
Adele e PJ Harvey: duas cantoras que mostraram rumos diferentes para a música em 2011
Um resumo para 2011? Foi um ano em que o afro-beat foi revisitado no Brasil de diversas formas, seja no rap de Criolo ou no tom industrial dado pelo Burro Morto. Lá fora, Amy Winehouse mostrou-se ainda mais influente com o lançamento do disco de Adele e o propósito de disco conceitual impregnou até o punk, como ilustra o álbum do Fucked Up, David Comes to Life, um dos melhores do ano.
Entretanto, também foi um ano triste não só pelo alastramento do dubstep chato do James Blake; muita coisa poderia passar batido.
Confira a seguir alguns dos momentos mais marcantes do ano:
The Strokes decepciona com Angles
Depois de 10 anos de Is This It, todo mundo esperava que a banda fosse surpreender novamente com um novo disco de estúdio após 6 anos de First Impressions of the Earth. Por mais que o Na Mira do Groove tenha gostado do álbum, a aura do grupo parece ter se perdido. “Under Cover of Darkness” é um bom single, mas foi demais pros fãs terem que engolir a chatice de “Games” ou a psicodelia barata de “Machu Picchu”. Eles prometeram se trancafiar de novo numa segunda tentativa.
Já o Foo Fighters…
Mandou muito bem com o lançamento do pesado Wasting Light.
Mike Skinner acabou com o The Streets
Tudo bem que ele se redimiu com um ótimo lançamento: o disco Computers and Blues. Mas um dos rappers mais criativos da atualidade encerrar abruptamente um projeto tão bacana como o The Streets, foi dose. Mais ou menos o mesmo impacto que James Murphy ter acabado com o LCD Soundsystem. Skinner quer ficar na produção, não mais nos holofotes. E vem fazendo isso bem com o The DOT.
Dois artistas influentes morrem: Gil Scott-Heron e Amy Winehouse
É sempre chato falar de obituários, mas acho que estes foram os artistas mais influentes na música atual que faleceram em 2011. Scott-Heron ainda estava colhendo os frutos do excelente I’m New Here. Tanto, que até ganhou um disco de remixes do novato Jamie xx, We’re New Here, onde as texturas sonoras obscuras receberam um tratamento de dubstep. Até o rapper Drake entrou nessa onda e lançou um disco inspirado por uma canção do experiente músico: Take Care, que dialoga com “I’ll Take Care of You”. Já Amy Winehouse estava se recuperando das drogas e das péssimas turnês. Ela até fez um show protocolar no Summer Soul Festival no Brasil, mas tinha uma longa caminhada para se recuperar completamente. Com o póstumo Lioness: Hidden Treasures, impressionou bem nos duetos com Tony Bennett (“Body and Soul”) e Nas (“Like Smoke”).
Radiohead confunde tudo
Muitos fãs da banda inglesa ficaram decepcionados com The King of Limbs. O disco mostra novos rumos do Radiohead: algo mais dubstep, quebrado, anacrônico. A proximidade com o pop que ouvimos em In Rainbows, por lá ficou. Mas o Na Mira do Groove gostou de se perder nesta selva de incertezas. Tanto, que teve que fazer duas resenhas sobre o disco.
PJ Harvey e Adele: duas musas que seguiram caminhos diferentes…
As duas são inglesas e as duas lançaram dois dos melhores discos do ano. O que liga uma a outra além disso? São duas cantoras premiadas que merecem uma atenção especial justamente por uma representar o oposto da outra. Adele canta sobre seu íntimo e eleva sua voz a patamares de causar inveja; PJ Harvey decidiu dissecar um tema complicado como a Guerra Mundial para contextualizá-la nos dias atuais, tocando instrumentos acústicos e recriando cenários trágicos. Enquanto Adele fala que está “perto o suficiente de começar uma guerra” com as inconstâncias amorosas (“Turning Tables”), PJ Harvey fala que a “morte está em todo lugar” naquele cenário destrutivo da 1ª Guerra Mundial (“All and Everyone”). Ambas foram premiadas. Ambas foram reconhecidas. Ambas impressionaram. E ambas escreveram capítulos diferentes na história da música em 2011.
Criolo surpreende todos e Emicida… também!
Nó na Orelha confundiu os ouvintes a ponto de eles questionarem o próprio rap. “As temáticas estão lá”, disse Criolo sobre o disco. Tem afro-beat, brega, dub e um monte de gêneros que você já cansou de ouvir falar. A verdade é que o rap atingiu novos patamares. Com Emicida, a contribuição-mor veio com o lançamento de Doozicabraba e a Revolução Silenciosa, produzido por batidas criativas de K-Salaam e Beatnick. Sem falar que o rap deu inúmeros outros exemplos de estar evoluindo: Projota e Rashid lançaram discos, Ogi foi bem a fundo no conceitual Crônicas da Cidade Cinza, Rael da Rima colheu bons frutos com Música Popular do 3º Mundo…
Afro-beat conquistou a música brasileira
Fela Kuti olhou por todos nós de lá de cima. Nunca nossa música foi tão influenciada por suas batidas como agora. Exemplos? Anelis sampleou o cara em “Sonhando”; Bixiga 70, cujo nome remonta à clássica banda de apoio de Fela, Afrika 70, lançou seu primeiro disco; Aricia Mess caiu no gingado com Onde Mora o Segredo; Baptista Virou Máquina, do Burro Morto, revisitou o gênero com levadas industriais num disco-conceito também recheado de prog-rock; MarginalS puxou algumas referências de lá e temperou com free-jazz; Criolo impactou com “Bogotá” e “Mariô”… nossa, é tanta coisa! E, calma aí, não é só por aqui: Beyoncé também foi influenciada por Fela no disco 4 e Seun Kuti, filho do homem, lançou disco após seu irmão Femi Kuti conquistar os fãs no ano passado com Africa For Africa. Viva Fela!
