Adoradores do rock podem tentar dar legitimidade qualitativa ao gênero, mas raramente conseguem. Porque rock é mais atitude que música em si. Isso é o suficiente para explicar porque, nos últimos anos, bandas nacionais como Restart, Fresno e NX Zero atingiram as melhores colocações nas paradas. Fácil explicar: sem uma ruptura estrondosa, prevalece as imposições de mercado. Para acabar com isso, algo deve surgir debaixo para cima.

O fato de não haver essa revolução não exprime a qualidade do que tem sido lançado por aí. Se houvesse justiça, nomes como Herod, Bemônio e Lê Almeida protagonizariam cenas do post-rock, dark-ambient e noise-rock dentro de um contexto inovador, pensando a nível Brasil. Eles não têm esse respaldo e estão certos em não procurá-lo. A busca seria em vão.

[pullquote]Os desdobramentos do movimento social de direita têm causado impacto maior do que alguns esquerdistas gostariam de acreditar. E, pasmem, o próximo álbum de Lobão pode protagonizar essa ruptura que tanto se procura no rock brasileiro.[/pullquote]

Isso não quer dizer, por outro lado, que nada esteja acontecendo. Os desdobramentos do movimento social de direita têm causado impacto maior do que alguns esquerdistas gostariam de acreditar. E, pasmem, o próximo álbum de Lobão pode protagonizar essa ruptura que tanto se procura no rock brasileiro.

Talvez desde Cazuza e Renato Russo o rock brasileiro carece de uma figura de impacto, com carisma para agradar as massas – o que não quer dizer, obviamente, que Lobão disponha do mesmo talento que o conterrâneo carioca. Em seu último show, não economizou rusgas para chamar a presidente Dilma Rousseff de ‘bandida’, além de criticar o partido PT abertamente em “A Marcha dos Infames”.

Lobão representa uma polarização que lembra a radicalização do “Movimento Contra as Guitarras”, encabeçado pela turma da música popular brasileira nos anos 1960 e que envolvia Geraldo Vandré e Elis Regina. Ainda que fosse arbitrário, aquele movimento, mote para consolidação artística do Tropicalismo, travava combate a partir de uma ideologia centrada na música. Com o passar do tempo, esses dois grupos foram se dialogando. É salutar encontrar artistas da MPB ancorados em guitarras elétricas.

Quando o embate parte para o campo político-ideológico, não dá pra se dizer que uma revolução se antecipa. Contextualizando: se o novo disco de Lobão vender bem, não quer dizer que houve uma ruptura de mercado (uma vez que ele vai lançá-lo via crowdfunding). Nenhuma linha de raciocínio nos impede de chegar à conclusão que, o que Lobão diz, é deturpado. E essa deturpação pode ter impactos grotescos – ora bolas, vide o nazismo, que obteve proporções gigantescas apesar de sua ideologia monstruosa.

Voltemos, então, ao mercado. O episódio final da temporada de SuperStar colocou algumas bandas roqueiras em cena, como Scalene. A repercussão de sua derrota na final foi volumosa a ponto dos espectadores questionarem a TV Globo: ‘Foi marmelada’, alguns disseram.

Isso só nos faz lembrar que, assim como as inúmeras hashtags no Twitter que pediam Restart no Glastonbury há três anos, ou bradavam para que tal canção de NX Zero dominasse a programação da extinta MTV Brasil são parte do que o brasileiro, em sua maioria, entende de rock. Rock, para fãs, é mimimi. Este é o barulho máximo que essa expressão, infelizmente, atinge por estes trópicos. A qualidade é ofuscada por desejos de criança. Comemorar o Dia do Rock, diante disso, soa trágico.