O evento não vai mudar de nome. Mesmo que isso não fosse prejudicial aos negócios, Rodrigo Medina e a turma de investidores não teriam êxito em encontrar termo melhor para encapsular simbologias que definem, mesmo que subjetivamente, as reais intenções do Rock in Rio.
Antes de tudo, a cidade do Rio de Janeiro não é aleatória. Que lugar melhor que a dita ‘Cidade Maravilhosa’, o mais próximo ao paraíso que os citadinos podem dispor, para consumir o que realmente deseja?
Mesmo um paulistano, um recifense, um belo-horizontino pode se sentir ‘abrigado’, afinal, o Rio de Janeiro é uma metrópole, que pode oferecer ‘de tudo’, ‘do bom e do melhor’, para satisfazer desejos de consumo – mesmo que este consumo seja cultural.
[pullquote]Pois, o que é o Rock in Rio se não o símbolo-mor da indústria dos festivais, o desejoso festival que vende a ideia do ‘eu vou’, ‘eu fui’, como se fosse um acontecimento histórico importante?[/pullquote]
É aí, então, que entra o ‘rock’. Mesmo que o gênero tenha sido criação de artistas negros que incorporaram ao blues a eletrificação das guitarras, com nomes como Muddy Waters e Chuck Berry, foi na performance e no sex appeal de homens brancos que o rock encontrou sua associação mais profícua: Bill Haley, Elvis Presley, Buddy Holly e, depois, os Beatles, deram início a uma propulsão que separaria de uma vez por todas a utópica integração racial e social que o rock pudesse protagonizar.
Ao contrário do blues, o rock seria o som dos excessos e vontades de uma juventude que não queria ficar lamentando sobre a vida, as mulheres e o trabalho. O rock representava alegria, festa, desbunde, escape. Era a quebra de comportamento por sua atitude, não por sua análise ou reflexão. Não demorou para que, depois, apenas a ideia de quebra de ruptura já era suficiente para satisfazer o público mais sedento por guitarras. Então, prevaleceu a imagem ante o comportamento ou a verdadeira quebra de barreiras.
O homem branco, caucasiano, com atitudes que lembram James Dean e com um instrumento na mão formava o arquétipo ideal do rock star.
O escritor Albert Goldman, biógrafo de músicos como John Lennon e Elvis Presley, compreendeu que a apropriação por parte de uma indústria que queria lucrar com esta música foi mais nociva do que muitos imaginariam. Em suas palavras:
“Coloquemos de forma desajeitada: como um garoto de classe média mimado, com rosto de leite, que nunca teve uma pedra no sapato, cantaria o blues que pertence a alguns negros velhos espancados que viveram sua vida na pobreza e na miséria?”
A resposta é que, se por um lado houve uma febre pelo entretenimento inocente e pueril, por outro houve uma desapropriação cultural que, ao invés de atentar à possibilidade de integração social, optou pela criação de um novo estilo de vida, novos símbolos sexuais e novos rostos em busca de algo muito caro à indústria de massa: audiência.
Se tanta gente gostava daquele som e do que ele provocava, por que não lucrar com isso? É a fim de manter a audiência sempre lá em cima que os meios de comunicação de massa se apoiam no que o crítico alemão Theodor Adorno chamou de ‘estandardização’, que, em resumo, é o seguinte:
“O espectador não deve ter necessidade de nenhum pensamento próprio, o produto prescreve toda reação”.
Perceba a dimensão disso: o capitalismo gira dessa forma.
Ou seja, a economia depende das forças de trabalho que, por sua vez, depende de seus trabalhadores.
É esse ciclo que forma a engrenagem do capitalismo. Funciona da mesma forma em relação à indústria cultural – afinal, ela ‘capitaliza’ com o que propaga como cultura. E não faz mal se isso é repetitivo ou desgastante porque, se a reação do público gera o lucro, não há porque alterá-la.
O crítico literário Fredric Jameson explica melhor:
“Mais do que ser uma qualidade negativa da cultura de massa, a repetição é simplesmente uma característica fundamental de toda produção cultural sob o capitalismo contemporâneo”.
Pois, o que é o Rock in Rio se não o símbolo-mor da indústria dos festivais, o desejoso festival que vende a ideia do ‘eu vou’, ‘eu fui’, como se fosse um acontecimento histórico importante, trazendo diversas bandas internacionais como se estivesse oferecendo a ‘oportunidade única’ de vê-los?
A repetição é evidente: para ter o ‘êxito’ que o consagrou 30 anos atrás, eles decidiram chamar o Queen. E, como é elementar, trouxeram um Queen fragmentado, que já não desfruta da mesma relevância que tinha com o notável frontman Freddie Mercury. Relembrar, neste caso, não é viver; é capitalizar. Da mesma forma que eles optaram por trazer novamente o Metallica, banda que decidiu ‘reconciliar’ com o público brasileiro – afinal, a banda veio na edição passada e soma 6 participações ao total (incluindo as edições fora do País).
O marketing de que o alto preço compensa o fato de estar lá – como se isso não tivesse preço, de tão maravilhoso que é – são táticas de um produto da indústria cultural. A própria noção de rock compreende que promover o fascínio é um dos principais tentáculos dos empresários que realmente ganham dinheiro com esse negócio. Por isso, não importa, nem nunca importou, quem realmente estará lá: se uma tentativa de emular Freddie Mercury, uma banda pop que se traveste como metaleira ou aquela cantora que adora postar fotos em iates.
Mesmo que fossem bandas de rock de verdade em seu line-up, o que prevalece é o ideal subjetivo de que aquilo é o essencial, que você tem que participar de algo dessa grandiosidade.
Nada é mais rock que isso, bebê!