TV On the Radio soa melancólico; o baixista Gerard Smith falece
Nine Types of Light foi produzido por David Sitek e é um ótimo disco. Pena que o baixista Gerard Smith não pode conferir o sucesso do álbum, já que veio a falecer somente alguns dias depois do lançamento oficial do disco. R.I.P.
Bandas internacionais bombam no Brasil. Já o Brasil, não tem o mesmo tratamento lá fora
Pelo menos não no rap. Emicida teve que dar ‘vários pulos’ para conseguir o visto e representar o país no Festival Coachella. Conseguiu! Em compensação, alguns artistas de fora mostraram desrespeito ao iludir fãs e darem o cano. Falo de Cee Lo Green, Prince, The Vaccines e Jay-Z – estes dois últimos, pelo menos, avisaram com muita antecipação. Mas foi bom saber que esta demanda aumentou neste ano. Veio John Legend & The Roots, Public Enemy, Pearl Jam, Faith No More, Sonic Youth, LCD Soundsystem, The Strokes, Stevie Wonder e muitos, muitos outros!
Em 2011, voltamos aos anos 90
Não é só porque o Nevermind completou 20 anos. Beastie Boys finalmente lançou um disco novo com o mesmo vigor de outrora e bandas como Yuck revitalizaram o grunge. E fizeram muito bem! Ah, outra coisa: camisa xadrez voltou a virar moda.
Dubstep invade o mundo
Nomes como Skrillex e James Blake impactam o cenário musical. Mas, convenhamos: são dois chatos. Nicolas Jaar fez um bom disco do gênero, mas o SBTRKT e o Rustie foram bem melhores com seus lançamentos. Sem falar que as duas faixas do trio parada-dura – Thom Yorke, Burial e Four Tet – que foram lançadas são ótimas.
Ainda sobre o dubstep: rap abraça o gênero
Prova disso é o sucesso dos discos de The Weeknd e Drake. Mas, se eles continuarem com esse diálogo para todo o sempre, vão acabar caindo no poço da chatice. Por enquanto, está bom. Vamos ver depois…
Muitos discos conceituais
Até o punk rock abraçou essa ideia, como podemos ver em David Comes to Life, o grandioso quarto disco do Fucked Up. PJ Harvey e Let England Shake dispensam comentários. Stephen Marley tentou seguir os mesmos caminhos do pai com Revelation part 1: The Roots of Life, o M83 se inspirou em sonhos de crianças no álbum duplo Hurry Up, We’re Dreaming, Björk desvendou o espaço com Biophilia… Até o grupo de hip hop/R&B The Roots seguiu nesta empreitada e se deu bem com undun. Mas teve gente que tentou fugir disso: depois de lançar diversos discos conceituais, a banda de rock pesado Mastodon gravou um ‘disco comum’: The Hunter, que é tão bom quanto os trabalhos anteriores.
E as grandes decepções?
Ficam por conta do lançamento do Jane’s Addiction, a parceria fracassada do Metallica com o Lou Reed, o SuperHeavy, o disco novo da Joss Stone…
Os pontos altos?
Tyler, the Creator fala muita baboseira e já deu indícios de homofobia em suas canções, mas finalmente veio para acabar de vez com esse tal de rap bling-bling, que infecta o gênero há muito tempo. Lil’ B, entretanto, mostrou que é possível ser rapper e ser gay, contra todos os paradigmas. Ponto alto também para a nova música paulistana, que está dando um banho. Muito por conta de músicos do porte de Marcelo Cabral, Romulo Fróes, Rodrigo Campos, Thiago França, Daniel Ganjaman, Criolo, Emicida, Kiko Dinucci, Juçara Marçal, Anelis Assumpção, Gui e Rica Amabis… a lista é imensa! Ah, e Tom Waits lançou seu melhor disco desde Mule Variations, de 1999.
2011 em um termo
Volta ao passado, mas com classe. Ou o passado para entender o presente. Ou revisitando o passado. Ou, o passado é o que há!
UPDATE IMPORTANTE
Além de todos os acontecimentos de cima, teve uma notícia que passou batido: o fim da banda R.E.M. que, além de ter gravado um bom disco de encerramento neste ano, Collapse into Now, lançou um box especial não apenas para os fãs, mas para aqueles que também querem conhecer mais a fundo a banda de Michael Stipe. O nome desta coletânea, que também tem canções inéditas: Part Lies, Part Heart, Part Truth, Part Garbage 1982-2011.
