Existe um paradigma eterno dentro do jazz: como um movimento musical que prega a liberdade pode livrar-se de suas amarras? Neste gênero, o puritanismo ainda resiste e é forte. Por isso, existe uma grande aversão quando novos artistas tentam inovar dentro deste terreno onde, dizem, quase tudo já foi explorado.
O pianista Robert Glasper sabe disso. Por isso que, em seu novo trabalho, intitulado Black Radio, chegou a afirmar que não quer mais tentar fazer com que o público caia nas graças de Charlie Parker. Ele gosta, e isso já basta. Deixa a campanha do passado para os sons do passado, que hoje todos têm acesso.
Dizer que Black Radio é absolutamente uma coisa nova pode ser passível de erro. Na verdade, a síncope do jazz flerta naturalmente com o hip hop e neosoul. E, para que a mescla soe perfeita, não poderia faltar um time poderoso de convidados, além da banda Experiment, composta por Casey Benjamin (sax), Derrick Hodge (baixo) e Chris Dave (bateria).
Erykah Badu parece se aventurar novamente nos caminhos de Mama’s Gun em “Afro Blue” (cover de Mongo Santamaria) que, além do piano que entra em curtos solos, também é potencializado por flautas.
Lalah Hathaway, filha do soulman Donny Hathaway, coloca sua voz de música clássica entre loopings intergalácticos nas baterias de Chris Dave em “Cherish the Day”, gravada primeiramente em 1992 pelo grupo Sade.
O cantor Bilal Oliver – que já colaborou com J Dilla, Jay-Z, entre outros – pode se vangloriar por assinar duas participações neste belo disco: “Letter to Hermione”, clássico de David Bowie que aqui cai em um smooth jazz tranquilo com notas econômicas no piano, e “Always Shine” que, ao lado da colaboração de Lupe Fiasco, pode ser considerada uma das mais lindas do disco por ser separada em três lindos momentos: o solo melódico de Glasper no início, os versos dos cantores que dão ritmo à música e, por fim, o refrão em crescendo que poderia ser facilmente estimulado por um músico que tocasse com ?uestLove.
Segundo Glasper, o título do disco surgiu na colaboração com Mos Def na faixa-título, um hip hop cru levado novamente pela pulsação de Chris Dave, enquanto o rapper passeia pelas notas no piano de Glasper com interjeições vocais que supõem o encontro de ritmos. Vale lembrar que Mos Def está assinando agora como Yasiin Bey.
Black Radio também traz um cover bem improvável para um disco de jazz/R&B/hip hop/neosoul: uma versão nada provável de “Smells Like Teen Spirit” levado ao piano em vocais minimalistas de autotune. Ainda que não se equipare à qualidade das outras 11 faixas, o remake da canção do Nirvana serve para evidenciar que o descompromisso e a liberdade de trafegar entre gêneros ainda é uma fórmula em potencial dentro do jazz.
