Chicago é a terra do jazz e do blues, e Keiya bem que absorveu essa musicalidade aprendendo a tocar sax-alto.

Mesmo conhecendo a complexidade do instrumento popularizado por Charlie Parker, quis expor o que realmente estava sentido. E não seria o sax para ajudar a expressar-se. “Sentia que não estava sendo verdadeira comigo mesma”, disse Keiya, em entrevista ao Na Mira. “Não achava que pudesse cantar suficientemente bem para gravar discos. Cresci à parte de todas essas inseguranças e decidi parar de ser infeliz”.

O R&B sempre extrapolou seus próprios limites e experimentou. Isso não é algo novo, de depois dos anos 2000: o R&B sempre foi um gênero eclético, pra frente

Morando em um “apartamento de porão de merda” com o namorado também músico, Kalo, Keiya passou de instrumentista para cantora, mas não da forma mais convencional. Enveredou-se logo pelo R&B, que usualmente exige bom apuro vocal, e começou a criar diversas bases para, então, encaixar as letras.

“Falei sobre como me sentia – muito sobre as sutilezas do amor e minhas forças pessoais, tanto na relação com ele [Kalo], quanto comigo”, confessa a compositora.

No dia 24 de fevereiro, Keiya lançou seu primeiro EP, WORK. As 5 faixas falam de sentimentalismo profundo, da forma que vem se tornando habitual na cena R&B pós-moderna.

Foi ela quem gravou, produziu e musicou o trabalho inteiro, que lembra bastante as celebradas FKA-twigs e Kelela, cantoras da nova geração que diz admirar profundamente.

Numa rápida conversa com o Na Mira, Keiya detalhou o processo de gravação do EP, explicou como o R&B tem facilidade de se modernizar e porque decidiu deixar o sax de lado para cantar.

Para uma mulher que tocou sax-alto, WORK mostra uma direção musical bem diferente. Por que você quis lançar um EP como este?
Eu queria me desvencilhar do que estava fazendo, porque não sentia que estava sendo verdadeira comigo mesma. Claro, gosto de tocar saxofone, mas eu meio que caí na vida de ir à escola musical de jazz porque era boa nisso e não achava que pudesse cantar suficientemente bem para gravar discos. Cresci à parte de todas essas inseguranças e decidi parar de ser infeliz. Devia isso a mim mesma, para tentar obter sucesso e felicidade fazendo o que realmente amo.

Muitas progressões de acordes e escolhas melódicas vêm de meu treinamento anterior com jazz

Como o seu trabalho anterior ressoa em WORK?
De maneira bem sutil. Muitas progressões de acordes e escolhas melódicas vêm de meu treinamento anterior com jazz. Pode não ser completamente óbvio, mas você pode traçar essas influências aqui e ali.

Poderia nos dizer como foi o processo de lançamento de WORK? Como foram as gravações, parcerias e influências?
Enquanto eu estava morando em um apartamento de porão de merda, com meu namorado, compartilhávamos alguns equipamentos musicais. Ele também é artista (Kalo) e trabalhamos muito juntos. Eu ainda estava no processo de encontrar meu som e aprimorando minha forma de produção. Fiz muitas das batidas e escrevi diversas canções. Mantive o melhor e mais coeso conjunto. Falei sobre como me sentia – muito sobre as sutilezas do amor e minhas forças pessoais, tanto na relação com ele, quanto comigo.

Você é uma música bem eclética: citou bandas como Cocteau Twins e My Bloody Valentine, assim como Chaka Khan e John Coltrane como influências musicais. Acredita que os ouvintes assimilam melhor esse caldeirão? Ou esse ecletismo é algo que o R&B moderno vem perseguindo desde o início da década de 2000?
Você poderia dizer que minha música é bem pós-moderna. Acredito que é futurística, mas não naquele modelo sci-fi ou de forma desagradável. Apenas de forma natural a música dessa era acaba soando como versos extraídos dos anos 1990. Acredito ser como aquelas milhões de pessoas que possuem ampla variedade de influências, e acho que o R&B sempre extrapolou seus próprios limites e experimentou. Isso não é algo novo, de depois dos anos 2000: o R&B sempre foi um gênero eclético, pra frente.

Seu EP nos remonta a algo próximo de FKA-twigs e Kelela. Era sua pretensão soar como elas, ou WORK tem ainda mais que um ouvinte habitual de R&B pode supor?
Ouço bastante o som das duas, e realmente adoro-as artisticamente por diferentes motivos: acredito que são duas artistas bem importantes para a indústria nesse momento. Definitivamente não quero imitar ou emular o som delas. Minha música é tanto para o ouvinte de R&B, quanto os não-ouvintes. Agora, minha música é bem R&B, sim, e mostra (assim como a música dessas moças) que o gênero realmente não possui limites. Apenas, imagina-os.