mainstream: “Keep The Car Running” e “No Cars Go” têm letras fáceis, para serem ovacionadas em estádios, além de uma levada pop com a síncope dos teclados e os riffs de guitarra. Aliás, são essas incursões roqueiras que garantiram o devido reconhecimento do grupo no cenário pop – apesar de o autor destas linhas acreditar que os melhores momentos são aqueles em que o modo miniorquestra é ativado e pérolas como “Intervention” e o lindo backing vocal de “(Antichrist Television Blues)” fluem naturalmente, como se todos os integrantes tivessem acabado de largar a faculdade erudita de música para conquistar o mundo.
Nomes garantidos em qualquer lista de melhores álbuns de 2004 e 2007, com Funeral e Neon Bible o Arcade Fire tinha tudo, porém ainda causava estranhamento. A pergunta era: como conquistar uma legião de novos fãs sem comprometer a qualidade musical?
A resposta dessa pergunta veio com The Suburbs. Resgatando vertentes mais clássicas do rock, como se vê na faixa-título e em “Month of May”, o Arcade Fire veio com mais um tema complicado para destrinchar em cerca de uma hora de álbum, sem deixar de lado o aspecto soturno de canções ótimas como “Empty Room”, “Deep Blue” e “Sprawl II (Mountains Beyond Mountains)”.
A dinâmica do The Suburbs é bem melhor arquitetada que os álbuns anteriores: há uma mescla de músicas alegres, para refletir, outras para refletir mais ainda, para pular, para cantar junto… Tornou-se a principal porta de entrada para começar a ouvir o grupo, graças àquilo que ainda não tinha conseguido com tanto louvor: o alcance e a aceitação geral.
Timidamente, Win Butler e companhia foram abrindo brechas para que o mainstream entrasse na sua onda, evitando que ocorresse o contrário. Será que, com o desgaste desses novos grupos que vieram com a proposta de renovar o rock, o público começou a dar ouvidos a um rock mais encorpado e cult? O culto à música de qualidade finalmente resolveu sair do armário?
Que nada. O rock perdeu seu posto de ritmo jovem. Com a black music e o pop mais puxado para o eletrônico, repleto de sintetizadores e barulhos praticamente inaudíveis, o rock entrou em um ostracismo gigantesco e tornou-se um ritual nostálgico em detrimento de sua constante renovação. Noutras palavras, entrou em um ciclo decadente de saudosismo.
Som do Arcade Fire é uma particularidade, não uma tendência. O método de atingir tal feito é o que garante a coroa de ‘salvadores’ ao grupo
Não pode-se negar a influência de todos os grupos citados no primeiro parágrafo deste artigo. Mas todo o processo de revolução no campo musical passa por um teste complicado chamado tempo. Fazer uma releitura do antigo é bom, mas o filho que ocupa o mesmo ofício do pai vive à sombra das realizações do seu progenitor. E fica em segundo plano sem querer, por mais que demonstre sabedoria e habilidade.
O Arcade Fire propõe essa renovação, apesar de haver uma barreira muito grande. Seu som não é uma tendência, é uma particularidade. Mas é o método de atingir essa particularidade que garante essa coroa ao grupo canadense. Buscar novas possibilidades para o rock é a alternativa viável para devolvê-lo o posto de principal ritmo em todo o mundo. Afinal, se tem uma coisa que sempre dá certo na música, seja no ambiente que for, essa coisa é a originalidade. E isso o Arcade Fire tem de sobra.
